Histórica

E Thereza Portela faria 91 anos…

Em 2021, a minha querida avó materna Thereza Gomes Portela faria 91 anos, por essa razão, escrevo esse post, a fim de compartilhar uma carta que ela escreveu para mim aos 73 anos de idade, confiando-me a sua história.

Eu estava em Santo Amaro, gozando as férias do Seminário Propedêutico Santa Teresinha do Menino Jesus, da Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Havia ido à paróquia e quando cheguei em casa, vi sobre o meu travesseiro um envelope com a carta. Fiquei muito emocionado e grato. No final da carta, ela me dizia: “Só a você tive confiança de contar a minha vida, as minhas alegrias e os meus sofrimentos. Faça o que entender com essas folhas de papel, eu quero que Deus lhe dê saúde, paz, alegria para você seguir sua vida”. Sinto-me a vontade, portanto, para postar a carta aqui: Carta-história de minha avó Thereza.

Além disso, darei maiores detalhes históricos sobre a minha família materna, os quais foram colhidos de uma conversa oral com minha avó Thereza e de registros documentais da família.

A minha avó era a filha caçula da família e foi a única dos cinco filhos de meus bisavós a nascer em Santo Amaro, por isso, segundo ela, o meu bisavô Epifânio fazia todos os anos comidas festivas no dia de Nossa Senhora da Purificação (02 de fevereiro), em honra a sua naturalidade santamarense.

Disso, deduzo que a família de minha avó chegou em Santo Amaro por volta de um ano antes do nascimento de minha avó, que nasceu em 21 de fevereiro de 1930. Seus pais eram Epifânio Souza Gomes (*1884 – +25 de agosto de 1972) e Maria José Carvalho Gomes (- +30 de março de 1931). A família mudou-se de Salvador para Santo Amaro, a fim de meu bisavô trabalhar como Mestre de Fundição na Fundição Santa Luzia, cuja sede era no bairro do Trapiche, e nesse mesmo bairro a família instalou residência. Nesse mesmo bairro, segundo minha avó, o meu bisavô promovia o bairro pastoril.

Minha avó tinha como irmãos Oscar Sátiro Gomes (que mudou-se para São Paulo); Adolfo Gomes e Oswaldo Gomes, ambos residentes em Salvador (mas Adolfo primeiramente morou na Rua Sergimirim, sendo proprietário do imóvel hoje conhecido como Tonho Velho) e Agustinha Gomes dos Santos (conhecida como Filinha), que se casou com José Aderaldo dos Santos e foi morar em São Francisco do Conde, onde foi Primeira Dama. Com Aderaldo, minha tia-avó gerou Ajadiu, Florita, Maria do Carmo (Carminha), Sérgio e Waldir.

Após o falecimento de minha bisavó, minha avó [e por certo demais irmãos] ficou sob os cuidados de minha trisavó, D. Maria Anunciação (mãe de minha bisavó Maria José). Ela era uma filha de ex-escravizados, “andava de bata e saia” e certamente nasceu livre em virtude da Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871. Livre da escravidão, mas não de suas mazelas. Segundo minha avó Teresa, D. Maria Anunciação fora “tirada de casa” (eufemismo para desvirginada) pelo senhor de engenho, de modo que minha bisavó Maria José tinha a epiderme branca, mas seus irmãos Modesto e Feliciano tinha a epiderme negra (e, por isso, tinham vergonha de manter proximidade com a família de minha bisavó Maria José, segundo a minha avó Teresa).

Já o meu bisavô Epifânio era filho de José Plácido Gomes e D. Eugênia Maria Gomes e tinha ao menos uma irmã residente na Ribeira, em Salvador (porque minha avó disse que passou uma temporada com ela, quando adolescente). É tudo o que sei da família de meu bisavô Epifânio.

Certamente, quando o meu bisavô transferiu-se da Fundição Santa Luzia para a Fundição Trzan (fundada em 1950), deu-se as sucessivas mudanças da família do bairro do Trapiche para os bairros do Amparo (residência ao lado da casa de Edith do Prato) e, posteriormente, Rua do Rosário, n. 58 (onde atualmente é a casa de D. Dezinha). As pesquisas sobre o assunto indicam que a Fundição Trzan pagava melhor que a Santa Luzia e todos desejavam trabalhar com o Sr. Carlos Trzan, proprietário. Das residências, minha vó tinha a recordação de que uma tinha um parreiral (se não me engano a do Amparo) e outra, a do Rosário, ia de uma rua à outra (isto é, da Rua do Rosário às Rua do Círculo Operário).

Em algum momento da história, depois de viúvo, meu bisavô tornou a se casar. Desta vez, com Leonor da Silva Gomes, que nasceu em 14 de janeiro de 1896 e faleceu em 29 de novembro de 1960. Esse casamento, segundo os relatos orais de minha avó e o que ela registrou na carta que escreveu para mim, foi um verdadeiro suplício para minha avó e sua irmã Filinha. A madrasta as explorava nos trabalhos domésticos e lhes privava de alimentação adequada. Filinha casou-se e foi morar em São Francisco e ficou na casa a minha avó, com sua avó materna Maria Anunciação, meu bisavô e a nova esposa. Leonor, segundo minha avó, maltratava também a minha trisavó Maria Anunciação, privando-lhe de alimentação. Segundo relato de minha avó, depois que Leonor faleceu, foi descoberto muito dinheiro escondido por ela no colchão.

Depois do falecimento de minha trisavó Maria Anunciação, minha avó Teresa tratou de se casar, para se livrar dos maus tratos da madrasta (era como ela via a decisão do casamento). A minha avó casou com Virgílio Alvelino Portela em 10 de setembro de 1960, na Igreja do Rosário, em cerimônia oficiada pelo famoso Pe. Fenelon Consta. O casal foi morar em Maracangalha, onde ele trabalhava na Usina Cinco Rios. Os dois residiram numa das casas da Usina cedida aos trabalhadores. Por ironia do destino, no mesmo ano de 1960, quase 90 dias após o casamento, faleceu D. Leonor.

O meu avô era filho de André Alvelino Portela e D. Maria Delfina Portela. Ele nasceu em 26 de setembro de 1935 e faleceu em 04 de outubro de 1980, em decorrência de complicações de mordida de barbeiro (parece-me). Meus bisavós por parte de avô faleceram de tuberculose quando ele ainda era criança, por isso, ele fora criado por D. Senhora, que morava em Catu e faleceu cerca de 2006. A família era de Terra Nova e um irmão de meu avô se casou com D. Osória, que morava em São Sebastião do Passé.

Meus avós tiveram como filhos Carlos Alberto Gomes Portela, Maria José Gomes Portela (minha mãe), José Raimundo Gomes Portela, Vladimir Gomes Portela, Perivaldo Gomes Portela e Virgílio Alvelino Portela Filho. Eles moraram em Maracangalha por volta de 18 anos, segundo a minha avó, e retornaram para Santo Amaro, a fim de meus tios e minha mãe poderem estudar o segundo grau. Isso teria sido, então, por volta de 1978 e, como falei, o meu avô faleceu em 1980. Desde então, minha avó não voltou a se casar. Não cheguei a conhecer o meu avô, porque nasci em 1984.

Já a minha avó veio a falecer dia 02 de novembro de 2016, Dia de Finados, aos 86 anos de idade, sendo a mais longeva de sua família. Agradeço a Deus os dias e anos que Ele me possibilitou desfrutar da convivência com a minha avó. Que Ele a conserve na Glória e que ela, da Glória, conserve o seu olhar sobre nós, sua família.

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