Literária

“O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda…” (Mt 13,31)

Drão, o amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão nossa semeadura (…)

 Quem poderá fazer aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morrenasce, trigo, vive morre, pão
Drão

(Gilberto Gil)

 

 

É impressionante como há coisas que têm a misteriosa graça de serem sacramentos: sinais visíveis de uma presença invisível. Minúsculas que são, elas têm a formidável capacidade de portar um mundo em si mesmas. Falando assim, ninguém acredita. Todavia, não é verdade que costumamos ter porta-retratos nas instantes das nossas casas? Então, o que vocês me dizem? Vocês já repararam que para os outros, eles não passam de simples porta-retratos, mas para nós – que os temos -, eles são mais que isso? Eles são a porta-entrada para uma outra dimensão, na qual estão guardadas grandes lembranças, recordações afetuosas de dias felizes. Contemplando-os, adentramos num mundo subjetivo, que co-existe com a realidade, e acompanha-nos diariamente. Pode ser difícil de acreditar, mas é verdade o que digo: as coisas são maiores do que parecem; – por minúsculas que sejam – elas podem esconder em si um mundo invisível. E quando isso acontece, elas já não são coisas, são entidades, porque estão repletos de vida.

É assim com a mostarda. Um dia desses, na correria da minha vida, entre o intervalo de uma aula e outra, parei para fazer um lanche. Já não sei mais o que foi que lanchei, mas sei que a moça disse: “Tem catchup, maionese e mostarda!” Lembrei-me imediatamente de alguém que amo muito, e num misto de alegria e tristeza, sorri, cheio de saudade. Tenho uma verdadeira paixão por catchup (outro dia conto a minha história com o catchup), mas não como maionese – ela entope as veias do nosso coração; e mostarda, até um dia desses, eu sequer pensava em comer, porque detestava aquele gosto meio amargo. Mas um dia, por causa dessa pessoa de quem me recordei, resolvi comer mostarda. Fiz de propósito: eu queria que apenas dela – e de mais ninguém – recordasse-me a mostarda. E mais do que isso, eu queria que, a partir dali, ela (a mostarda) me recordasse aquele dia muito feliz. Pois bem, foi disso mesmo que me recordei, por isso não exitei em aceitar a sugestão da moça, e logo coloquei mostarda em meu lanche. Mostarda, e catchup, exceto maionese porque quero ter um coração saudável.

Curioso que isso tenha acontecido justamente com a mostarda! Divino insight: entre tantas coisas, escolheu o meu coração a mostarda para recordá-lo alguém a quem ele ama tanto, aquele encontro, aquele dia tão feliz. Quem terá inspirado ao meu coração que escolhesse como remédio para si a danada da mostarda? É significativo que o Mestre, na sua santa sabedoria, tenha falado também da mostarda, na boa nova que é o seu Evangelho. Parece ter pensado em mim, e no agora! Em uma das suas parábolas, ele revelou:

O Reino dos céus é comparado a um grão de mostarda que um homem toma e semeia em seu campo. É esta a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os pássaros vêm aninhar-se em seus ramos. (Mt 13,31-32)

A semente de mostarda é realmente a menor te todas as sementes – 1 a 2 milimetros de diâmetro apenas. Jesus não poderia usar outra imagem para falar do Reino dos Céus, senão esta da mostarda. Pequenina, ela pode crescer ao ponto de tornar-se uma árvore frondosa. Incrível isso! Penso que a imagem do grão de mostarda faça, de algum modo, referência ao amor. Não é ele que é capaz de fazer milagres? E não é ele que é o próprio Reino dos Céus? Afinal de contas, se o Reino dos Céus é o Reino de Deus, não poderia ser diferente, uma vez que Deus é amor!

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Isto é consolador. Porque, a despeito de todo empecilho, assim como o Reino dos Céus, o amor cresce – aliás, só cresce porque é propriamente a vontade de Deus, quer dizer, porque é a semente do Seu Reino Celeste. Não importam as pedras, não importam os espinhos, e sequer a quentura do sol é capaz de fazê-lo morrer. Se há uma terra boa na qual a semente foi germinada, por menor que seja o grão que nela tenha caído – e por mais que ele seja um apenas – o amor perdurará, o Reino vai crescer abundantemente, porque a terra produzirá cem por um, a ponto de tornar-se uma árvore frondosa na qual mesmo os passarinhos virão aninhar-se.

A terra boa é o próprio coração dos amantes. Uma vez que a semente aí for lançada, o grão não parará de crescer. Pouco importará o que falarem, o que fizerem: ela vai crescer, e à medida de cem por um, porque a terra é boa – como diz o Evangelho. Ela encontrará um modo diverso de nutrir-se, de irrigar-se, mas crescerá. “Dorme, levanta-se, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem ele o perceber” (Mc 4,27) – diz o evangelista. Ela aprontar-se-á subterraneamente – folha por folha, ramos por ramo, flor-a-flor, fruto-a-fruto – e, num belo dia, ela despontará do subterrâneo à superfície, com tudo, sem que mais o possa ceifar – posto que já não é grão, se não árvore.

É assim, a mostarda do meu lanche é subterrânea. Ela é sacramento de um amor grandioso que subsiste em mim: todos a vêem, mas ninguém a enxerga como eu a enxergo. Ela é passaporte para um mundo no qual uma paixão é realizada, silenciosa, discreta e secretamente. E que bom que é assim, com a mostarda, e não com outra coisa qualquer. A mostarda, que pelos antigos, foi usada como remédio; e que até hoje é usada como tempero. Esta mostarda que me cura – porque estou doente de amor – dando sabor à minha vida. Que bom que é assim, porque a saboreio amorosamente, e mastigando, engolindo-a – comendo-a – ela entra em mim, forte, agridoce, adocicada e picante, como é próprio da mostarda. Ela me dá força pra viver, alimentando-me; e assim vivo em paz!

Dessa forma, o meu lanche não é mero lanche: é uma celebração; exige um rito. Ele relembra o passado, atualiza-o subjetivamente, e prenuncia tempos futuros. Falando aos Discípulos, o Mestre disse: “Em verdade vos digo: se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela irá; e nada vos será impossível” (Mt 17,20). Por essa razão, o amor – para o qual basta ser do tamanho de um grão de mostarda – é capaz de mover montanhas intransponíveis, e mudar a realidade. Sendo assim, quero muitas refeições a base de mostarda – não importa se amarela ou preta; e se fresca, desidratada ou em pó – quero-a simplesmente, e isso basta. Basta que eu a tenha, e terei fé o suficiente, de tal modo que poderei transportar as montanhas – os empecilhos todos – a fim de que a vontade de Deus seja feita, e o Seu Reino seja definitivamente instalado e consumado.

Bendita seja a mostarda, digna da pregação do Divino Mestre. Sacramento do meu amor, medida da minha amada. Ela que, um dia, fez-me experimentá-la; ela que um dia adicionou-a a um manjar, preparado para mim, à guisa de amor. Em ti, bendita mostarda, para que reencontremo-nos novamente, onde quer que estejamos – ela lá, e eu cá –, os bons ventos do Espírito nos inspirou guardar o nosso amor. Por isso, cada vez que a tomo em mim, recordo-me daquele dia e daquela que fez daquele dia, aquele dia: tu me reconduzes àquela que amo. Tu realizas, tu preparas o Reino de Deus.

Adriano Portela
Salvador, 2007

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