Histórica

Solar do Conde Subaé, nossa Casa do Samba

Nossa cidade amanheceu com a lamentável notícia do desabamento da sacada do Solar Araújo Pinho, após as chuvas que acometeram Santo Amaro nessa madrugada de 26 de abril de 2020.

O Solar do Conde de Subaé, também chamado Solar Araújo Pinho, situado à Rua do Imperador, nº 1 (antiga Rua Jerônimo Gonçalves), foi tombado por sua importância cultural. Segundo dados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Dr. José Moreira de Carvalho, pai Francisco Moreira de Carvalho (Conde de Subaé), mandou construir a casa em 1873 (data evidentemente equivocada, provavelmente por algum erro de digitação). Uma vez que sabemos que “em 1859, seu filho Francisco Moreira de Carvalho [Conde de Subaé], constrói o segundo pavimento para aí hospedar o Imperador D. Pedro II” (IPHAN), que estava em visita ao Nordeste do país, incluindo o Recôncavo Baiano.

Em nossa região, o imperador passou por Nazaré das Farinhas, Jaguaripe, Itaparica, Cachoeira, Feira de Santana, São Gonçalo, Conceição de Feira, São Félix, Muritiba, Maragojipe, São Francisco do Conde e Santo Amaro, conforme seu registro no Diário da Viagem ao Norte do Brasil. Em Santo Amaro, permaneceu de 11 de novembro a 13 de novembro de 1859, segundo nos relata Pedro Tomás Pedreira em Memória Histórico-Geográfica de Santo Amaro, p. 160-165).

Francisco Moreira de Carvalho, Conde de Subaé, nasceu em Santo Amaro em 13 de março de 1825 e faleceu em Salvador, no dia 16 de junho de 1888. Era advogado formado pela Universidade de Coimbra (Portugal), senhor de engenho e político, tendo sido vereador na Câmara de Santo Amaro por alguns quadriênios, inclusive na ocasião da visita de Dom Pedro II.

A visita do imperador D. Pedro II entrou no imaginário popular através da música Trilhos Urbanos, de Caetano Veloso, que diz:

No cais de Araújo Pinho
Tamarindeirinho
Nunca me esqueci
Onde o imperador fez xixi

O cais de Araújo Pinho é justamente o cais que ficava defronte ao Solar e no qual o imperador desembarcou, conforme os documentos: “Logo em uma rampa de pedra, à entrada da Cidade à margem esquerda do rio e em frente da propriedade do Sr. Dr. Francisco Moreira de Carvalho, estava armado um pavilhão que este proprietário à sua custa havia mandado levantar. Era simples e de bom gosto. Constava de quatro colunas de frente sobre três de fundo, todas brancas raiadas de Azul fingindo pedra, e tomadas por cortinas brancas transparentes que iam morrer nas bases das mesmas colunas pintadas em quadro como almofadas, e com capitéis raiados de cor de rosa, e abraçados por festões em simetria com outros que se achavam nas bases” (Viagem Imperial apud PEDREIRA, 1977, p. 161).

O Solar

Conforme descrição do IPHAN, a “Casa urbana de dois pavimentos, sobre um porão alto, construída em alvenaria de tijolo, com paredes internas de pau-a-pique. O estado de arruinamento a que chegou, dificulta sua identificação tipológica. Volumetricamente esta residência parece inspirar-se no Paço da cidade do Rio de Janeiro, sendo constituída de três corpos. O central, mais largo e avançado, possui dois pavimentos e os corpos laterais possuem apenas um pavimento. O jardim se articula diretamente com o pavimento nobre através de uma dupla escadaria externa. No centro do edifício existe uma torre semi-circular onde se desenvolvia a escadaria principal e que culminava em um mirante. As fachadas são emolduradas por cunhais terminados por capitéis coríntios e cornijas superpostas por platibandas de balaustres que encobriam os telhados”.

O Casarão foi tombado pelo IPHAN em 30 de janeiro de 1979, através do Processo nº 972-T-1978, com a inscrição nº 465 (Livro do Tombo Histórico) e nº 532 (Livro do Tombo Belas Artes).

 

A Casa do Samba

O Casarão do Conde de Subaé foi reformado com verbas do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, do Ministério da Cultura, em 2007. Nele foi inaugurada a Casa de Samba de Santo Amaro, em 14 de setembro de 2007, pelo ministro da Cultura Gilberto Gil e pelo governador Jaques Wagner. A Casa de Samba tem por finalidade a preservação da memória do samba de roda, ritmo musical símbolo de Santo Amaro e do Recôncavo Baiano. O samba de roda, que foi registrado como patrimônio cultural imaterial pelo Iphan em 2004, é uma das grandes contribuições afrodescendentes à cultura brasileira. A gestão do local é da Associação dos Sambadores e Sambadeiras da Bahia (ASSEBA), que está sediada na própria Casa do Samba.

O desmoronamento ocorrido hoje sinaliza para a cidade a antiga necessidade de preservarmos nosso patrimônio histórico-cultural. Agora, é ver como o triste acontecimento pode servir, contraditoriamente, para potencializar as possibilidades desse importante aparelho público.

Fontes:

A Tarde Online. Casa do Samba é Inaugurada em Santo Amaro. Disponível em: https://atarde.uol.com.br/cultura/noticias/1085276-casa-de-samba-de-santo-amaro-e-inaugurada. Acesso: 26 abr. 2020.

PEDREIRA, Pedro Tomás. Memória Histórico-geográfica de Santo Amaro. Brasília, 1977.

Portal IPHAN. Solar do Conde Subaé (Santo Amaro, BA). Disponível em: portal.iphan.gov.br/ans.net/tema_consulta.asp?Linha=tc_hist.gif&Cod=1180. Acesso: 26 abr. 2020.

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