Literária

“O amor é forte como a morte!” (Ct 8,6)

“Todos os sentimentos cansam e desistem, menos o amor. Sentimento algum é tão teimoso. Até quando passa, não acaba; posto de lado, jamais se conforma; mesmo se afogando na impossibilidade, não morre”. (Say Luene)

 

Não adianta! Há pessoas que nasceram para caminharem juntas por toda a vida, porque estava como que escrito que deveriam se encontrar algum dia. Podem até tentar separar essas pessoas, mas será apenas aparentemente, porque sequer a distância física é capaz de separar aqueles que estão destinados a se reencontrar sempre. A vida sempre arranja um modo de burlar as barreiras das convenções sociais.

Acabo de assistir ao maravilhoso Como Água para Chocolate, um filme inspirado no best-seller homônimo de Laura Esquivel. Senti-me profundamente sensibilizado pelo que retrata este longa-metragem mexicano. Resolvi, pois, dizer do fundo do meu coração aquilo que mobilizou em mim essa história de amor.

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Tita e Pedro, de Como Água para Chocolate.

Em Como Água para Chocolate, Pedro apaixona-se por Tita, a caçula de uma família cuja tradição diz que a filha mais nova deve permanecer solteira para cuidar da mãe, quando a sua velhice chegar. Pedro vai pedir a mão de Tita em casamento, mas diante da inflexibilidade da matriarca, aceita a proposta de casar-se com Rosaura, irmã mais velha de Tita, só para ter ao menos a possibilidade de permanecer perto da sua amada pelo resto da vida.

O casamento acontece, o casal vai morar na mesma casa em que mora Tita, que é a responsável pela cozinha da casa. Aparentemente estava tudo acabado, Pedro e Tita estavam separados pela sacralidade de um sacramento. Mas pessoas que se amam não são separadas tão facilmente quanto se imagina, haja vista que o afeto sempre encontra um modo subterrâneo de realizar-se. Tita arranja um modo de fazer amor com Pedro: ela punha a si mesma nos pratos culinários que preparava, e eles davam prazer em seu amado, porque satisfaziam os seus desejos mais intensos.

Foi assim no maravilhoso prato de codornas ao molho de rosas: “Parecia que num estranho fenômeno de alquimia, não só o sangue de Tita, mas todo o seu ser se havia dissolvido no molho de rosas, no corpo das codornas e nos aromas da comida. Desse modo, penetrava no corpo de Pedro voluptuosa, aromática e completamente sensual”; e a ânsia dele em comer os seus manjares eram os próprios toques em seus corpo em chamas. Todos os dias, então, eles faziam amor escandalosamente à mesa, diante dos olhos daqueles que pensaram ingenuamente poder separá-los para sempre.

Mas é assim mesmo, não é? Não era a toa que as mulheres antigas ensinavam às suas filhas desde cedo a conquistarem os seus futuros maridos pela boca, e diziam-lhes que o segredo de um saboroso prato é fazê-lo com amor. Quer dizer, é pôr-se “dentro” da comida. Por que será que algumas mulheres sabiamente “vão para a cozinha” elas mesmas – ainda que tenham cozinheiras – quando querem dar uma agitada no casamento? Um bom prato anuncia, porque faz antevê, o quão uma mulher é saborosa. Há uma associação espontânea, e inconsciente, do prato a quem o prepara. Se saborosa, a comida tem o poder tornar apetitosa a pessoa que a preparou amorosamente.

Para uma dona de casa, cozinhar não é senão a canalização do seu amor, por isso, as refeições podem ser verdadeiros atos sexuais. Acho que Freud compreendeu isso: ele dizia que nascemos aptos para transar o dia inteiro, mas por causa das regras sociais e das nossas necessidades, transferimos o nosso libido para outras atividades; é assim que uma refeição pode transformar-se num ato sexual tranquilamente. E para nós brasileiros é mais fácil compreender isso, porque graças aos índios canibais, banalmente usamos o verbo “comer” tanto para o ato sexual, como para o hábito de se alimentar. Eles acreditavam que ao se alimentar, ganhavam a essência (força) de quem eles comiam.

Assim, se transar é ganhar a essência do outro, receber da sua energia, podemos dizer perfeitamente que tanto se alimentar é transar também, e transar é se alimentar. Desse modo, Pedro podia muito bem se apoderar da essência da comida feita por Tita: o próprio amor que ela lhe reservava – e isso era um outro modo de transar, porque o amor encontra subterfúgios para bem se realizar.

E não foi apenas com Tita e Pedro que ele o fez. Também aconteceu assim com Abelardo e Heloisa que, no auge do seu amor, impedidos de se amarem, encontraram um modo para realizar o seu amor. Abelardo era um famoso filósofo na França, e Heloisa, a sobrinha querida do Cônego Fulbert, idealizador da Catedral de Notre-Dame, em Paris. Abelardo acabou indo morar na casa do Cônego Fulbert, onde também morava Heloisa, de quem se tornara professor. Foi dessa relação hospede/hospedeiro, professor/aluno, que nasceu um grande amor.

