Homilética

Discurso na Celebração Eucarística de Reconhecimento de Ordens

Cada vez que algo muito importante aconteceu em minha vida, esforcei-me para expressar o que aquilo significava, e não aconteceu diferente dessa vez… há dias que venho pensando o que significa a decisão de ser acolhido canonicamente como presbítero no clero da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), 19ª Província da Comunhão Anglicana. Essa Igreja que admirei durante anos e que venho aprendendo a amar, por reconhecê-la como um lugar que se esforça por viver o evangelho da Graça num mundo plural!

Primeiramente, este acontecimento significa que sempre haverá lugares que nos caibam e que não precisamos nos maltratar atados ao rancor de não nos sentirmos aceitos em lugar qualquer que seja. Somos um dom e dons não podem ser desperdiçados; eles devem doados ad aeternum, “porque os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis” (Rm 11,29). Então, tomados de gratidão e livres do desespero que aniquila a existência, devemos prosseguir generosa, amorosa e criativamente a vida!

Em segundo lugar, este acontecimento significa que a ação de Deus, o seu plano de salvação para cada um de nós, não se restringe nem poderia se restringir a instituição religiosa alguma. Assim como Deus não pode ser enclausurado às quatro paredes de um templo, seu agir no mundo não pode estar restrito a uma única igreja, nem mesmo a uma única religião. Deus é livre e Ele age onde quiser, quando quiser e como quiser. “O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai” (Jo 3,8). Daí decorre também que o critério da salvação não é o pertencimento a uma Igreja específica, nem a vinculação a uma doutrina cuja verdade se pretenda absoluta.

Em terceiro lugar, este acontecimento significa que, não importam as nossas crenças, as pessoas serão sempre mais importantes. Isso vale para TODAS as pessoas, mas nesse caso particular significa afirmar especialmente que as mulheres são importantes e não devem ser tratadas como se não fossem pessoas. Por vezes, práticas religiosas desmerecem e descartam as mulheres, mas não temos o direito de roubar a dignidade de pessoa alguma em nome do cumprimento de nossos preceitos religiosos. “Pois o Filho do Homem é senhor do sábado” (Mt 12,8), e não o sábado senhor do homem!

Em quarto lugar, este acontecimento significa que o ministério pastoral, seja ele qual for, é exercido em nome de uma Igreja, mas a Igreja não é dona da vocação. A ela compete descobrir, cultivar, governar, chancelar as vocações, mas nunca destas se apropriar, porque não é ela quem chama. A Sagrada Escritura nos ensina: “Desde o seio materno o Senhor me chamou, desde o ventre de minha mãe pronunciou o meu nome” (IS 49,1). Por isso, Dom Valfredo Tepe disse muito bem que “A vocação é, antes de tudo, um mistério pessoal: relação profunda entre Cristo, que escolhe a quem quer e como quer, e o escolhido, que aceita o chamado” (Presbíteros Hoje, p. 28).

Finalmente, este acontecimento significa que acredito convictamente no chamado de Deus para minha vida e que eu desejo atender ao seu querer com todas as minhas forças, dando de mim no que for preciso: “O zelo por tua casa me consome” (João 2,17). Isso é parte do que me faz feliz.

Quero encerrar retomando o meu lema presbiteral e agradecendo, porque a gratidão é o exercício para o coração que pretenda saúde.

Meu lema presbiteral é: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo” (Jo 21,17). Continuo a ter diante de mim que o Senhor não me chamou por razão de alguma excelência moral minha, tampouco por qualquer capacidade intelectual que eu tenha, mas por eu ser um homem experimentado no amor. Tenho diante de mim que essa é a única e exclusiva condição colocada por Ele a mim e que a tarefa de que sou incumbido, como pastor, é o cuidado amoroso para com as ovelhas. Eu estou dizendo mais uma vez, publicamente, “Sim, Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”! E estou escutando: “Apascenta meus cordeiros”. Agradeço a Deus por vocês todos estarem sendo, no hoje, as vozes históricas e sacramentais de Deus em minha vida.

Agradeço ainda à Igreja Católica Romana, que me gerou para a fé, desenvolveu e confirmou a minha vocação: parte do que sou, devo a ela, e não é pouco o que devo agradecê-la. Mas a maior gratidão, nesse dia, é à Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), que me recebeu quando eu precisava me sentir parte de um lugar e ser recebido de maneira integral, independentemente das minhas escolhas de vida. Agradeço imensamente a Dom João Peixoto pelo reconhecimento de ordens, mas sobretudo pela humildade com que vive e exerce o ministério episcopal. Esse é um belo sinal para um jovem como eu, que vive a religiosidade sob o signo do ideal. Agradeço ao Rev. Bruno pela acolhida serena e responsável que fez a mim e a minha família, desde o primeiro instante que chegamos à Paróquia Anglicana do Bom Pastor. Mais do que como pároco, acolheu-nos como irmão e amigo, e fez de meu desejo de reconhecimento de ordens uma tarefa sua!

Agradeço a minha esposa Renata por termos conseguido chegar até aqui, juntos, com uma lealdade muito grande de um ao outro e uma inaudita superação de obstáculos e de nossos próprios limites. “Esperando, contra toda a esperança, Abraão teve fé e se tornou pai de muitas nações, segundo o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Rm 4:18). Que nossa doação de um ao outro, sob as intempéries das circunstâncias, seja fértil para a nossa família e para muitas pessoas!

Agradeço aos demais clérigos aqui presentes, à Paróquia Anglicana do Bom Pastor, à Comunidade Anglicana Ressurreição do Senhor (motivo de minha esperança) ao Comitê Interreligioso e de Liberdades Laicas de Feira de Santana (COINTER), a minha família (registro aqui a constante recordação que tenho de minha avó Teresa), bem como agradeço aos amigos e amigas que se mobilizaram para estar aqui, comigo, e serem parte de minha alegria! Deus abençoe a todos!

Feira de Santana/BA, 03 de dezembro de 2016

Rev. Adriano Portela dos Santos

2 comentários em “Discurso na Celebração Eucarística de Reconhecimento de Ordens

  1. Palavras sempre sábias, de uma sabedoria gerada na vida e na relação íntima e confiante em Deus. Obrigada pela partilha que muito fala ao meu coração. Parabéns pelo reconhecimento das suas ordens e por essa instituição que amadurece no amor inclusão, pois não há critérios para Deus nos amar. Dessa forma, para vivermos nossa vocação do amor impresso no serviço que cada vocação específica tem, tb não pode haver critérios.

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