Literária

Meu Anjo (Parte IV)

Então, pessoal! Aqui está o 4º capítulo do conto “Meu Anjo”, e o dilema agora é: o que pode fazer por nós os que nos amam, quando nós mesmos já desistimos da gente?

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Capítulo IV

Quantas foram as loucuras que tentei cometer naquela minha reclusão, não foi mamãe? Minha vida não tinha mais sentido, não tinha uma razão de ser. Até o amor que ele, o meu anjo, me oferecia parecia não fazer sentido? Como vou aceitar o amor de alguém, se eu estava destinada à morte? Como esse alguém permaneceria me amando, sabendo que sua vida estaria em risco? Ele me amava realmente? Não iria embora, como os amigos de outrora, que me abandonaram? “E mesmo que ele me ame – pensava eu – não “tenho o direito de exigir dele uma atitude como essa: condenar sua vida ao lado de uma garota soro positivo”

Realmente a vida não tinha sentido, já que eu não poderia nem desfrutar do amor que me ofereciam. Eu deveria banalizar minha vida, então, e a maior banalização é o próprio suicídio por que faz ser descartável aquilo que é perene, inestimável.

Lembras, terna mãe, quando me encontraste vertendo sangue através dos pulsos cortados? Ou quando topaste comigo na janela do meu quarto, aos prantos, pronta para atirar-me janela abaixo? Recordo-me ainda da vez em que tomei uma imensa quantidade de tranquilizantes e daquela outra em que moí vidro para ingerir com veneno. Felizmente sempre me encontraste a tempo!

Eu não desejava, de fato, a morte. Apenas estava desprovida de esperança, julgava que nunca encontraria algo pelo que eu procurava e não conhecia: a felicidade. A última procura era através da própria morte.

Essa busca (desejo) era a minha salvação, graças a ela não deixava de habitar em mim uma centelha de fé de que encontraria a felicidade. A fé ficou bem clara para mim, quando tive oportunidade de me dar um tiro fatal e não o fiz. Encontraste-me com a arma na mão, chorando silenciosamente, no canto de meu quarto. No fundo, eu invocava o desconhecido pelo qual eu ansiava.

Mamãe, se alguém eventualmente lesse isso que te escrevo, certamente perguntaria onde estava a senhora que não me retirava da angústia em que me encontrava. Decerto, para essas pessoas, eu diria algo sobre sua atenção comigo, sobre a proteção, o zelo e o amor que experimentei sempre e incondicionalmente da parte da senhora.

Certamente eu iria dizer o quanto senhora batalhara pela minha vida, o quanto a sempre me encorajara, o quanto sempre fizera por sua filhinha. Fora sempre minha amiga! Mas o que pode, afinal, a senhora fazer por mim, se não apenas ser uma presença? O que pode alguém fazer por outro que desistiu de si? Por mais que alguém nos ame, jamais poderá nos fazer amar a nós mesmos, se não quisermos. Jamais poderá tomar nossa vida em suas mãos e vive-la por nós, para isso foi-nos dada a liberdade. Isso era coisa que só eu poderia fazer, mas a senhora foi como uma estrela a iluminar meu céu.

Era redentor ver que a senhora estava ali, ao meu lado, não me abandonando, mesmo quando eu lhe parecia um peso ou quando a senhora se sentia inútil e impotente. Só nós sabíamos, mamãe, o quanto sofríamos.

Mas devo agradecê-la, sobretudo, o quanto a senhora abriu-me os olhos para a felicidade – ele, Ângelo – que me tinha grande amor. Através de seu amor, mamãe, pude compreender que minha vida ainda podia ser valiosa para alguém, independente de qualquer coisa. Por isso, criei ânimo interior para me abrir àquela boa nova que recentemente apareceu em minha vida: o amor de Ângelo. Mas como encontrá-lo? Será que ele ainda esperava por mim, agora que já se passara tanto tempo desde nosso último encontro?

Leia os demais capítulos:
Meu Anjo (Parte I)
Meu Anjo (Parte II)
Meu Anjo (Parte III)
Meu Anjo (parte V)
Meu anjo (Parte VI)

8 comentários em “Meu Anjo (Parte IV)

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