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Abelardo e Heloisa, de Em Nome de Deus.

Acontece que os professores de filosofia naquele tempo deviam ser celibatários, por isso esse amor não poderia nunca se consumar. Descobriram o amor entre Abelardo e Heloisa e trataram de separá-los imediatamente. Mas Heloisa aparece grávida, e Abelardo resolve fugir com ela – alguns dizem até que chegaram a se casar secretamente. Todavia, o Cônego Fulbert, querendo vingar-se, manda cruelmente castrar Abelardo, que resolve consagrar-se a Deus e pede o mesmo à sua amada.

Embora consagrados a Deus – e, por isso, separados um do outro -, a vida encontrou uma maneira de reaproximá-los: o convento de Heloisa fora tomado, e ela e suas irmãs bateram de porta em porta, até parar no convento de Abelardo, que tratou de construir ali mesmo um novo convento para Heloisa e suas irmãs. Mais uma vez eles estavam juntos, como reclamava o amor que sentiam. Todavia, o bispo Sugger, um de seus inimigos antigos, providenciou mais uma vez a separação dos dois, transferindo Abelardo para um outro mosteiro.

Mas o amor que os amantes sentiam era maior que a distancia que os separava. Se a comida foi o modo encontrado por Tita e Pedro, as cartas foram o modo encontrado por Abelardo e Heloisa. Quando distantes, suas cartas eram o único meio do seu amor realizar-se. Na História de Minhas Calamidades, Abelardo mesmo afirma: “Apesar de que a vezes estivéssemos separados, podíamos pela correspondência estar presentes um ao outro”. Heloisa, por sua vez, numa carta sua a Abelardo, rejubila: “Graças a Deus nenhum dos teus inimigos poderá impedir-te entregar-nos por este meio tua presença; nenhum obstáculo material se opõe a ele”. No mundo de suas correspondências, estava protegido o seu grande amor.

E não haveria modo mais significativo que este próprio para esse amor se manifestar. Não poderiam ser as comidas a efetivar essa paixão, eles eram de outro tipo que não o de Tita e Pedro. Eram intelectuais. Foram as palavras mesmo que os uniu um dia, só poderiam ser elas mesmas a fazê-los se reencontrar, cada vez que o amor reclamasse. Se a castração deixara Abelardo mudo para a linguagem erótica dos amantes; seu coração, todavia, nunca deixou de ser eloqüente, e era ele mesmo que a Heloisa conquistava. Foi ela mesma quem o disse: “Que esposa, virgem, não se terá abrasado por ti em tua ausência e incendiado em tua presença? Possuías, sobretudo, duas qualidades capazes de conquistar todas as mulheres: o encanto da palavras e a beleza da voz. Não creio que outro filósofo as tenha possuído em tão alto grau”. Suas palavras eram brasas ardentes de amor.

Não adianta mesmo: “o amor é forte como a morte!” (Ct 8,6) Posto para fora da casa, ainda que entre pelo telhado, ele sempre arranja um modo de retornar. Alternativas são encontradas, porque o amor não conhece a sua não-consumação. Pode demorar anos, 22 até, como foi o caso de Tita e Pedro, mas um dia ele tem de alcançar o seu fim, o seu destino – mesmo que por instantes apenas; enquanto isso, ele acusa as relações desajustadas, ignorando as barreiras das convenções sociais.

Pedro não conseguia esconder o seu amor por Tita, e Rosaura sofria por ser rejeitada por Pedro. Heloisa tornara-se monja a pedido de Abelardo, mas aquela vida era para ela um exílio, um martírio verdadeiramente. Sofriam eles, sofriam seus filhos, sofriam todos que a eles estavam ligados. Assim acontece com as vidas desencontradas, os corações estarão inquietos enquanto não repousarem no amor. A sua não-consumação causará um mal-estar permanente.

Quanto a Pedro e Tita, Rosaura faleceu. A filha de Pedro casou, e ele ficou livre para juntar-se a Tita, mesmo que por instantes apenas – já que ambos vieram a falecer logo após. Já Abelardo e Heloisa, mantiveram-se amantes, mesmo que distantes, e no fim de suas vidas foram sepultados no mesmo túmulo. E o amor descansou em paz! Não percam a esperança os casais de amantes separados pelo infortúnio das regras sociais; antes creiam que a vida, um dia, de alguma forma, fará justiça a esse amor que tem a obrigação de ser assumido – digo isto porque o amor, asseguram as Escrituras, tudo espera, tudo suporta.

Adriano Portela
Salvador, 2007

2 comentários em ““O amor é forte como a morte!” (Ct 8,6)

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