Histórica

Um cônego santamarense e seus filhos

Aos 30 dias de julho de 1863, portanto há 153 anos, falecia na Igreja de N. Sra. da Purificação o Côn. José Joaquim Teixeira dos Santos, que foi pároco da Paróquia de 30 de julho 1824 até aquela data. Foram exatos 39 anos de paroquiato, o que fez dele, entre todos os párocos da Purificação de que já tomei conhecimento (1700-2016), o que teve o paroquiato mais longo da quadricentenária história da paróquia.

Faz quase uma década que pesquiso sua vida e devo o começo dessa pesquisa ao querido professor Dr. Cândido Costa e Silva, o Mestre, como costumo chamá-lo carinhosamente. Em seu livro “Os Segadores e a Messe: o clero na Bahia oitocentista”, professor Cândido estabeleceu uma rica ficha biográfica do Côn. José Joaquim, com a qual me deparei quando realizava as pesquisas para o Jubileu dos 400 anos de criação da Paróquia da Purificação. As primeiras informações que colhi em Os Segadores e a Messe e um pouco mais que descobri, publiquei no meu primeiro livro: “Informes Históricos da Paróquia Nossa Senhora da Purificação: itinerário secular de uma missão”.

A razão de meu interesse pela biografia do Côn. José Joaquim Teixeira dos Santos dá-se por conta da sua prole de 04 filhos, havidos tanto antes do ministério sacerdotal quanto durante o mesmo. Como eu havia escolhido a disciplina do celibato eclesiástico como tema de minhas pesquisas, por ser este o tema que me tocava existencialmente, a história do cônego se revelou uma fonte importante.

O cônego pertencia a uma família oriunda de Portugal (Bispado de Lamego), mas nasceu em Santo Amaro, para onde migrou sua família nos meados do séc. XVIII. Essa família, os Teixeira dos Santos, contemplou a Igreja Católica da Bahia com uma gama de padres, entre os quais cito o Côn. Vicente Teixeira dos Santos, pároco de Cachoeira (1832-1848) e irmão do nosso biografado, e Pe. Inácio Araújo dos Santos, fundador do Recolhimento N. Sra. dos Humildes e primo do Côn. José Joaquim Teixeira dos Santos.

Na continuação das pesquisas, realizadas às minhas custas, descobri que o José Joaquim, quando ainda secular, fora comerciante e, depois de clérigo, fora Oficial do Santo Ofício, Cavaleiro da Ordem de Cristo e Vigário da Vara. Em relação a sua prole, foram duas mulheres (Maria Angélica da Purificação e Maria Salomé Teixeira dos Santos) e dois homens (Domingos Teixeira dos Santos e Pedro José Teixeira dos Santos), os quais foram ordenados padres, tendo o primeiro sido coadjutor do pai na Paróquia da Purificação e último sido cônego e Capelão da Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador.

Entre tantos documentos importantes que achei sobre o Cônego José Joaquim, desejo reproduzir um aqui: o registro do matrimônio de sua filha Maria Angélica da Purificação com Manoel Francisco de Macedo:

“Aos dezenove dias do mês de Novembro de mil oitocentos e vinte e oito anos, no Oratório da Casa de morada do Reverendo Vigário José Joaquim Teixeira dos Santos, o Reverendo Domingos Teixeira dos Santos, de licença minha, assistiu ao recebimento solene do Matrimônio de Manoel Francisco de Macedo, filho legítimo do Capitão Jerônimo Francisco de Macedo e Dona Joana Maria da Purificação, com Don Maria Angélica da Purificação, e logo receberam as bênçãos conforme os ritos da Santa Igreja, sendo dispensados pelo Ilustríssimo Reverendíssimo Senhor Vigário Capitular do parentesco em segundo grau de consanguinidade e dos proclamas, estando presentes as testemunhas o Reverendo Vigário José Joaquim Teixeira dos Santos, o Reverendo Ângelo Ribeiro de Oliveira, Joaquim José Teixeira dos Santos, João Manoel de Amorim, o Capitão Jerônimo Francisco de Macedo e outras muitas pessoas, de que mandei fazer este assento que assinei. O Vigário José Joaquim Teixeira dos Santos.”
(Livro de Matrimônio da Paróquia N. Sra. da Purificação (1788-1830, fl. 280)

