Homilética

Homilia da Festa de Santo Agostinho – 2012

Proferida na Capela da Comunidade de Filosofia
do Seminário Central São João Maria Vianney, em 28 de agosto de 2012.

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Reverendo Pe. Reitor, Padre Maurício Ferreira da Silva
e queridos seminaristas,

Graça e Paz da parte de Deus, Nosso Pai, e de Jesus Cristo, Nosso Senhor!

            Celebramos nesta data a Festa de Santo Agostinho, Doutor da Igreja e padroeiro da Comunidade de Filosofia do Seminário Central São João Maria Vianney. A antiga tradição da Igreja de apresentar os santos como padroeiros para determinadas realidades da Igreja e da sociedade tem um duplo objetivo: por um lado, fomentar a graça de Deus para essas realidades, através da intercessão dos santos; e, por outro, oferecer-nos um testemunho digno de como vivenciarmos essas realidades de maneira agradável a Deus.

            Nesse sentido, é interessante que o saudoso Arcebispo, Dom Fr. Lucas, Cardeal Moreira Neves, O.P., ao fundar o Seminário Propedêutico da Arquidiocese, tenha querido dar-lhe por padroeira Santa Teresinha do Menino Jesus. Essa santa carmelita, em vida, manifestou particular carinho pelos padres e seminaristas, dedicando-lhes a sua contínua oração; e a sua espiritualidade da pequena via, constitui-se uma excelente pedra fundamental para a futura vida presbiteral de cada seminarista, diante das tentações da supervalorização do poder e da invidia clericalis.

            Segue essa mesma lógica a iniciativa de dar um padroeiro a cada uma das pequenas comunidades do Seminário Maior, no processo implantado pelo Pe. Edson Menezes da Silva, quando Reitor deste Seminário, sob a orientação de Dom Walmor de Oliveira Azevedo, então Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Coube à Comunidade de Filosofia, naquela época, o patrocínio de Santo Agostinho, cuja vida foi marcada pela busca da verdade filosófica e que se converteu ao catolicismo depois de sua aproximação do neoplatonismo e da escuta dos sermões de Santo Ambrósio, Bispo de Milão, a ponto de querer tornar-se presbítero e chegar a ser Bispo da Igreja.

            Dessa forma, Santo Agostinho constitui-se um modelo singular para a tarefa que cada seminarista deve realizar durante toda a formação acadêmica, mais particularmente durante a filosofia: fazer com que a aquisição de conhecimentos, inclusive sobre as perguntas mais profundas do ser humano, conduza ao reconhecimento de Deus. A CNBB, nas atuais Diretrizes para a Formação de Presbíteros da Igreja no Brasil recorda que o estudo da Filosofia deve “levar a um conhecimento aprofundado da pessoa humana, da sociedade, do mundo e de Deus, de modo a promover a reflexão e integração entre fé e razão” (n. 36) e o Beato João Paulo II, na Pastores Dabo Vobis explicitou que “a formação intelectual deve ser integrada num caminho espiritual marcado pela experiência pessoal de Deus, de modo a poder superar uma pura ciência conceitual e chegar àquela inteligência do coração que sabe ‘ver’, primeiro, o mistério de Deus, e depois é capaz de comunicá-lo aos irmãos” (PDV, n. 51).

Mas não só pelo modo como percorreu existencialmente os caminhos do saber que Santo Agostinho se constitui um modelo singular para cada seminarista estudante da Filosofia, mas também pelo modo como ele se serviu de seu estudo para o apostolado. Como sabemos, Agostinho combateu tendências heterodoxas na Igreja Cristã, como o Pelagianismo, através dos seus escritos.

            No artigo intitulado O Significado dos Santos Hoje num Mundo em Mudança, o Cardeal José Saraiva Martins, então Presidente da Congregação para a Causa dos Santos, afirmou que “Os santos são como faróis; eles indicaram aos homens as possibilidades de que o ser humano dispõe”. Em nosso caso, enquanto estudantes em vista do ministério presbiteral, Agostinho nos ensina as possibilidades de que dispomos com o nosso estudo. Alhures, o Beato João II afirmou que os santos “preservam a Igreja da mediocridade” (Alocução aos jovens de Lucca, n. 4, 23.09.1989), por isso, considero que Santo Agostinho pode nos preservar de um paradigma medíocre de estudo, no qual a nossa formação acadêmica seja apenas uma exigência da Igreja para o ministério sacerdotal e não uma atitude nossa de amor à Igreja.

Dito isso, passo aos textos da liturgia desta festa, mas não como sendo uma coisa diferente do que foi dito até agora, senão como exemplaridade do que foi dito, sobretudo acerca de Santo Agostinho e o seu encontro com Deus, a partir de sua busca filosófica da verdade e do seu exercício pastoral de ensinar o Povo de Deus.

