Liturgia Incomum

CREIO, CREIAMOS!

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A tradição cristã nos ensinou a rezar o Credo Apostólico com os artigos da fé professados na primeira pessoa do singular (“Creio…”). Aliás, é assim que está nas formulas latinas dos Padres da Igreja (Credo in Deum Patrem omnipotentem), razão pela qual a oração passou a ser designada em Português como Credo ou Creio. A reflexão teológica acerca da forma gramatical é simples: como a fé é uma adesão pessoal, uma resposta individual da pessoa humana ao dom da fé oferecido por Deus, devemos cada qual dizer por nós mesmos “creio”; devemos nos responsabilizar, com esse ato de fala, pelo compromisso que assumimos. Não nos esqueçamos das palavras do Apóstolo Paulo: “Se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10,9).

A nova edição do Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, publicado em 2015, parece postar-se na contramão dessa tradição, quando coloca os artigos de fé professados na primeira pessoa do plural (“Cremos”). Abre-se espaço, assim, para a crítica sobre a massificação da vida de fé, a despersonalização do ato de crer, o dissolvimento do compromisso que a fé pressupõe.

Todavia, entremos na lógica interna da reflexão teológica propulsora da mudança gramatical. Ela também é muito simples: a fé possui uma dimensão comunitária, que suscita e significa o ato de crer. Ninguém chega à vivência da fé sozinho, mas porque outros lhe instigaram-na. O Apóstolo Paulo já dizia: “Como invocarão aquele em quem não têm fé? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue?” (Rm 9, 14)

Nesse sentido, voltando ao Credo, precisamos dizer que o “cremos” do Novo LOC abarca e pressupõe o “creio”; mas o “creio” não pressupõe nem explicita o “Cremos”. E por que é necessária essa alteração? Todo texto tem seu con-texto e seu pre-texto. Vivemos em tempos nos quais somos atraídos à vivência isolada da fé. Não nos esqueçamos de que um dos valores inegociáveis de nosso tempo é a individualidade, que as vezes descamba em individualismo, inclusive na dimensão espiritual. Por essa razão, é necessário explicitar que o “creio” reclama o “cremos”, instiga pertença e implicação com os demais.

Sendo assim, só podemos considerar salutar a iniciativa da Comissão Nacional de Liturgia da IEAB. Não se prescinde da Tradição, mas a enlarguece, amplifica-a. Creio, creiamos!

Rev. Pe. Adriano Portela dos Santos

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