Literária

“Nunca te vi, sempre te amei!”

Porque foste na vida a última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu, sem eu saber sequer
Porque és o meu homem, e eu tua mulher
Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh’alma como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser

(C. Jobim/A. Oliveira)

 

Andamos procurando, sem parar, pelo nosso Amor. E quem nunca se perguntou se a pessoa a quem ama é realmente a pessoa da sua vida? Como saber que encontramos o nosso Amor? Nascemos, e essas perguntas vão, pouco a pouco, emergindo de dentro de nós, como algo inevitável; quando nos damos conta, elas já estão conosco e nos conduzem por toda a vida.

Alma-gêmea, alma-irmã, cara-metade, a outra parte, assim chamamos àquelas pessoas a quem estamos destinados a encontrar, aquele pedaço de nós que desejamos o quanto antes reencontrar, “Mesmo que seja por instantes, apenas; porque esses instantes trazem um Amor tão intenso que justifica o resto de nossos dias”. Mas como reconhecê-la quando a encontrarmos, se já não sabemos qual o seu rosto? Se não sabemos qual o seu nome, e nem de onde vem? Não sei! “O coração sabe imediatamente aquilo que a mente custa a descobrir”, diz uma daquelas mensagens do bombom Serenata de Amor.

Quem dera pudéssemos dizer: “Nunca te vi, sempre te amei”, ao momento do nosso reencontro! Alguns poderiam perguntar: “Como assim amava sem nunca ter visto?” É verdade! Impressionantemente amamos quem ainda não conhecemos, porque buscamos ansiosamente alguém de quem não sabemos outra coisa, senão que tem certo modo de ser especial pelo qual tanto ansiamos. Esse amor não tem nome nem rosto, até que um dia o encontramos e cantamos como Bethânia: “Olha, você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim…”, e mais: “…tudo que andei procurando pela vida agora eu sei que andei sabendo que em algum lugar eu te encontraria porque você já era meu e eu sabia”. Por isto que quando encontramos esse alguém, podemos o dizer: “Nunca te vi, sempre te amei!”

O curioso é que a coisa não é bem assim! Acontece, por vezes, que não encontramos a pessoa realmente quando a “encontramos”, no sentido de vê-la em algum lugar; encontramo-na muito depois de já a termos encontrado, quer dizer, muito depois de nossos olhos tê-la “visto” realmente. Aqui, o nosso vocabulário é pobre: seria preciso fazer uma distinção entre olhar e ver, porque muitas vezes olhamos as pessoas e as coisas e não as vemos. Montaigne tem uma frase que diz que “Ver é sentir o que se olha”, isto é, perceber a sua realidade. Não é a toa que muitas vezes dizemos: “Nossa! Você sempre andou por aqui? Eu nunca te vi antes, mesmo vindo aqui sempre!” É verdade, um dia esquecemos a nossa agenda, e voltamos pra buscar; e quem nos devolve é alguém que nunca vimos trabalhando no lugar. Aí nos damos conta daquele(a) funcionário(a) que nos passava despercebido(a). No dia em que o(a) vemos, neste sentido de se dar conta da sua existência, é que a encontramos.

O fato é que talvez tenhamos convivido com a pessoa há anos e nunca a tenhamos visto, até que o inusitado acontece. Há um curta metragem de Louis Clichy, chamado A quoi ça sert l’Amour?[1], que retrata bem isso: numa praça francesa, repleta de namorados, um casal se cruza pelo caminho, mas não se vê, até que um piano caído do céu, no intervalo que separa um do outro, os faz olhar para trás e se verem mutuamente[2]. Esse é o inusitado: a pessoa estava ali, a procurávamos, mas não a vimos em momento algum, até que se deu este ou aquele acontecimento inusitado. Só então dizemos: “Nunca te vi, sempre te amei”!

Por acaso não é algo similar que acontece com os amigos que depois se tornam amantes? Não que eles nunca tenham se visto, só que nunca tinham se visto com outros olhos – sequer imaginavam-se como homem e mulher; eram simplesmente amigos – até que um dia, não sei porque cargas d’água, seus olhos mudaram de lente, e eles se viram encantados, apaixonados – estranhando como nunca antes isso havia acontecido e, ao mesmo tempo, como inusitadamente aconteceu. Não fosse um incidente inesperado, talvez um erro de interpretação, eles nunca se olhariam diferentemente. Conheço um casal que, depois de grandes amigos, um engano na interpretação das palavras os fez pensar a um deles que o outro estava apaixonado por si, e este acaso os uniu espantosamente. Não poderia ser melhor: parece que a vida inteira eles se procuraram sem saber que passeavam-se juntos pelos parques da cidade.

