Literária

Meu Anjo (Parte II)

Então, pessoal! Aqui está o 2º capítulo do conto “Meu Anjo”, que foi escrito em 2004. Serão dez brevíssimos (10) capítulos postados diariamente. Espero que gostem. Fala sobre encontro, amor e redenção! Boa leitura!

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Capítulo II

Saí dali a tu procura, queria logo saber o resultado do exame. Eu estava aflita quando te encontrei, por isso imediatamente abri o tal exame e encontrei escrito: “soro positivo”.

A senhora recorda-se, mamãe, do quanto chorei em seu ombro? Minha vida havia se tornado escuridão e desesperança. Em nada pensava, apenas chorava e abraçava a ti, que também chorava.

Fomos para casa envoltas de uma mudez que cedia lugar apenas para as palavras de incentivo que, esporadicamente, arriscavas me dizer por amor. Eu, entretanto, estava desnorteada, por isso não me dava conta do que me dizias, nem tinha noção das ruas pelas quais estávamos passando.

Amargurei-me por não encontrar consolo nos amigos de até então: eles viviam apenas para suas noitadas. Minha amizade só lhes fora útil enquanto pude oferecer-lhes algo em troca, por esta razão, passei a ser desnecessária, quando não restava mais nada a oferecer, senão a fraqueza de uma doença incurável.

Mamãe, a senhora é que bem sabe o quanto padeci por rejeição. Sabes que mal eu conseguia dormir e me alimentar e o tanto que a solidão me devorava; só eu, porém, sabia o quanto as palavras dele, meu estranho benfeitor, continuaram inquietando-me: “Eu te amo com amor eteno!” Eu não compreendia o porque as recordava constantemente.

Saí a caminhar sozinha pelas ruas da cidade, quando completados dois meses da descoberta da doença. Entrei no shopping, tomei um lanche, sentei-me na praça de alimentação e, logo após, fui ao cinema assistir ao filme Romeu e Julieta.

Na cena derradeira do suicídio de Romeu e Julieta, alguém tocou minha mão e disse: “Eu te amo com amor eterno”! Gelei de emoção, era a mesma frase e voz que outrora ouvi e era a mesma mão macia que me tocara antes. Tomava-me um espanto de admiração, fascinação… maravilhamento.

Mesmo emocionada, eu quis me impor, por isso, virei-me com os olhos embravecidos para a poltrona em que ele se encontrava. Estava pronta para ataca-lo, mas na escuridão do cinema, seus grandes olhos negros e brilhantes, aplacaram minha fúria, posto que me encontraram.

Levantei-me da poltrona, dizendo-lhe: “Esqueça-me!” Saía pelo corredor, quando o escutei dizer: “Maria, não esqueças: eu te amo com amor eterno”!

Fiquei ainda mais perturbada por descobrir que ele sabia meu nome. De onde ele me conhecia? Que envolvente mistério. Ninguém jamais havia me chamado com tamanho amor. Aquele homem negro, até outro dia nunca visto por mim, chamava meu nome de tal forma que me atraía intensamente. Tendo me recomposta dessa consternação, voltei-me a lembrar do vírus que se infiltrava em minha vida. Maldito vírus que me corroía a vontade de viver…

Leia os demais capítulos:
Meu Anjo (Parte I)
Meu Anjo (Parte III)
Meu Anjo (Parte IV)
Meu Anjo (parte V)
Meu anjo (Parte VI)

6 comentários em “Meu Anjo (Parte II)

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