Histórica

Anglicanismo de Missão na Bahia: a perseguição ao Rev. Richard Rolden (1862-1864)

O Anglicanismo chegou à Bahia, e aos demais lugares do Brasil, como um protestantismo de imigração, o que quer dizer que sua atuação se restringia ao atendimento espiritual dos anglicanos que imigraram para o Brasil, sem haver, portanto, pretensão de expandir a fé protestante entre os brasileiros. Esse modus operandi estava plenamente de acordo com o que previa o Tratado de Navegação e Comércio (1810) e Constituição Política do Império da Brasil (1824) os quais, embora permitisse o exercício de uma fé não católica-romana, tratavam de controlar exibições públicas de comunidades que não professassem a religião oficial, consecutivamente, do Reino de Portugal e do Império do Brasil.

O ano de 1853 marca, para os anglicanos da Bahia, a consolidação de sua comunidade, com a inauguração do novo tempo Saint Georg Church, no Campo Grande. Uma implantação que se iniciou em 1814, com a compra do terreno para o Cemitério Britânico, ela se desenvolveu ao longo dos anos, articulando ao redor da Saint Georg Church os ingleses da cidade, até expressar a maturidade de sua congregação com a inauguração do templo do Campo Grande.

A realidade de protestantismo de imigração no Brasil começará a mudar com a paulatina atuação de missionários protestantes advindos da Sociedade Bíblica dos Estados Unidos, cujo trabalho consistia na venda de Bíblias e distribuição de folhetos teológicos, a fim de divulgar doutrinas reformadas entre os habitantes do Brasil. A atividade missionária se intensificaria na segunda metade do séc. XIX, mas ela teve precursores ainda na primeira metade do século. Já nos anos 1836-1837 e 1840-1842, o reverendo Metodista Daniel Parish (1815–1891) e sua esposa Cyntia H. Russel, ambos norte-americanos, realizaram atividades missionárias em algumas províncias do Brasil, a serviço da Sociedade Bíblica dos Estados Unidos.

Na passagem pela Bahia, provavelmente em 1837, eles foram recebidos pelo Capelão da Saint Georg Church, Rev. Edward Georg Parker, com o qual deixaram uma remessa de Bíblias. Inclusive, Kidder fez uma referência à capela e culto anglicano de Salvador, no Reminiscências de Viagem e Permanências nas Províncias do Norte do Brasil, livro publicado pelo Rev. Kidder por volta de 1847, quando retornou para os Estados Unidos.

Em 1851, também chegou ao Brasil, a serviço da Sociedade Bíblica dos Estados Unidos, o missionário presbiteriano, Rev. James Cooley Fletcher, que era amigo de Daniel Kidder. O Rev. Fletcher esteve em Salvador em 1853 e também fez referência ao culto anglicano da Bahia, em O Brasil e os brasileiros, livro publicado em 1857, com Daniel Kidder, sobre a missão protestante no Brasil. Os comentários de Kidder e de Fletcher sobre a comunidade anglicana de Salvador podem ser encontrados em Anglicanismo na Bahia do Século XIX: a implantação da Comunidade.

Em O Brasil e os brasileiros, encontramos um detalhamento sobre as atividades missionárias:

Como subsídio para nossos trabalhos evangélicos tínhamos preparado quatro novas publicações em português, especialmente adotados ao ambiente brasileiro. Delas tiramos larga edição e desembaraçamos da alfândega nova remessa de bíblias, testamentos e saltérios, recebido dos Estados Unidos, que melhor nos aparelhou para o bom desempenho da nossa missão.

Exemplares expostos à venda, e anunciados nos jornais encontram muitos compradores não só nas cidades como também nas províncias distantes. Nas casas de missões, muitos exemplares são gratuitamente distribuídos; e em várias ocasiões, há o que se pode chamar uma verdadeira invasão de pedintes do livro sagrado. (1941, p. 294-296).

