Teológica

Pentecostes, torre de Babel e o princípio da unidade

 

Todo ano a Igreja celebrará em sua liturgia a Solenidade de Pentecostes que faz referência à descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, mas não apenas, pois que o Espírito desceu também sobre os não-israelitas (partos, medos, elamitas, romanos etc.) que escutaram os Apóstolos falar em cada uma de suas línguas maternas. Veremos aqui o que se realizou em Pentecostes; qual a relação entre este evento e o relato da Torre de Babel e o que devemos atualizar em nossa vida, com a celebração da Solenidade de Pentecostes.

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A Liturgia da Igreja, não apenas para Pentecostes, tem ao menos duas dimensões: uma histórica e outra espiritual. Histórica porque celebramos fatos históricos, tais como o Nascimento, a Paixão e a Ressurreição de Jesus; espiritual porque celebramos estes mistérios no intuito de atualizá-los, de receber de sua graça em nossas vidas.

Nesse sentido é que Catalamessa diz que “Escutando com fé aquilo que se realizou no Cenáculo cinquenta dias depois da Páscoa, o nosso relato não é um puro e simples narrar ou escutar. Por sua própria natureza, pela natureza da palavra de Deus que é ‘viva e eficaz’, isso tende a renovar, a fazer de novo presente e operante aquilo que outrora se realizou” (O Mistério de Pentecostes, p. 12). Sendo assim, não nos resta outra saída senão perguntar o que se realizou no Pentecostes, porque para atualizar algo precisamos saber o que devemos atualizar.

Atualmente o Cristianismo Ocidental caminha nas sendas da pentecostalização, quer seja o Protestantismo, quer seja o Catolicismo, o que faz com que o fenômeno de Pentecostes receba uma interpretação mais subjetiva, na linha da efusão dos dons do Espírito Santo. Proporemos, entretanto, uma interpretação mais objetiva, na linha da unidade, associando o evento de Pentecostes ao relato da Torre de Babel. Associação, aliás, que não é nossa, mas da Patrística, como se observa em Santo Agostinho, em quem lemos que, “Por culpa dos homens soberbos foram divididas as línguas; graças; graças aos humildes apóstolos as línguas são reunificadas” (Exposição sobre os Salmos, 54,11 (CCL 39, p. 665). Segundo a Patrística, então, Pentecostes realizou a unidade perdida em Babel. A própria Igreja validou essa associação, na medida em que inseriu o relato da Torre de Babel na Vigília de Pentecostes.

torredebabelrepresentacaoartisticaVerifiquemos quem eram os construtores da torre e qual era a natureza de sua construção, para que, a partir de uma informação, alcançarmos o sentido de Pentecostes. Costumamos interpretar a construção da torre como um projeto “contra Deus”, contudo, ela era “para Deus”, uma vez que se tratava de uma torre “cujo topo chegasse ao céu” (Gn 11,4), como os restos de grandes torres encontradas na Mesopotâmia, que serviam como edifícios de culto, porque se pensava que quanto mais alto o edifício, mais assegurados estavam os benefícios da divindade.

No entanto, a motivação de tal construção, no fundo, era a autoafirmação, como lemos: “Vinde, edifiquemos… uma torre cujo topo chegue até os céus e tornemos célebre o nosso nome” (Gn 11,4). Deus era aí instrumentalizado, porque era “para Deus”, mas para tornar “célebre o nosso nome”, como disseram os construtores. Portanto, se Deus fora instrumentalizado, não fora instrumentalizado por ateus, mas por pessoas de fé que desejavam torná-lo seu devedor, achando que podiam construir salvação com as próprias mãos! Não a toa Deus confundiu-lhes a língua e dispersou-lhes por toda a terra (Cf. Gn 11,7-8).

Aqui, então, se alcança o sentido do Pentecostes: deixar que Deus realize em nossa vida a Sua vontade, que não tem limites geográficos nem confessionais, como vimos no relato da vinda do Espírito Santo; e não insistir em nos impormos a Deus, construindo nós mesmos as estruturas para alcançá-lo, como aconteceu em Babel. Atualizar o Pentecostes, então, significa abandonar-se em Deus e deixar que Ele faça a Sua obra, acolher a Sua lógica e aceitar as Suas escolhas. Babel está para a soberba do possuir, enquanto Pentecostes está para a humildade do se deixar possuir.

Na semana que antecede a Solenidade de Pentecostes, algumas igrejas cristãs, incluindo a Igreja Católica Apostólica Romana, celebra a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, por essa razão, motivamos a nossa Igreja, bem como as demais igrejas, a acolher essa atualização de Pentecostes, a fim de que revertamos Babel e cheguemos a falar uma mesma língua, no Espírito Santo. Sabemos o quanto a religião pode ser soberba; sabemos o quanto podemos inventar estruturas para chegar à salvação, em lugar de acolhermos os dons que Deus nos dá. Prefiramos Deus!

Salvador, 02 de maio de 2012

Pe. Adriano Portela

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