Histórica

Anglicanismo na Bahia do Século XIX: a implantação da Comunidade

A história do Cristianismo no Brasil anterior ao século XIX, atesta o quanto a Igreja Católica Romana foi a única permitida, promovida e patrocinada pelos reis portugueses, uma vez que até 1822 o Brasil era um Colônia de Portugal. Já na Bula Pontifícia Super Specula Militantis Ecclesiae (1551), com a qual criou o Bispado de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, primeira jurisdição eclesiástica do Brasil, o Papa Júlio III decretou o Padroado:

reservamos e concedemos o direito de Padroado e de apresentação a Nós e ao Pontífice Romano que então existir, de uma pessoa idônea para a dita Igreja do Santo Salvador, todas as vezes que a mesma venha a se vagar, ao dito Reis João, ou ao Rei que então existir,… e declaramos que o direito de Padroado e de apresentação existe com todo o vigor, essência e eficácia em virtude de verdadeiras e totais fundação e dotações reais. (apud COSTA E SILVA, 2001)

O Padroado era um regime jurídico através do qual a Santa Sé concedia aos Reis de Portugal e da Espanha o direito de administração dos negócios eclesiásticos no Novo Mundo e os reis, por consequência, se comprometia em manter e propagar a fé católica-romana nos territórios sob seu domínio. Lembremos que a Igreja Católica Romana havia perdido algumas nações europeias para o Protestantismo e desejava garantir seu domínio religioso nas terras do Novo Mundo “descobertas” por Portugal e Espanha.

O Tratado de Navegação e Comércio (1810) estabelecido entre Portugal e Inglaterra abriu precedente para o protestantismo de imigração, minando o regime de Padroado, com a declaração contida no artigo 12:

…Que os vassalos de S.M. Britânica residentes nos territórios e domínios portugueses não seriam perturbados, inquietados, perseguidos ou molestados por causa de sua religião, e teriam perfeita liberdade de consciência, bem como licença para assistirem e celebrarem o serviço em honra do Todo-Poderoso Deus, quer dentro de suas casas particulares, quer nas suas particulares igrejas e capelas, sob as únicas condições de que estas externamente se assemelhassem às casas de habitação e também que o uso dos sinos lhe não fosse permitido para o fim de anunciarem publicamente as horas do serviço divino, e que os vassalos britânicos e quaisquer outros estrangeiros de comunhão diferente da religião dominante nos domínios de Portugal, não seriam perseguidos ou inquietados por matéria de consciência, tanto nas suas pessoas como nas suas propriedades… (Apud RIBEIRO, 1973, p. 17)

A Família Real de Portugal havia se transferido para o Brasil em 1808, fugindo das ameaças de invasão de Napoleão Bonaparte, e contou com o apoio e amparo militar da Inglaterra, que comprometeu e um defender Portugal contra a invasão francesa. Em troca, a Inglaterra pleiteou a abertura dos portos portugueses a seus produtos e o beneficiamento de sua comercialização. Junto com isso veio aquilo que prescreve o artigo 12 do Tratado de Navegação e Comércio, sobre religião, haja vista que para cá mudariam muitos ingleses diplomatas, bancários, engenheiros e comerciantes.

Embora a exceção religiosa concedida no Tratado pretendesse apenas garantir o atendimento espiritual aos ingleses residentes no Brasil, obviamente ocasionou protestos por parte da hierarquia católica-romana. O Arcebispo de Nisibis (Síria), de passagem pelo Rio de janeiro, chegou a realizar a ameaça reinstalação da Inquisição, “para cuidar dos interesses da religião católica e refrear o progresso dessa heresia entre os brasileiros”. Já o bispo do Rio de Janeiro refletiu que

os Ingleses, realmente não possuem nenhuma religião, mas são um povo orgulhoso e obstinado. Se lhes fizerem oposição eles vão persistir e fazer disso um caso de grandes proporções; mas se cedermos a seus desejos, a capela será construída e ninguém jamais se aproximará dela ( WALSH apud SILVA, 1998, p. 48).

No caso da Bahia, segundo Elizete da Silva, a data mais antiga encontrada nas fontes oficiais sobre o estabelecimento dos anglicanos em Salvador é 08 de fevereiro de 1814, que diz respeito à compra do terreno para a construção do Cemitério Britânico, na Ladeira da Barra. O que leva a historiadora a cogitar que, ao menos desde 1814, os anglicanos já se reunião em alguma residência particular (SILVA, 1998, p. 40). Além do Cemitério, houve ainda o Hospital Inglês, projetado em 1815, na Vitória, onde residia a maioria dos ingleses. Tanto o Cemitério quanto o Hospital eram administrados pela Saint George Church, cujo Conselho era presidido pelo Cônsul inglês.

