Histórica · Literária

Poeta santamarense: Nestor da Costa Oliveira

Faz alguns meses que comecei a garimpar poemas de escritores santamarenses. Como descobri que o professor santamarense Nestor da Costa Oliveira  (1913-1977) era poeta, fui em busca de seus poemas, já que eu estava lecionando justamente numa escola que recebeu seu nome, o Centro Educacional Nestor da Costa Oliveira  (CENCO), no Distrito da Pedra, em Santo Amaro (BA). Encontrei primeiramente, através do artigo de Jorge Portugal, os dois sonetos reproduzidos abaixo, juntamente com o artigo. Logo depois, encontrei o livro Espelho de Três Faces, de autoria do Prof. Nestor, no qual estão os dois sonetos (Obstinação e Soneto a Sônia), e que me foi gentilmente cedido pela querida professora Janice. Em tempo oportuno, postarei novos poemas do professor Nestor, aqui no blog Conciliação.

O centenário de um poeta esquecido – Nestor Oliveira

Via Jorge Portugal (Facebook), sobre matéria publicada no jornal A Tarde.

 

PROFESSOR NESTOR

 

Essa história Mabel Velloso contou aos meus 14 anos: Caetano, ainda adolescente, estudava no Ginásio Teodoro Sampaio quando, um dia, o professor de Português recitou, com belíssima voz de poeta, um poema de sua autoria intitulado Ciclo. O garoto,atento, copiou o texto, levou-o pra casa, sentou-se ao piano e desenhou uma melodia para os versos. Nascia ali a primeira composição do futuro gênio da MPB. Nome do professor: Nestor Oliveira.

Mas não foi apenas Caetano Veloso que ele inspirou. Na verdade, Professor Nestor Oliveira foi farol de umas duas gerações e de uma cidade inteira. Até hoje, se você, leitor(a), conversar com algum santamarense de prosa cativante, concordância e regência impecáveis, conhecimento literário acima da média, e lhe perguntar em que instituto de letras estudou, receberá a pronta resposta: eu fui aluno(a) de professor Nestor!

Nestor era Poeta e levava vida de poeta. Boêmio de tempo integral, amante-devoto das mulheres, total descompromisso com as estúpidas burocracias que empobrecem a vida, por insistência dos amigos, candidatou-se a vereador em idos dos 1970 e obteve votação exponencial. Tornou-se presidente da Câmara e eventual substituto do prefeito, vez que naquele tempo não havia vice-prefeito. Genebaldo Correia, chefe do executivo, teve que ausentar-se por três semanas de Santo Amaro e passou o cargo a Nestor. O professor-poeta não pensou duas vezes e perpetrou sua grande obra como prefeito: mandou fazer um calçamento “de primeira” em toda a zona do meretrício da cidade! A ingratidão, com certeza, não estava entre seus possíveis defeitos.

Intelectual de proa, poeta dos maiores – parceiro e amigo de Édio Souza, Clóvis Amorim, Godofredo Filho e Jorge Amado – Nestor faria 100 anos neste 2013. A cidade, que deveria instituir “O Ano Nestor Oliveira”, ainda não lhe fez uma devida homenagem. Nem a Câmara, nem a Prefeitura. Lamento e espero. Infeliz não é o povo que precisa de heróis; mas o que os têm em abundância e não os valoriza.

Leia os dois sonetos que separamos do poeta:

 

Obstinação

Pelo prazer de voar tal qual uma asa,
Ou folha solta sobre errante veio,
Indiferente à dor, à mágoa alheio,
Feliz na bruma ou renteando a vasa…

Fiel ao sonho eterno que te abrasa,
Dentro da cerração, da noite em meio,
Voar sem rumo seja o teu anseio
Que tu, meu coração, és também, asa!

Asa solta de um pássaro sem ninho,
Desamando os limites, sem caminho,
Com a flama do ideal que agito em mim,

Na vertigem da glória desmedida
De voar, de voar, que é um voo a vida,
De morrer voando sem chegar ao fim!

(OLIVEIRA, Nestor. Espelho  de Três Faces. Santo Amaro: Imprensa Oficial de Sto. Amaro, 1977, p. 31)


Soneto a Sônia

Ando a procura da palavra doce,
A de mais branda e leve tessitura,
Capaz de traduzir ternura
Que Sônia, num sorriso, ontem, me trouxe…

O imenso esforço meu se desfigura,
Como se vivo e forte ele não fosse,
Pois, minha ânsia vencida, evaporou-se,
No tormento ideal dessa tortura¹.

Quero-a vinda do luar diluído em prata,
Que tanto pode o amor, velho amuleto,
Que sobre os cardos florações desata.

E cante nos rosais deste soneto,
Tal como a Cotovia, na hora exata,
Nos odoros jardins de Capuleto!

(OLIVEIRA, Nestor. Espelho  de Três Faces. Santo Amaro: Imprensa Oficial de Sto. Amaro, 1977, p. 41)

 

1. No livro impresso a que tive acesso, diferente do poema como foi publicado no Artigo de Jorge Portugal, em lugar da palavra “tortura”, o verso conclui-se com a palavra “procura”.

Fonte: http://www.mariapreta.org/2013/08/o-centenario-de-um-poeta-esquecido.html.

11998687_794890623956825_1269292796_nNestor da Costa Oliveira, nasceu no Município de Santo Amaro, a 10 de junho de 1913, no povoado de São Bento de Inhatá, que na época fazia parte do distrito da Lapa, atual município de Amélia Rodrigues. Era filho do  casal Manoel Gonçalves de Oliveira  e  Maria José da Costa Oliveira.  Formou-se como contador pela Escola de Ciências Contábeis  (Salvador). Cumpriu as funções de prefeito de Nilo Peçanha, entre 1942 e 1945, por ocasião de intervenção  na gestão de Pinto Aleixo. Casou-se em Nilo Peçanha, em 30 de janeiro de 1941, com Dona Glória Hora Rocha, com quem gerou quatro filhos. Em 01 de abril de 1949, começou o magistério como professor de Português do Gynásio Santamarense. Em Santo Amaro também fundou Jornal O Archote e foi vereador num mandato iniciado e interrompido em 1963, por divergências com o então Prefeito. Lançou sua única publicação, Espelho de Três Faces, em 26 de abril de 1977, no Salão Nobre da Prefeitura Municipal de Santo Amaro. Nestor da Costa Oliveira faleceu em 23 de junho de 1977, no Arraial da Pedra (Santo Amaro-BA), deixando inconcluso um romance titulado Os Descedores do Jequié.

Fonte: http://apoesiadobrasil.blogspot.com.br/2015/09/nestor-da-costa-oliveira-1913-1977.html

6 comentários em “Poeta santamarense: Nestor da Costa Oliveira

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