            No evangelho, retirado de Mateus 23,1-12, Jesus tenta salvar a legitimidade da Lei, diante dos empecilhos que dificultam a sua adesão. No caso desse evangelho, o empecilho é a discrepância entre a vida daqueles que legislam e o que eles legislam. Por certo, o povo de Israel tinha dificuldade de aderir às interpretações da Lei de Moisés realizadas pelos mestres da Lei e os fariseus por causa do contratestemunho destes. Diante desse contexto Jesus dá uma lição impressionante: não obstante suas vidas, “Os mestres da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam” (Mt 23,2-3). A Lei não deixa de ser válida porque quem a interpreta não as cumpre, por isso, não usemos da desculpa de que estes não a cumprem, para que também nós não a cumpramos. Não façamos como eles, mas observemos o que eles dizem, é o que orienta o Cristo Jesus.

            Na primeira Leitura, escutamos a proclamação da 1 Jo 4,7-16, que traz o tema do amor, o amor que primeiramente recebemos de Deus e o amor que devemos ter uns para com os outros. O Povo de Israel fez a experiência do amor de Deus, entre outras coisas, na Lei dada através de Moisés, para guardar a sua vida. Nós, na tradição judaico-cristã-católica, sempre entendemos o cumprimento da Lei como manifestação de nosso amor a Deus.

            Desejo fazer uma incursão sobre esse tema do amor, na sua relação com a lei, a partir de uma contribuição filosófica de André Comte Sponville, filósofo francês. De acordo com Sponville, a lei, a moral, é o simulacro do amor. Ela existe para garantir o amor na falta deste. Kant já dizia que “O que fazemos por coerção, não fazemos por amor”. Não é que a lei é contrária ao amor, mas é que a ela é necessária onde falta o amor. Qual seria a razão do 5º mandamento (“Não matarás”), por exemplo, senão a proteção do próximo quando nos faltar amor para com ele?

Só necessitamos de moral em falta de amor, repitamos, e é por isso que temos tanta necessidade de moral! É o amor que comanda, mas o amor faz falta: o amor comanda em sua ausência e por essa própria ausência. É o que o dever exprime ou revela, o dever que só nos constrange a fazer aquilo que o amor, se estivesse presente, bastaria, sem coerção, para suscitar. (SPONVILLE, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, p. 174. Trad. de Eduardo Brandão. Martins Fontes: São Paulo, 1999)

            Santo Agostinho, nosso Santo Padroeiro, já disse há séculos e de maneira admirável: “Ama e faze o que queres”. No contexto bíblico, Paulo diz que a fé em Cristo nos justifica e que, por isso, a Lei já cumpriu o seu papel de pedagoga. Agora é preciso responder ao amor que Cristo nos ofereceu por primeiro e não seguir uma lei. A Lei já nos conduziu ao amor!

            Precisamos trazer esta compreensão o nosso contexto de vida vocacional e podemos fazê-lo de duas maneiras. Primeiro, amando e não agindo apenas pela lei! O discípulo amado aconselha a sua comunidade: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. Quem não ama, não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor”. (1 Jo 4,7-8).

            Nesse sentido, quem espera pela lei precisa aprofundar o seu conhecimento de Deus, pois Deus é amor e o amor se antecipa, com generosidade, dispensando a força da lei. Por isso, é preciso colocar o coração em cada coisa que fazemos, inclusive as que pareçam insignificantes e extrínsecas às elevadas funções sacerdotais, porque no fundo elas constituem o ser presbiteral. Contamos com o amor e, por isso, as vezes, é muito triste para todos que seja necessária a lei! É preferível permanecer no amor. Como diz o Apóstolo João, “Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele” (1 Jo 4, 16).

            Em segundo, na falta do amor, cumpramos a lei que nos conduz pedagogicamente ao amor. O Apóstolo Paulo, na carta aos Romanos afirma: “Não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero” (Rm 7,18). Por conta da consciência dessa contradição humana, mantenhamo-nos humildes para acolher a lei, na medida em que tende para o amor ao que deve ser amado! Assim como no contexto de Jesus, muitas coisas se tornam empecilho para que a lei seja acolhida. Se não a incoerência da vida – embora esta também esteja presente – ao menos a dinâmica do processo formativo, a cultura clericalista e a imaturidade de formandos – e algumas vezes também de formadores – se constituem empecilhos para adesão à lei. É preciso ter lucidez em cada postura que assumimos!

Pe. Adriano Portela

Formador do Seminário São João Maria Vianney

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