Para mensurarmos o alcance da atividade missionária protestante no Brasil, temos a notícia dada por Émile Léonard em O Protestantismo Brasileiro: estudo de Eclesiologia e História Social, segundo o qual as Sociedades Bíblicas norte-americana e inglesa haviam distribuído, somente entre 1854 e 1859, cerca de vinte mil exemplares da Bíblia Sagrada no Brasil. (apud JESUS, 2014, p. 48) Por essa razão, encontramos no Brasil e os Brasileiros uma declaração otimista sobre a abertura do Brasil à missão protestante.

[…] os brasileiros nos seus costumes políticos adotaram uma Constituição liberal e tolerante. Embora ela faça da religião Católica Apostólica Romana a religião do Estado, permite que todas as outras formas de religião sejam mantidas e praticadas, salvo o edifício “tendo a forma exterior de um templo”. Também proíbe perseguição das ideias religiosas. Gradativamente, as vistas esclarecidas dos grandes assuntos de tolerância e liberdade religiosa tornam-se mais disseminadores entre o povo e, por isso, muitos estão preparados para bem receber qualquer movimento que lhes prometa dar o que há tão longo tempo estão sistematicamente esperando: o evangelho da verdade para seu uso pessoal. (Ibidem).

Tanto o Reminiscências de Viagem e Permanências nas Províncias do Norte do Brasil, quanto O Brasil e os brasileiros: esboço histórico e descritivo trataram de projetar nos Estados Unidos o Brasil como país de missão e serviram como uma bússola para aqueles que viessem realizar a missão. Desse modo é que, em 1860, o Rev. Richard Roden chega ao Brasil com “suprimento de Bíblias” e “munido com um exemplar” do livro O Brasil e os Brasileiros, segundo David Gueiros Vieira em O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil (apud JESUS, 2014, p. 35)

Richard Holden (1828-1886) nasceu de Dundee na Escócia, filho de um casal anglicano. Iniciou o aprendizado da Língua Portuguesa em 1851, quando esteve no Brasil como comerciante. Depois foi estudar teologia em Ohio, nos Estados Unidos, onde também aprimorou seu português, o que lhe possibilitou realizar a primeira tradução em português do Livro de Oração Comum (LOC) e de muitos hinos tradicionais anglo-americanos. Em 1860, o Rev. Richard Roden foi enviado ao Brasil pelo Departamento de Missão da Igreja Episcopal, como é chamada a Igreja Anglicana nos EUA, e pela Sociedade Bíblica Americana.

Richard Holden viria a se tornar uma das personagens mais importantes no protestantismo de missão no Brasil, como se pode perceber mediante a reação empreendida pela hierarquia católica-romana e evidenciará os limites da abertura brasileira à missão protestante aventada por Kidder e Fletcher. As legislações existentes no país, ao um só tempo denotavam abertura e contenção à atividade protestante.

richardholden
Rev. Richard Rolden

Primeiramente, Holden estabeleceu-se no Pará, onde sua ação suscitou polêmica porque, além da costumeira distribuição de bíblias e folhetos, publicou textos em jornais que naturalmente colocavam em questão a doutrina católica-romana. O Bispo do Pará, Dom Antônio Macedo Costa, reagiu às publicações de Holden, em 1861, através de uma Carta Pastoral na qual advertiu o clero e os fiéis leigos contra o “monstro da heresia” e suas “falsas Bíblias”. A polêmica entre Holden e Dom Macedo Costa perdurou de 1861 a 1862 na imprensa paraense.

Em 1862, Holden decidiu mudar sua atividade missionária para a Bahia e solicitou a Alexander Blackford, missionário no Rio de Janeiro, que enviasse para Salvador uma pessoa que ajudá-lo, sendo escolhido para tal o espanhol Thomas Gallart, que era casado com uma baiana e que havia morado nesta província nas décadas de 40 e 50 do século XIX.