E é aqui que sabemos se a pessoa que amamos é a pessoa da nossa vida: se um dia o inusitado nos envolveu, se de repente o inesperado nos enlaçou claramente. Alguns falam de uma luzinha que brilha no ombro esquerdo da pessoa de nossa vida, outros falam do som de um sininho que escutamos no momento em que a encontramos. Para Brier e Luke, em Encontro com o Acaso, fora um simples sorriso. encontro-com-o-acaso-dvd-semi-novo-14753-mlb193121790_6794-oLuke ia embora para Los Angeles, e encontrou Brier no metrô. Ao passar por ela, Luke deixou a luva cair, e Brier a apanhou no chão para entregá-lo. Mas ele inesperadamente deu-lhe a outra, em vez de tomar-lhe das mãos a que caíra no chão. Os dois riram, o metrô partiu. Luke compreendeu que havia um prenúncio naquele encontro: ele passara tanto tempo naquela cidade e, justamente no momento em que ia embora, ganhara um sorriso de uma mulher lindíssima. Bastou um sorriso para perceber que se tratava de um encontro especial. Tudo isso para falar do inusitado, aquilo que não era previsto, o extraordinário: um estranho acaso.

Havia uma infinidade de pessoas a quem encontrar. Algumas até mais prováveis, por uma série de razões. Mas Luke encontrara Brier. Também nós poderíamos ter encontrado não aquela pessoa – esta com quem vivemos- mas outra; todavia, não encontramos outra, mas sim aquela – esta a quem amamos. E isso é tudo! O acaso desse encontro revela paradoxalmente um destino maravilhoso!

Em a Insustentável Leveza do Ser, Tereza conhecera Tomas por acaso, ou melhor, por uma série de acasos. Por acaso, aparecera uma difícil doença no hospital da cidade onde Tereza morava; por acaso, Tomas, e não outro, tivera que substituir o médico que se encarregaria do caso; por acaso Tomas hospedara-se no hotel em que Tereza trabalhava, e não em um dos outros quatro que existiam na cidade; por acaso, tivera um tempo, antes de partir, para sentar-se no restaurante; por acaso Tereza estava trabalhando, e por acaso fora ela, e não outra, quem servira a mesa de Tomas. Enfim, uma gama de possibilidades existia, mas, por acaso, aconteceu como aconteceu: Tomas encontrou Tereza, que por acaso entrou em sua vida.

Na verdade, “As pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem”: Deus tem um propósito para elas em nossa vida! O previsto era que naquele restaurante se sentasse Z., o amigo de Tereza, e que fosse por ele que ela se apaixonasse. Todavia, o acaso a visitou, e o improvável aconteceu. Este era o propósito de Deus! Tomas conheceu Tereza, e os dois terminaram juntos os dias de suas vidas. A verdade é que “Nada é por acaso, tudo está escrito”; diria uma velha amiga minha. Salvo o extremo determinismo, penso que ela fala, de certa forma, uma verdade. O acaso – que no final das contas era o previsto por Deus – carrega uma mensagem, porque nele se esconde a Vontade Divina. Quando, por acaso, acontece a coincidência de duas pessoas se encontrarem, este acontecimento não é uma simples coincidência, mas sim providência, porque é o anúncio de um maravilhoso destino em nossas vidas. Coincidência é o encontro de dois acasos; providência, o acaso predestinado para o bem daqueles que amam a Deus.

Há pessoas que dizem: “Realmente ela é a pessoa da minha vida, ele é a pessoa que Deus reservou para mim; conhecemo-nos numa viagem, e descobrimos que morávamos na mesma cidade, na verdade, morávamos no mesmo bairro, inclusive. Por acaso, encontramo-nos apenas em outra cidade, justamente quando tocava uma música que coincidentemente amávamos!” Outras dizem: “Saí para ver, encontrei no caminho. Encontrei quem eu procurava!” Misteriosa precisão! Incrível coincidência! Maravilhoso acaso!!!

Talvez seja assim que saibamos se a pessoa que amamos é a pessoa da nossa vida. O acaso manifesta a vontade de Deus; toda afinidade não é mera coincidência, é Providência Divina. O acaso das coincidências é a incidência de nossa cara-metade, nossa alma-gêmea, alma-irmã; enfim, a nossa Outra Parte, aquela à qual nós diríamos: Nunca te vi, sempre te amei!

Adriano Portela
Salvador, 2007

[1] Esse é o mesmo nome da canção interpretada por Edith Piaf e Théo Sarapo e que serve de trilha sonora do curta-metragem.

[2] O curta-metragem está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6sSgvuPYasA.

 

3 comentários em ““Nunca te vi, sempre te amei!”

  1. Adorei a matéria.
    Tive muitos namorados, casei com 25 anos e tive três filhos maravilhosos desse relacionamento. Veio a separação e me relacionei 8 anos com outro homem. Nos separamos e depois de 3 anos conheci outro homem por quem me apaixonei tão rapidamente quanto ele por mim. Estávamos em nosso primeiro ano de relacionamento, quando no meio da noite acordei e ouvi um sininho tocando com uma suavidade tão diferente de todos os sons que já ouvi em minha vida e esse som do sininho se repetiu mais uma vez, como se estivesse a confirmar que realmente estava presente a me avisar que eu dormia agora ao lado da minha alma gêmea. Foi mágico! Hoje eu não tenho dúvidas que nossa alma gêmea realmente existe e muitos são os sinais para isso. É preciso estarmos abertos e atentos para esses sinais.

    Curtido por 1 pessoa

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