Notemos que o registro nos faz saber detalhes interessantes: o matrimônio de Maria Angélica aconteceu no oratório da própria casa do pai (o que denota o caráter reservado da cerimônia), assistido pelo próprio irmão da noiva, o Pe. Domingos Teixeira dos Santos. A presença do Pe. Ângelo Ribeiro de Oliveira entre as testemunhas e a dispensa do 2º grau de consanguinidade¹ e dos proclamas² concedida pelo Vigário Capitular³ revelam a ciência dos laços de parentesco envolvidos na cerimônia e os arranjos institucionais para blindar a própria instituição. O que está em jogo é a preservação da imagem do sacerdote como um homem celibatário, portanto, isento da vida sexual e “desprovido” de família. A celebração pública do matrimônio na Igreja Matriz constituiria um deslocamento/modificação na representação do padre estabelecida, transmitida e sustentada pela Igreja. Por outro lado, a celebração restrita numa capela privada (como era o oratório da casa do Côn. José Joaquim), preservava a um só tempo a intimidade da família e o estatuto sacerdotal da Igreja Católica Romana.

É importante salientar que tanto Maria Angélica da Purificação o Pe. Domingos Teixeira dos Santos foram concebidos de mães diferentes, antes do Côn. José Joaquim Teixeira dos Santos haver sido ordenado padre e que, na época, sequer havia seminário na Bahia para a formação do clero. Esses dados nos fazem entender que a questão não reside na legalidade ou ilegalidade dos vínculos parentais, mas na representação do padre para a sociedade oitocentista.

Não sabemos a data da ordenação do Cônego José Joaquim, exceto que ocorreu entre os anos de 1805 e 1808. Infelizmente também não temos conhecimento do Livro de Tombo da Paróquia da Purificação referente ao seu paroquiato. Seria um documento importante para sabermos sua visão de mundo e seu perfil sacerdotal. Um Fato interessante é que em seu paroquiato foi composta a Novena da Purificação por Domingos Faria de Machado.

Quanto à data de seu nascimento, o prof. Cândido sustenta que ocorreu em 14 de janeiro de 1778, data que coincide com o que o Pe. Luiz Hermógenes dos Humildes relata no registro de óbito do Côn. José Joaquim Teixeira dos Santos em 30 de julho de 1863: “tendo idade de oitenta e cinco anos, seis meses e dezesseis dias” (Livro de Óbitos da Purificação 1854-1865, fl. 112). Todavia, o registro de batismo do cônego, reproduzido no processo para se tornar oficial do Santo Ofício, diz que José Joaquim foi batizado em 03 de julho de 1773. Isso causa uma imprecisão, embora o processo do Santo Ofício tenda a conter a informação precisa, já que reproduz um documento mais antigo.

Gostaria de sanar algumas lacunas na pesquisa sobre, mas para isso preciso encomendar outros documentos na Torre do Tombo (Portugal). Caso alguém deseje colaborar financeiramente, com pouco que seja, será bem-vinda a ajuda. É só entrar em contato.

1 – Os noivos eram primos-irmãos (primos de 1º grau).
2 – Proclamas: documento eclesial pelo qual se anuncia antecipadamente à comunidade o agendamento do matrimônio de um casal de fieis.
3 – Vigário Capitular: Sacerdote encarregado do Governo da Diocese na falta de um bispo titular.

Leia tambémRelação de Párocos da Purificação (Séc. XIX)

2 comentários em “Um cônego santamarense e seus filhos

  1. Prezado, onde eu posso localizar mais informações sobre essa família Teixeira dos Santos? Estou pesquisando minha genealogia e sei que as origens da família materna são do Recôncavo – Jaguaripe, Maragogipe, Itaparica, Nazaré, e meu bisavô, nascido em meados do século XIX, tinha o sobrenome Teixeira dos Santos. Pode ser uma pista útil a seguir.

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