Histórica

“À direita de Deus, à esquerda do povo”: livro analisa relação entre protestantismo e política no Brasil (1974-1994)

capa Zózimo.jpgA Editora Sagga acaba de publicar “À direita de Deus, à esquerda do povo: protestantismo, esquerda e minorias”, livro de Zózimo Trabuco, professor de História da Universidade Federal da Bahia (UFOB), com quem tive o prazer de compartilhar alguns momentos, em função de nossas agendas  em Feira de Santana.
O livro é o resultado de sua tese de doutorado na UFRJ, que, por sinal, foi eleita a melhor tese defendida no Programa de Pós-graduação em História Social daquela universidade, em 2015. A pesquisa analisa a relação de setores protestantes com as esquerdas e os movimentos de minoria no recorte temporal de 1974-1994, período de encerramento da ditadura militar e a transição para a democracia política no país.
A temática é importantíssima, se pensarmos o quanto tem tido um papel crucial a tradição evangélica no cenário político atual. Fenômeno ainda por se entender! Parabéns a Zózimo e à Editora Sagga. Deixo aqui o prefácio do livro, para nosso instigar o interesse. Recomendo, queridos leitores, a aquisição dessa obra magnífica!

PREFÁCIO

Em primeiro lugar faz-se necessário ressaltar a qualidade acadêmica da pesquisa realizada, a relevância do tema, o rigor no processo de construção dos seus argumentos e a importância das conclusões que Zózimo Trabuco nos apresenta neste livro.
Trata-se de uma temática absolutamente relevante, particularmente na conjuntura na qual estamos mergulhados. O aparecimento dos protestantes no espaço público se afigura, neste momento, como algo inédito e, para muitos, assustador, como se tais atores políticos e religiosos nunca tivessem se colocado na arena política nacional. Esta tem sido uma pergunta que muitos analistas da vida brasileira vêm se fazendo e creio que Zózimo nos apresenta muitas pistas a partir das quais será possível desvelar muito do que somos enquanto sociedade e os desafios que estão postos para que possamos completar a longa e necessária agenda em direção à construção de uma justiça de transição e, como consequência, a consolidação de uma democracia inclusiva.
A América Latina, a partir da década de 1980, tem um novo cenário político-religioso onde se apresentam múltiplos atores, alguns dos quais não sabemos como lidar porque ainda não os compreendemos. É neste cenário que Zózimo busca nos inserir, analisando criticamente os movimentos produzidos pelos protestantes nas diferentes conjunturas da história contemporânea da América Latina.
As igrejas evangélicas nunca estiveram ausentes do espaço público. Mas, me pergunto, então porque reagimos com tanta perplexidade ao assistirmos as cenas grotescas produzidas pelos deputados durante a votação, no Congresso Nacional, do processo contra a presidenta Dilma Rousseff.
Me arisco a afirmar que fomos vítimas de uma imensa ignorância causada pela naturalização da máxima de que o Brasil era um país católico. E que a presença dos evangélicos era algo de menor importância, alguma coisa que se situava à margem da sociedade letrada. E esta foi seguidamente a minha preocupação ao me aproximar do problema epistemológico que se expressa na relação entre religião e política.
A Igreja Católica, com sua capacidade de produzir sentidos aos seus caminhos e descaminhos, vinha sendo o objeto de quase todas as pesquisas que se debruçavam sobre a relação entre religião e política no campo da história. No entanto, para minha alegria, nos últimos anos vários jovens pesquisadores têm se voltado para tentar compreender o campo evangélico como portador de múltiplos movimentos teológico-políticos que impactaram e, como assistimos, impactam o espaço público em nosso país.
Neste aspecto creio que este trabalho que Zózimo nos apresenta é excelente exemplo de pesquisa histórica realizada com responsabilidade acadêmica e, ao mesmo tempo, com paixão. Ele mesmo, um jovem culturalmente engajado na militância política-religiosa, sai em busca das muitas perguntas que tal pertencimento suscita.
O caminho traçado por ele busca, em primeiro lugar, situar o que seria ser protestante em uma América Latina hegemonicamente católica e tridentina. Como produzir uma identidade protestante neste ambiente e, ao mesmo tempo, buscar responsabilidades sociais e eclesiásticas. Para tanto ele segue os passos de alguns teólogos e movimentos autônomos que tentaram construir pontes políticas e religiosas com outras esquerdas religiosas ou nem tanto.
Seu objetivo principal é analisar a relação de setores protestantes com as esquerdas e os movimentos de minoria ocorridos na última década da ditadura militar, na primeira década após o fim do regime e durante a transição democrática. Sua busca está centrada na compreensão sobre quais foram as transformações no campo religioso e no campo político que possibilitaram iniciativas de aproximação entre setores protestantes e as ideologias de esquerda e quais os principais agentes dessa aproximação e com quais perspectivas teológicas e políticas foram legitimadas.
