Teológica

“Minha paróquia é o mundo”

Este ano completo 10 anos de ordenação presbiteral e desde dezembro de 2019, precisamente dia 12, data de minha ordenação diaconal, tenho meditado interiormente sobre a vida ministerial.

Por essa razão, resolvi escrever aqui sobre uma intuição que me acompanha desde o início de minha vida ministerial, que é a ideia de um ministério aberto, para fora, sem limites. Passo a explicar, para que fique mais claro o que isso significa para mim.

Essa intuição apareceu-me a primeira vez, quando da celebração da primeira missa presidida por mim – a chamada missa nova, como se dizia antigamente. A minha cidade natal possui uma das igrejas mais suntuosas e belas que já conheci, a Igreja de Nossa Senhora da Purificação (séc. XVIII), na qual fui batizado, fiz primeira comunhão e fui crismado. Ali, naquele altar em que tanto servi , imaginei-me muitas vezes presidindo minha primeira missa… No entanto, chegado o tempo, em função de uma programação pastoral já existente na região, foi-me sugerido celebrar minha primeira missa num ginásio de esportes e não na referida igreja.

Embora não fosse esse o meu sonho, tomei a circunstância como um sinal de minha própria vocação (pra fora), e da consciência teológica com a qual eu chegava ao ministério pastoral, a qual expressei naquela celebração, entre outras coisas, com o canto Em nome de Deus, que é uma parte da Missa dos Quilombos, composta por Dom Pedro Casaldáliga, Pedro Tierra e Milton Nascimento. O canto se inicia dizendo:

“Em nome do Deus de todos os nomes: Javé, Obatalá, Olorum, Oió.
Em nome do Deus, que a todos os Homens, nos faz da ternura e do pó.
Em nome do Pai, que fez toda carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue.
Em nome do Filho, Jesus nosso irmão, que nasceu moreno da raça de Abraão.
Em nome do Espírito Santo, bandeira do canto do negro folião.
Em nome do Deus verdadeiro que amou-nos primeiro sem dividição”.

Esse canto palpitava meu coração, mexia profundamente com o meu desejo de ecumenismo e diálogo inter-religioso, meu desejo de dialogar com a cultura popular e de solicitude pastoral com todo gênero humano, em sua diversidade. Iniciar a celebração com este canto seria uma chamada à reflexão que impunha uma disruptura nos hábitos litúrgicos, mas mesmo assim o fiz! Aquilo para mim era quase que um programa do ministério pastoral que eu iniciava ali, com aquela missa!

Outro momento de fortalecimento de minha intuição de vida ministerial aberta, sem limites, veio-me quando, ainda em meu primeiro ano de ministério, li o livro Padres: viagem entre os homens do sagrado (Paulus, 2010), de Vittorino Andreoli, psiquiatra, professor e escritor italiano.  O livro parece-me que é uma compilação dos artigos de Andreoli para o jornal Avvenire e impressionou-me, entre outras coisas, por afirmações como essa: “O sacerdote deve ocupar-se de todo o rebanho e, portanto, dos crentes, dos seus fiéis, mas também dos não crentes, dos não fiéis. E basta a parábola do bom pastor que deixa as ovelhas para procurar quem não está presente no rebanho, na comunidade” (p. 71).

Noutro canto, Andreoli, que se considera não crente, diz: “Sinto necessidade de dizer que o sacerdote é uma presença que me pertence, de saber que a sua função me considera e, portanto, que ele sabe quem sou eu e me ama: e, para demonstrá-lo, devo sentir que ele me convida ao templo, não para desafiar-me, mas para mostrar-me um semblante do sagrado e a beleza de pertencer-lhe” (p. 73). Essas afirmações de Andreoli se revelaram tão verdadeiras ao longo desses dez anos, que lembrei-me delas todas as vezes que fui procurado por pessoas que não faziam parte do meu rebanho, ou mesmo que tinham repulsa à igreja, ou ainda que sequer eram crentes. Entendi, emocionado, que o sacerdote pertence a todas as pessoas.

Ultimamente, tenho tido essa experiência de maneira mais intensa ainda. Agora, não mais como um clérigo católico romano, mas sim da Igreja Anglicana, uma igreja minoritária no Brasil, tenho sido demandado por várias pessoas que não fazem parte de meu pequenino rebanho, de pessoas que têm dificuldades com a igreja, de pessoas que são de religião de matriz africana, de pessoas têm críticas ferrenhas ao Cristianismo. Eu estou lá, nas minhas manhãs de atendimento pastoral, e me chegam pessoas que nunca vi e às quais eu jamais imaginei que iria servi, e confiam a mim as suas vidas.

Lembro-me uma circunstância em que recebi uma ligação e era uma pessoa de tradição evangélica que tinha muita dificuldade com a igreja. Chorava do outro lado da linha e perguntou-me se eu tinha disponibilidade para atendê-la porque ela precisava muito conversar e ela não tinha amigos na cidade com que desabafar. Prontamente modifiquei minha agenda e fui atendê-la.  Esse é um dos diversos casos.

Por fim, o último momento de compreensão dessa forma de ministério aberto, para fora, sem limites, aconteceu justamente na minha transição da Igreja Católica Romana para a Comunhão Anglicana. Eu já havia me desligado do catolicismo, mas ainda não havia recebido o reconhecimento de Ordem na Comunhão Anglicana, estava, portanto, sem exercer o sacerdócio oficialmente. Foram exatos dois anos e meio assim. E as pessoas me procuravam e os lugares por onde eu passava demandavam de mim uma solicitude pastoral e eu tive diversas experiências inusitadas de exercício ministerial. Em cada uma delas eu era imediatamente remetido à ideia de que o ministério pastoral é, em primeira instância, uma configuração ontológica à pessoa de Cristo, embora ele (o ministério) não exista por si mesmo, mas seja um serviço “na” e “da” Igreja.

Irmãos Wesley
Charles e John Wesley

Foi nesse contexto que tomei contato com a vida de John Wesley (1703-1791), sacerdote anglicano fundador do movimento metodista, do qual acabou se originando a Igreja Metodista, embora o próprio Wesley nunca tenha deixado o seio da Igreja da Inglaterra. Quando Wesley iniciou o seu movimento de renovação espiritual dentro da Igreja da Inglaterra, encontrou obstáculos e acabou não podendo ensinar nas igrejas, então ele começou a pregar nas praças públicas. Daí vem a frase de Wesley que me iluminou em minha transição e continua a iluminar ainda hoje: “The world is my parish” (“Minha paróquia é o mundo”)! Eu estava sem uma paróquia institucional, mas nem por isso deixava de haver um campo que demandava minha ação pastoral. Essa afirmação foi como que uma tradução da intuição ministerial que me acompanhou desde o princípio e que naqueles dias pulsava de forma mais latente em minha vida.

A caridade pastoral à qual o sacerdote é chamado a exercer vai muito além de limites institucionais da vida ministerial. A Eucaristia, lugar privilegiado da conformação do sacerdote a Cristo, oferece-nos, inclusive, essa tônica espiritual: “Tomai todos e comei”… “Tomai todos e bebei”. Desde sua origem, o ministério recebe um apelo para fora, além dos limites, à abertura.

 


  • Crédito das fotos da Igreja da Purificação: Eduardo Caldas

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