Histórica · Teológica

Rev. Richard Holden: impressões sobre o escravagismo no Sul dos EUA

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Lincoln e a escravidão

No dia 08 de novembro de 1860, às 15h, o “brigue americano Isabella” partia de New Iork, tendo a bordo o Revdo. Richard Holden (1828-1886), missionário escocês formado nos EUA que estava sendo enviado em missão ao Brasil pelo Departamento de Missão da Igreja Episcopal (Anglicana) e pela Sociedade Bíblica Americana. Dois dias antes, Abraham Lincoln, outro episcopal (anglicano), fora eleito o 16º presidente dos Estados Unidos da América. O clima político era delicado porque, já no processo eleitoral, os Estados do Sul, cuja economia dependia do escravismo, haviam ameaçado formar um país à parte, diante da provável vitória do abolicionista Lincoln.

Pouco menos de um mês depois de Holden haver chegado ao Brasil, a Carolina do Sul é o primeiro Estado a se separar do resto do país, sendo seguida, em 1 de fevereiro de 1861, por outros seis Estados (Flórida, Mississippi, Alabama, Geórgia, Louisiana e Texas), constituindo os Estados Confederados da América.

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Richard Holden

Já residindo no Brasil, Belém, Richard Holden vê a bandeira norte-americana hasteada no mastro principal do Consulado Americano, em 22 de fevereiro de 1861, e se lembra que é o dia do natalício de George Washington, mais um episcopal (anglicano), 1º presidente dos Estados Unidos. Sabendo da situação política daquele país, Holden conjectura “como, e com que sentimentos, o aniversário está sendo comemorado”, e termina por emitir sua opinião sobre a questão da escravatura, que é o foco do que veio a se tornar a Guerra Civil Americana (1861-1865).

Não temos muitas do notícias Revdo. Richard Holden anteriores à sua missão no Brasil, mas sabemos que ele fez os estudos teológicos em Ohio, um dos Estados do Norte que não aderiram ao separatismo sulista. É provável que esse convívio em Ohio tenha favorecido no missionário a concepção anti-escravocrata que emana em sua opinião sobre a querela política nos EUA.

O relato que segue abaixo é justamente a mencionada anotação de Richard Holden em seu diário (p. 48-50) no dia 22 de fevereiro de 1861. O diário foi traduzido pela mãe (Nome???) do Professor David Gueiros (UNB), mas não foi publicado até então.

Sexta-feira, 22 [de fevereiro de 1861] – A bandeira do Consul [Norte-Americano] hasteada hoje no mastro principal fez lembrar que é o dia natalício de [George] Washington e nossos pensamentos, naturalmente revertem-se em tais ocasiões para a terra onde sua memória é tão merecidamente estimada, e, com o conhecimento de suas tribulações atuais, fica-se a conjecturar como, e com que sentimentos, o aniversário está sendo comemorado. Nunca senti tão fortemente a impotência de mera capacidade humana de prever e conjecturar com mais habilidade a respeito de qualquer coisa do que atualmente a respeito dos acontecimentos desta desastrosa luta. Tenho, há muito, procurado ver antecipadamente tais cenas com pressentimentos. Nem posso evitar de sentir que não está faltando lá a mão de uma justiça retribuitiva que está forçando aqueles que há tanto têm sido culpados de opressão e injustiça, para serem eles mesmos os executores, com mão suicida, do julgamento que ele tem preparado em sua Providência. Há anos tenho sentido que, mais cedo ou mais tarde, tal deveria ser o resultado da posição assumida por aqueles que têm sido, nos últimos anos, os advogados da escravatura. Houve um tempo em que o erro foi confessado, o mais admitido, e talvez, o remédio honestamente desejado, ao passo que, uma extrema necessidade era alegada como justificação. Nos últimos anos isto tem mudado. A escravatura tem sido advogada como certa, benéfica, escriturística: Deus tem sido envolvido nisto. Sua autoridade tem sido avocado para isto. Seu nome tem sido apresentado como endosso, e o que poderia resultar, senão apenas o que tem resultado? Avocando sua autoridade pediram-lhe decisão. A defesa de sua própria honra e da pureza de seu Evangelho exigia que a iniquidade fosse repudiada, e ele, de acordo com isso, por conseguinte a repudia. “Quem Deus vult perdere primum, dementat”. Pode qualquer coisa exemplificar mais explicitamente a veracidade do provérbio de que o procedimento do Sul? Outros podem esperar ver uma solução pacífica deste triste rompimento. Devo confessar que não posso. Rogo a Deus que os poupe, se for possível, do batismo de sangue que vejo prestes a fluir. Imploro-lhe que no meio do julgamento tenha misericórdia, mas confesso que vejo pouca razão para esperar que Ele ache próprio sustar sua mão até que haja arrependimento sincero do mal e seja feito um esforço honesto para oblitera-lo. Sinto que a escravidão nos E.U [Estados Unidos da América] agora está destinada a desaparecer. A honra de Deus parece requerer isto. E eu posso apenas olhar com temor e tremor, meu coração quase falhando de medo e apreensão daquelas coisas que virão sobre o país. Ai! que uma terra tão linda e promissora seja assim desgraçada. Ai! que nação que parecia estar amadurecendo para os fins gloriosos de Deus, como um dos grandes depositários de sua verdade, possa ser desmembrada como se envergonhada de sua própria força. Ainda assim, quem pode dizer? Da fraqueza aperfeiçoa Ele a força? E pode ser que se a escravidão nos lares do Sul for realmente a seus olhos o mal que parece ser, então nele, no sul [dos E.U.A], deve ser feita a secção do membro gangrenado – a cauterização da ferida arruinada que pode ser a cura do corpo, e a América pode levantar-se regenerada de um batismo sangrento, numa nova e revigorada forma, como um gigante revigorado com vinho. Uma só coisa é certa – “Jeovah reina!”

Ainda não li o diário até o final, mas estou curioso por ler algum comentário do Revdo. Richard Holden sobre a escravatura no Brasil, o que até agora não encontrei. De toda forma, parece muito importante resgatar a concepção teológica anti-escravocrata de Holden, nesse imenso “limbo” em que se encontra a temática antirracista na IEAB.

 

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