Chegando à Bahia antecipadamente a Holden, Gallart encarregou-se da venda de Bíblias e livros religiosos e da distribuição de panfletos protestantes em Salvador e no Recôncavo (Santo Amaro, Cachoeira, Nazaré e circunvizinhas). A atividade de Gallart foi alvo da Carta Pastoral intitulada Premunindo os seus Diocesanos contra as mutilações, e as adulterações da Bíblia traduzida em Português pelo Padre João Ferreira A. d`Almeida; contra os Folhetos, e Livretos contra a religião, que com a mesma Bíblia se tem espalhado nesta Cidade; e contra alguns erros, que se tem publicado no País.

A Carta Pastoral de autoria do Arcebispo da Bahia, Dom Manoel Joaquim da Silveira, foi publicada antes mesmo da chegada de Richard Holden à Bahia. Nela, lê-se:

“[…] chegou aos nossos ouvidos, que nesta Cidade se andavam vendendo Bíblias falsas, e livrinhos contra a Religião, os quais, pela beleza da impressão, pelo pequeno formato e módico preço eram vendidos com muita facilidade por um homem que, quando se lhe opunha alguma dúvida sobre os livros que oferecia, declarava que vendia com a autorização nossa, e assim tinha iludido muitos incautos, foi o nosso primeiro cuidado examinar se o fato era verdadeiro e, inteirado infelizmente de que assim era, no intuito de desfazer sem demora o embuste e ardil empregado, e de prevenir os males que deles podiam resultar, ordenamos aos Reverendos Párocos desta Capital que, à estação da Missa conventual aconselhassem aos Fiéis que estivessem de sobreaviso contra os erros que contém essas Bíblias mutiladas e adulteradas, e mais livros que os inimigos da religião Católica não cessam de espalhar com o fim de induzir os incautos a seguir as suas falsas doutrinas, ou de pelo menos instilar-lhes ao ânimo a dúvida que, em matéria de Fé se aproxima da heresia, o que para os inimigos do Catolicismo já é uma grande vantagem, e se abstivessem por bem de sua salvação de possuir e de ler essas Bíblias e esses livros, em que os erros se insinuam de um modo sutil de mistura com a própria verdade”. (SILVEIRA, 1862, p. 3-4)

Depois de chegado à Bahia, tomando conhecimento da Pastoral do Arcebispo da Bahia, Richard Holden escreveu, em 1863, dois textos como respostas às acusações do Arcebispo: Os Livros Apocryphos: o Seu Direito de ser Incluídos na Bíblia Sagrada e As Accusações Contra os Protestantes na Pastoral do Arcebispo da Bahia. A polêmica teológica entre Holden e Dom Manoel Joaquim da Silveira estampou nas edições de 27 e 28.01 e 07.05.1863 do jornal DIÁRIO DA BAHIA.

A polêmica acerca da distribuição das Bíblias e folhetos religiosos por Gallart e o fato incomum do Rev. Richard Holden realizar cultos e Escola Dominical para os brasileiros em língua portuguesa, gerou perseguições aos anglicanos na Bahia. Rolden, juntamente com sua congregação, foi vítima de agressão física e invasão da casa onde se reuniam. Ele relata em seu diário que o cônsul dos Estados Unidos, Thomas Wilson, solicitou proteção policial ao culto, que durante três ocasiões no mês de abril de 1863 precisou da intervenção policial para dispersar agressores. Além disso, o Cônsul dos EUA requereu ao Presidente da Província a abertura de inquérito policial, já que o artigo 179, parágrafo 5º da Constituição Política do Império do Brasil afirmava que “ninguém pode ser perseguido por motivo de religião, uma vez que respeite a do Estado, e não ofende a moral pública”.

Na passagem de Gallart e Holden pelo Recôncavo baiano, os missionários também tiveram problemas com a polícia local. Em junho de 1863, Gallart foi intimado pela polícia de Cachoeira para ser dissuadido de vender Bíblias na cidade, mas Gallart insistiu em vendê-las, o que irritou o pároco local que em, certa feita, agarrou o espanhol “violentamente pela gola do paletó… usando a linguagem mais insultuosa possível”. O Senador liberal Francisco Gonçalves Martins, futuro Visconde de São Lourenço, formulou uma petição ao Chefe de Polícia da Bahia, Sebastião do Rego Barros de Lacerda, que realizou um censura pública ao delegado de Cachoeira, por causa da perseguição aos missionários. Temos notícias de todos esses acontecimentos através do diário do Rev. Richard Rolden.

