Teológica

Sou um cristão anglicano (III)

Gostaria de considerar importante um aspecto da tradição anglicana que pode ser descrito como “santa mundanidade”. É uma afirmação de vida, em vez de uma negação do prazer. Chama as pessoas para a fé não por medo ou culpa, mas a partir de uma visão de Deus que provoca uma resposta em vez de exigi-la.
(Rev. James C. Fenhagen. A maneira de ser dos anglicanos)

Esse é o terceiro e último post da série “Sou um cristão anglicano”. No primeiro, tratei da compreensão eclesial (a pertença à catolicidade da Igreja de Cristo, com os contributos da Reforma Protestante); no segundo, tratei da compreensão moral (a abertura para a reflexão sobre a sexualidade humana, na contramão do pessimismo sexual cristão). Agora, tratarei da compreensão espiritual do ser anglicano.

Um dos primeiros textos da literatura anglicana que li foi “Um Deus diferente”, de Jhon T. A. Robinson, cuja leitura me foi indicada pelo querido Pe. Reginaldo Dutra Peçanha, sacerdote católico romano. Se eu tiver que resumir o ponto de vista do livro, direi que apresenta um Deus com o qual não necessitamos contrastar (separar, opor, distanciar) do mundo, para nos relacionar, porque esse Deus está entranhado na vida. Isso diz bem da  proposta de espiritualidade que nos faz o Anglicanismo. Uma fé integrada na vida!

Lembro que quando  minha esposa foi a primeira vez à comunidade anglicana, manifestou uma afirmação no sentido de dizer que não via espiritualidade na Igreja. Imagino que para ela foi realmente algo estranho, uma vez que ela vinha de experiências em igreja evangélicas de viés pentecostal. Acredito que hoje, depois de dois anos e meio de convivência, ela não diria mais algo assim.

Estruturas de pensamento dualistas como sagrado/profano não tem espaço na espiritualidade anglicana, que se propõe a ser uma espiritualidade de integração, conciliação, inclusão, síntese. Acredito que isso tenha muito a ver com as raízes históricas da autonomia anglicana perante Roma e o diálogo com a Reforma Protestante. Nossos antepassados na fé sofreram na carne a busca por um modo de viver a fé que conciliasse as duas heranças eclesiais, de uma maneira tal que acolhesse os diversos modos de viver a fé anglicana. Por isso, esse não é um caminho espiritual fácil para quem deseja viver espiritualismos.

É óbvio que a espiritualidade anglicana não é um bloco monolítico… ela possui suas nunaces. Há anglo-católicos, carismático e os liberais, pelo menos. Mas em todos essas maneiras de ser anglicano, encontra-se a integração de vida de que estamos falando. E se encontra na vida da Igreja desde sua organização (Hierarquia/Sinodalidade) até o modo de celebrar.

Reproduzo aqui o fragmento de um testemunho de Rafael Vilaça, de quando ele foi a primeira vez a uma comunidade anglicana:

Há algum tempo vinha pesquisando sobre o Anglicanismo e as Igrejas que existem no Brasil. Porém, no dia 31 de julho, decidi visitar a Paróquia Anglicana do Bom Samaritano, aqui em Boa Viagem, após ler uma mensagem em sua página do Face convidando os recifenses a conhecer a Igreja. Pois bem, ali cheguei e logo me senti acolhido. E esse acolhimento não é algo que posso descrever em poucas palavras. O que posso dizer? Além de ter ouvido o “Blues da Piedade” de Cazuza misturado a outras músicas sacras, e um sermão sobre o sentido atual de “Buscar o Reino de Deus e sua Justiça” na tarde daquele domingo, percebi que – e apesar do pouco tempo em que conheci e frequento a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a primeira Igreja Anglicana no país -, além de ser uma Igreja séria, comprometida com a mensagem do Evangelho, é a primeira – e talvez uma entre muito poucas no país – que não faz acepção de pessoas na prática, seja por sua origem, posicionamento ideológico, gênero e orientação sexual.

Esse testemunho do Rafael manifesta bem o que estou dizendo sobre a espiritualidade anglicana. Isso é uma delícia, e jamais poderia ser visto noutra igreja tradicional ou em alguma moderna. É o tipo de espiritualidade que não lhe faz se sentir um ET perante o melhor que nossa sociedade produz, nem tampouco lhe faz desprezar o que há de genuinamente sacro na tradição da Igreja.

rev-s25c325a9rieConcluo com uma citação da meditação XVII de Jhon Donne, poeta e sacerdote anglicano (outra indicação do Pe. Reginaldo Dutra Peçanha), que gosto muito e que acho expressar bem a espiritualidade integral do anglicanismo: “Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme”.

Se me permitem algo mais, deixo uma indicação: a série REV, que é transmitido na Globo Sat, mas pode ser encontrada na web. Ali está uma boa dose da “santa mundanidade” anglicana!

Foi uma alegria partilhar meus pensamentos nessa série de posts. Espero que tenham gostado.

Leia também:

Sou um cristão anglicano (I)

Sou um cristão anglicano (II)

Meditação XVII

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