Teológica

Sintagma do Ministério Sacerdotal

“Casa de Israel, não poderei fazer de vós o que faz esse oleiro. O que é a argila em suas mãos, assim sois vós nas minhas, casa de Israel” (Jr 18,6)

A Igreja é uma realidade belíssima, com a grandeza da sua Tradição, e riqueza da sua milenariedade. São vários ritos dentro de uma mesma Igreja; e mesmo dentro de um único rito, a variedade é imensa de comunidade a comunidade. De modo que todos podem encontrar o seu lugar dentro da ecclesia. E isto sem ressalvas, porque cada um faz uma experiência diferente de Deus em sua vida, a partir da sua própria cultura, história e vivências eclesiais.
Falando daqueles que são chamados a abraçar a Igreja mais plenamente, aqueles que são retirados do seio das comunidades para serem formados e reenviados a elas mesmas – estes que Deus reservou para desempenhar o ministério sacerdotal – a constatação dessa múltipla realidade, tem conseqüências importantes. Cada um desses, ao ingressar no caminho formativo proposto pelo Seminário, já carrega consigo uma eclesiologia, uma cristologia e um dado referencial de ministério sacerdotal. Isto porque, como dissemos antes, cada um é extraído, não do nada, mas sim de uma família, comunidade de fé, nas quais fizeram uma determinada experiência de Cristo. E não sozinho, mas conduzido por um pastor, ou mais de um, que tinha um modo específico de exercer a sua participação no ministério sacerdotal do Cristo Cabeça e Pastor da Igreja.
Ao longo do caminho formativo, cada qual deve aprimorar essas bases primeiras que trouxe consigo. Não deve se fechar nelas, mas também não deve abandoná-las; cada um é chamado a maturá-las, nesse processo de conhecimento interno da Igreja, que se chama Seminário. É imprescindível a solidificação daquilo que trazemos, bem como a sua purificação – ao sabor do caminho pelo qual nos leva Aquele que nos chama, de acordo com a abertura e escuta sincera à vontade de Deus, como exige o tirocínio vocacional.
Com o passar dos anos, vai-se impondo mais intensamente no intimo de cada um, a pergunta fundamental: Que tipo de padre quero ser? Ou antes: Que tipo de padre devo ser? A princípio, desde a nossa entrada, sabemos dizer perfeitamente que tipo de padre queremos ser, mas isso de uma maneira ainda muito pueril e abstrata. São necessários alguns confrontos com a realidade, e algumas crises consigo mesmo, com o mundo e com a Igreja, para que este nosso desejo ganhe corpo e concretude. Pouco a pouco, com o aprimoramento da espiritualidade, os estudos acadêmicos, a compreensão da própria humanidade e as providenciais experiências pastorais, vamos tendo a capacidade de responder mais clara, profunda realisticamente à grande pergunta que nos impõe o Seminário e toda a Igreja que aguarda receber dos benefícios que o Senhor a cumulará, através da nossa participação no Seu ministério sacerdotal.

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Na Semiótica, ciência que estuda signos, Roland Barthes fala dos paradigmas e sintagmas. O Dicionário Aurélio afirma que paradigma é um modelo, um padrão dentro de determinado categoria de coisas. Desse modo, o paradigma de camisa, entre tantas camisas, é aquela mais cara, comprada numa loja bem conceituada, confeccionada por uma grife famosa, dentro do que está em alta no mundo da moda ultimamente.
Sintagma seria a unidade formada pelo conjunto de paradigmas dentro de um único aspecto – vestuário, por exemplo, para seguir a exemplificação dada. Abrimos o nosso guarda-roupa e escolhemos o nosso paradigma de camisa, bem como o de calça, cinto e sapato. O resultado final do nosso look é o que chamamos de sintagma.
Barthes desenvolve essa teoria para falar da análise semiótica de elementos tipo pinturas, músicas, textos, e tudo o mais que seja permeado de signos isto é, significados. Mutatis mutandi, podemos aplicar o pensamento desse teórico ao processo de formação presbiteral. Também somos uma pintura, uma música, um texto – e que idéia queremos comunicar? Qual sintagma estamos construindo, a partir do padre que queremos e devemos ser? Quais os nossos paradigmas? Cumpre fazermos uma análise da nossa caminhada, e também um exame de consciência, para trazer à consciência os valores que estão nos guiando no nosso processo de tornar-se padre.
Precisamos avaliar se os paradigmas que estamos cultivando são extraídos das páginas dos evangelhos; ou se são paradigmas extraídos da vida de alguns ministros que, por mais que bons, porque filhos do seu tempo, encarnaram no exercício do ministério valores negativos da cultura moderna. E que parecem ser, estes sim, o ideal para a nossa vida, uma vez que aparentam triunfalismo, só que ao modo valores negativos de hoje, e não das páginas do Evangelho.
Em todo caso, podemos formar um belo sintagma do ministério sacerdotal. Deus não cessa de dar sinais de qual é a Sua vontade. Mas precisamos ter como paradigma aqueles valores pelos quais anseia o povo de Deus, e que no final das contas é a própria vontade do Senhor da messe. Da totalidade do processo formativo, o candidato deve prezar por todas aquelas coisas que contribuam para formar um sintagma que esteja de acordo com a vontade d’Aquele que o chamou amavelmente.
Para isso, contribui o conhecimento das carências pastorais da Diocese, os apelos particulares que Deus faz na vida de oração, o auto-conhecimento (que permite a integração da afetividade e da sexualidade), do mesmo modo que a descoberta das lacunas teológicas e das demais ciências, que nunca são capazes de dar conta da realidade por completo. Em tudo isso Deus sinaliza a sua vontade, para que componhamos o nosso sintagma.
Também a amizade com os padres que passam em nossa vida, o conhecimento próximo de sua vida, a análise critica do seu exercício do ministério, à luz dos critérios evangélicos, nos ajudam nesse ponto. Cumpre usarmos a prescrição paulina: “Examinai tudo, e ficai com o que é bom”. Da vida desses homens, e a partir da nossa própria experiência, podemos elaborar boas sínteses, sempre guiados pelo Espírito, que nos forma segundo a vontade de Deus. O mesmo Deus que prometeu nos dar pastores segundo o Seu coração.
Não temos um padre bom plenamente, porque cada um tem o seu espinho na carne – e certamente também nós não o seremos. Mas isso não nos libera da obrigação de imitar aquilo que é bom em cada um: a caridade pastoral, a vida de oração, a sabedoria e inteligência, o equilíbrio humano-afetivo… a pobreza, a obediência, a castidade…, e aquilo que cada um tem de melhor! Desejemos ser padres santos, sábios e servos; mas sem nenhuma pretensão ou neurose de sermos super-homens, porque é preciso conservar a leveza da vida.

Adriano Portela
Salvador, 2007

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