As querelas em que se envolveu no Pará e na Bahia fez com que Holden perdesse o apoio do Departamento de Missões Episcopais dos EUA e da Sociedade Bíblica Americana, que desde o princípio foi contrário ao envolvimento do missionário em polêmicas. Por essa razão, em 1864, Holden se desligou dessas agências missionárias e foi nomeado como agente da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, indo auxiliar o também escocês Robert Kalley na Igreja Evangélica Fluminense, enquanto Thomas Gallart, permaneceu na Bahia.

Não podemos dizer que as agressões físicas e perseguições policiais foram comandadas pela Igreja Católica Romana, mas sem sombra de dúvidas, a linguagem empregada nos documento do prelado, tal como “inimigos da Religião Católica”, disseminou ódio aos protestantes, num contexto em a “melhor forma que o fiel tinha para demonstrar amor e zelo por sua religião era combatendo os seus ‘inimigos’, por isso a ordem era lutar contra os ‘hereges’ e ‘infiéis’”, que desejam roubar o espaço do Catolicismo no Brasil (JESUS, 2014, p. 10). “Mas passadas essas turbulências reinou uma espécie de acordo de damas entre as duas igrejas”, segundo Elizete da Silva no artigo Protestantes na Terra de Todos os Santos (SILVA, 2014, p. 69)

Adriano Portela dos Santos

Referências

HOLDEN, Richard. As accusações contra os Protestantes na Pastoral do Arcebispo da Bahia. Bahia: Typ. Poggetti de Tourinho, Dias & Cª. 1863.

HOLDEN, Richard. Os Livros Apocryphos, a questão de serem incluídos na Bíblia Sagrada. Bahia: Typ. Poggetti de Tourinho, Dias & Cª. 1863.

HOLDEN, Richard. Diário do Reverendo Richard Holden (1860 a 1865). Arquivo Episcopal Anglicano, Porto Alegre – RS.

JESUS, Leonardo Ferreira. “Ventos venenosos”: o catolicismo diante da inserção do protestantismo e do espiritismo na Bahia durante o arcebispado de Dom Manoel Joaquim da Silveira (1862-1874). Dissertação (Mestrado em História). Salvador: UFBA, 2014.

KIDDER, Daniel. Reminiscências de Viagem e Permanências nas Províncias do Norte do Brasil. Belo Horizonte. Itatiaia. S. Paulo. EDUSP. 1980, pp. 67/68.

KIDDER, Daniel P.; FLETCHER. O Brasil e os brasileiros: esboço histórico e descritivo. Rio de janeiro, Comp. Ed. Nacional, Vol. I, 1941, p. 294-296. Disponível em: http://www.brasiliana.com.br/obras/o-brasil-e-osbrasileiros-esboco-historico-e-descritivo-v1/preambulo/6/texto. Acesso em: 08/05/2013.

SILVA, Elizete da. Protestantes na Terra de Todos os Santos. In: Revista MOUSEION, Canoas, n.17, abr., 2014, p. 61-72.

SILVEIRA, Manoel Joaquim da. Carta Pastoral Premunindo os seus Diocesanos contra as mutilações, e as adulterações da Bíblia traduzida em Português pelo Padre João Ferreira A. d`Almeida; contra os Folhetos, e Livretos contra a religião, que com a mesma Bíblia se tem espalhado nesta Cidade; e contra alguns erros, que se tem publicado no País. Bahia: Tip. De Camilo de Lellis Masson & C., 1862.

VIEIRA, David Gueiros. O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil. 2ª ed. Brasília: Universidade de Brasília, 1980.

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