Trata-se, portanto, de uma viagem intelectual e política que lhe permitiu explorar as possibilidades de setores do protestantismo encontrarem nos partidos de esquerda e em movimentos de minorias a expressão política de seu ethos religioso. Para tanto, o autor parte de um problema, qual seja, a possibilidade de se falar da existência de uma esquerda evangélica ou protestante no Brasil durante o período pesquisado.
Todavia, o autor alerta sobre as dificuldades para a construção de proximidades entre o campo religioso e político e, no caso especifico, pertencimentos às esquerdas e ao protestantismo. Ambos os campos permeados por múltiplas interpretações.
No caso dos protestantes as dúvidas se agigantam na medida em que o ethos religioso no qual a maioria se reconhece pertence à direita política e ao conservadorismo. No entanto, a conjuntura especificada que caracterizou o longo período de transição política apresentava conflitos e polarizações que os dividiam em tendências motivadas por motivos religiosos, mas que se espraiavam pelas lutas sociais travadas no seio da sociedade.
O protestante se aproximava da esquerda em função de uma agenda social e política e, ao mesmo tempo, podia se distanciar na medida em que demandas de setores minoritários da sociedade eram incorporadas pela agenda destas mesmas esquerdas. Mas, ele vai além ao indicar os caminhos teológicos que se apresentaram para o campo religioso protestante, seus embates internos e as redes latino-americanas que se formaram a partir de tais delineamentos.
Ao longo do trabalho o autor vai nos indicar que diante de uma conjuntura conturbada foi possível a elaboração de uma teologia latino-americana que exprimisse uma visão crítica dos dualismos do discurso religioso. Esta construção trazendo, como consequência, o surgimento de uma ética que se baseou na responsabilidade social da Igreja e o engajamento de seguimentos protestantes nas lutas contra as ditaduras, nos movimentos em defesa dos direitos humanos e nas diferentes lutas emancipatórias. Tal engajamento terminou por aproximar estes setores do protestantismo dos diferentes segmentos da esquerda latino-americana. E no Brasil este processo não foi diferente.
Ele destaca dois movimentos importantes para a compreensão histórica do processo. De um lado, o protestantismo ecumênico contribuindo para a formulação daquilo que seria a marca dos engajamentos dos cristãos na vida política, que foi a Teologia da Libertação. E, de outro, o movimento de Missão integral (Teologia da Missão Integral). Em função dos vínculos políticos que estes últimos assumiram nos momentos de aguda polarização política alguns analistas ecumênicos entendem que houve uma divisão no campo conservador entre um fundamentalismo de direita e outro de esquerda.
Estas duas vertentes construíram redes institucionais tanto na América Latina quanto dentro do Brasil. E serão estes vínculos que Zózimo perseguirá ao longo da sua pesquisa cuja conclusão pode ser muito interessante para que possamos compreender a complexidade do campo protestante e para que possamos distinguir como esta diversidade se expressa hoje na atuação pública dos diferentes segmentos do campo protestante.
A presença atual de uma voraz bancada evangélica, segundo ele, surge no final da ditadura militar a partir da frente parlamentar religiosa. E se estabeleceu definitivamente na política nacional majoritariamente constituída por grupos pentecostais que não foram aderentes ao ecumenismo e nem ao evangelicalismo. Estes grupos, que hoje se expressam corporativamente no Congresso Nacional, eram, até a década de 1980, majoritariamente refratários à participação política. Mas em 1987, durante o processo constituinte, já formavam a terceira maior bancada do Congresso e já se notabilizava pelo fisiologismo e pela defesa das pautas conservadoras.
Eu não poderia terminar estas reflexões sem salientar o fato de Zózimo, ao longo do seu doutoramento, não ter sido agraciado com nenhuma bolsa de estudos. Mas não foi somente isto. Ele, vindo do interior da Bahia e vivendo como estudante em uma das cidades mais caras do mundo cumpriu rigorosamente as suas obrigações em relação ao Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E, para nossa imensa alegria, teve seu esforço reconhecido ao ter sua pesquisa apontada, por uma banca externa ao PPHGIS, como a melhor tese defendida no âmbito do Programa ao longo do ano de 2015.
Pois bem, foi este jovem pesquisador, hoje professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), que tive o privilégio de acompanhar por quatro anos. Não diria que tivemos encontros para orientação porque Zózimo, quando chegou ao PPGHIS, trazia consigo um projeto muito bem estruturado e, fundamentalmente, um amadurecimento intelectual e um grande patrimônio ético que nos tornou amigos, companheiros de uma viagem só possível no compartilhamento de utopias. Na verdade foi ele quem me ensinou muitíssimo. E o agradeço por isto.

Jessie Jane Vieira Souza
Professora de História da UFRJ

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