O primeiro nome de capelão da Saint Georg Church que temos notícia é o do Rev. W. Waller, do qual se sabe que, em abril de 1818, acabou o contrato de capelania. O Bispo de Falklands, sob cuja jurisdição se encontravam os anglicanos no Brasil, indicava o reverendo que deveria ser contratado por três anos (renováveis) pela Saint George Church. No ano de 1821, temos o nome do Rev. Robert Synge, através de uma visitante estrangeira chamada Maria Graham, que participou de uma celebração na capela inglesa e ficou impressionada com a dignidade do culto e disse ser o Rev. Singe um “homem de maneiras alegres e sociáveis, mas extremamente atento, tanto como capelão quanto como protetor de seus patrícios pobres” (GRAHAM, 1990, p. 174).

De acordo com o ofício através do qual o Cônsul inglês informava ao Presidente da Província sobre os anglicanos, a Igreja Anglicana na Bahia ou Igreja de São Jorge, no ano de 1836, tinha como capelão o Reverendo Edward Georg Parker, que “na qualidade de capelão tem que celebrar o Serviço Divino segundo as fórmulas de sua Igreja na casa particular próxima a Vitória para isso escolhida” (OFICIO de 5/ set./1836 DO CONSUL INGLÊS ao PRESIDENTE da PROVINCIA da BAHIA). Nesse período, Rev. Parker e o cônsul norte-americano receberam em Salvador o casal de missionários metodistas norte-americanos Daniel Parish Kidder e sua esposa Cyntia H. Russel. Kidder relatou em seu diário que a capela anglicana “poderia acomodar 80 a 100 pessoas e os frequentadores, porém, eram em média cerca de sessenta, isto é, mais ou menos metade dos ingleses da cidade” (KIDDER, 1980, pp. 67-68).

João José Reis, em seu monumental Rebelião Escrava no Brasil (2003, 24), apresenta a estimativa da população total de Salvador em 1835 como sendo 65.500 habitantes, dos quais 21.940 eram africanos e 33.385 brasileiros ou europeus (sobretudo portugueses). Os anglicanos eram, portanto, notoriamente uma minoria. Mas a instalação da Saint Georg Church não deixou de incomodar aos católicos-romanos da Cidade da Bahia. O retrato dessa realidade foi um incidente ocorrido com o Reverendo Parker, em 1847. O reverendo foi submetido a “uma espécie de prisão domiciliar, ordenada por um major, que tendo colocado dois soldados armados na porta da residência do clérigo, proibia qualquer pessoa de entrar ou sair da referida casa. De imediato, o cônsul britânico oficiou ao Presidente da Província exigindo providências e a não repetição do fato” (SILVA, 1998, p. 48). O incidente, obviamente, infringia as leis vigentes no Império do Brasil.

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Ilustração da Capela Anglicana do Campo Grande baseada na fotografia de Victor Frande, de certa de 1858. Crédito: http://www.salvador-antiga.com

No ano de 1853, houve a transferência da capela na Vitória para um novo tempo construído no Campo Grande, sem sinais exteriores de templo, como recomendava o artigo 12 do Tratado de Navegação e Comércio (1810) e artigo 05 do título da Constituição Política do Império do Brasil (1824), que pode ser lido aqui: Quando o Império do Brasil consentiu Igrejas Protestantes. Visitando a Bahia por volta do ano 1855, o pastor presbiteriano, Rev. James Fletcher fez referência à boa assistência nas celebrações anglicanas e à competência do capelão, no livro O Brasil e os Brasileiros (FLETCHER, KIDDER, 1941, p. 213). Com o templo do Campo Grande, os anglicanos de Salvador celebravam a maturidade do estabelecimento de sua comunidade na Bahia.

Adriano Portela dos Santos

Referências

FLETCHER, J. e Kidder,D. O Brasil e os Brasileiros. Rio de Janeiro. Nacional. 1941

GRAHAM, M. Diário de uma Viagem ao Brasil. São Paulo: Nacional, 1956.

JÚLIO III, Papa. Bula Super Specula Militantis Ecclesiae. In: COSTA E SILVA, Cândido da (Org.). Notícias do Arcebispado de São Salvador da Bahia. Salvador: Fundação Gregório de Matos, 2001.

KIDDER, Daniel. Reminiscência de Viagens e Permanência nas Províncias do Norte do Brasil. São Paulo: EDUSP, 1980.

REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo no Brasil Monárquico. São Paulo: Pioneira, 1973.

SILVA, Elizete da. Cidadãos de Outra Pátria Anglicanos e Batistas na Bahia. Tese de Doutorado em História. Universidade de São Paulo-USP, 1998.

WALSH, Robert. Notícias do Brasil. Belo Horizonte; São Paulo; Itatiaia: EDUSP, 1985.

Leia também:

Quando a República do Brasil decretou o Estado laico

Sermão de D. Romualdo de Seixas em Santo Amaro, durante a Sabinada (1837)

2 comentários em “Anglicanismo na Bahia do Século XIX: a implantação da Comunidade

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