Literária

Grandes Mulheres, Homens Grandes

A minha querida Renata

Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas jóias. O coração do seu marido confia nela, e não haverá falta de ganho. Ela lhe faz bem e não mal, todos os dias da sua vida. (Pr 31, 10-12)

Faço o elogio às grandes mulheres, porque ao lado de um homem vitorioso, sempre há uma grande mulher. A história está repleta de mulheres que foram capazes de fazer grandes sacrifícios, para apoiar os seus maridos, no que era o melhor para as suas vidas. Nos dias de hoje também temos mulheres que continuam a realizar a imagem bíblica da mulher como uma ajuda favorável ao homem (cf. Gn 2, 18), este que a deve amar, entregando-se por ela, como Cristo amou à Igreja (cf. Ef 5, 25).

Neste sentido, a tradição rabínica do Judaísmo nos lega a impressionante história do Rabí Akiva, com a sua esposa Rachel. Akiva era pastor do gado de Kalba Savua, uma das pessoas mais ricas de Yerushalayim (Jerusalém). Kalba Savua tomou a decisão de casar Rachel, sua filha, com algum dos ricos homens que freqüentavam a sua casa, e que eram entendidos na Torá. Mas Rachel tomou-se de amor por Akiva, que tinha a idade de 40 anos, e que era pobre, analfabeto e nada sabia da Torá.

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Akiva e Rachel, filha de Kalba Savua

Entretanto, vendo que ele tinha uma grande aptidão para a compreensão da Torá, Rachel o indagou: “Se eu for sua esposa, estudarás a Torá?” Akiva respondeu afirmativamente e os dois se casaram; contudo Kalba Savua não aceitou o casamento, e deserdou Rachel de sua rica fortuna. Akiva levava uma vida de grande pobreza com Rachel, quando partiu para estudar na Beit Midrash de Yavne (Jâmnia), onde aprendeu com Rabí Eliezer e Rabí Yoshua. Doze anos depois, voltou a Yerushalayim, acompanhado por 12 mil alunos. À porta de casa, escutou alguém perguntar a sua esposa: “Quanto tempo ainda viverás como viúva?” Ao que Rachel respondeu: “Poderia aguentar ainda doze anos sem o meu marido, para que ele se dedicasse à Torá ainda mais. Ao escutar aquilo, Rabí Akiva retornou para Yavne, de onde só voltou doze anos depois, acompanhado, desta vez, por 24 mil alunos.

Sabendo da sua chegada à cidade, Rachel correu imediatamente ao encontro do marido, que estava cercado por uma multidão. Kalba Savua soube da chegada de um grande rabí a Yerushalayim, e foi ao seu encontro porque tinha se arrependido de ter permitido que Rachel passasse fome por 24 anos, e queria uma palavra do rabí. Para seu espanto, o rabi não era outro, senão o genro a quem rejeitara. Tendo havido a reconciliação de ambos, Kalba Savua dá metade de sua riqueza para Rabí Akiva, que presenteia Rachel com a jóia Yerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro).

Na mitologia grego-romana, temos um caso não menos impressionante que a história do Rabí Akiva com a sua esposa Rachel: trata-se da história de Ulisses, com a sua esposa Penélope. Ulisses, Rei de Ítaca, partiu para a Guerra de Tróia. Completou-se mais de 20 anos, desde a sua partida, e ele não havia voltado para Ítaca, por causa da perseguição de Poseidon, deus dos mares, que o impedia de voltar para casa. Dada essa demora, Ícaro, pai de Penélope, insistiu que ela se casasse novamente. Para não desagradar ao pai, Penélope consentiu em se casar novamente, sob a condição de que antes terminasse de tecer uma colcha. Durante o dia, ela costura a colcha, e a noite a desfazia. Este foi o artifício que ela utilizou para conseguir ficar fiel à espera do seu marido, porque sabia que ele havia ido cumprir a sua missão, que era para toda a cidade.

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Penélope e os pretendentes (John William Waterhouse, 1912)

Mas um dia descobriram a artimanha de Penélope e resolveram forçá-la a se casar. Então ela disse que se casaria com aquele que se igualasse em méritos a seu marido, conseguindo retesar o arco de Ulisses e que atirasse uma flecha que atravessasse o orifício de doze lâminas de machado alinhadas. Ninguém conseguiu realizar a prova com sucesso, exceto o próprio Ulisses que, sob o disfarce de um velho, acabara de chegar a Ítaca. Desse modo é que Penélope manteve a sua fidelidade.

Ambas as histórias falam da grandeza das esposas que são capazes de padecer o afastamento de seus maridos, para que eles pudessem exercer o que lhes era necessário à vida. Contudo, tanto a história de Rachel, quanto a de Penélope, não fala da angústia calada dessas impressionantes mulheres, que sofreram no silêncio a ausência diária de seus amados, senão apenas que os esperaram. Faço-lhes agora, como um dever do coração, para honrar o martírio diário destas heroínas, porque sem elas, não teriam conseguido os seus maridos.

Sabiamente disse Antônio Vieira que, “Assim como o gosto faz os dias breves, assim o trabalho os faz longos”. Não fosse a paciência sacrifical de suas mulheres, tanto Ulisses, quanto Akiva (porque estudar também é um trabalho) não sobreviveriam às penas do alongamento de seus dias de trabalho – fora a lembrança do olhar de suas amadas chamando-os, que os impeliu a vencer estas penas, a fim de voltar para casa. Portanto, não fosse estas mulheres, nem Ulisses seria o grande responsável pela vitória dos gregos sobre os troianos, nem Akiva se tornaria um dos maiores rabís do período talmúdico do Judaísmo.

Portanto a humanidade deve honrar estas mulheres. Mas honrando estas de ontem, quero honrar as Rachéis e Penélopes de hoje, que não esperam mais de duas décadas, senão mais que dois meses, dois anos, ou coisa parecida. “Como diz as Escrituras, “a mulher que teme ao Senhor merece louvor. “Dai-lhe do fruto das suas mãos, e as suas obras a louvem nas portas da cidade” (Pv 31, 30s).

Adriano Portela

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