Estudos Literários

Caim e a desconstrução paródica da Bíblia: Redenção do homem e condenação de Deus

RESUMO: Caim, último romance de Saramago, conclui a crítica ao Cristianismo empreendida pelo autor. O romance se funda na conhecida história de Caim e Abel, em que Abel é morto por seu irmão Caim, mas perpassa diversos episódios obscuros do Primeiro Testamento. A narrativa se desenvolve como uma paródia de textos bíblicos diversos, numa perspectiva desconstrutiva da imagem judaico-cristã de Deus. Neste trabalho, buscaremos demonstrar como Saramago, amparado pela crítica à teologia iniciada no séc. XIX e inspirado pelo ideal humanista, opera a redenção do homem e a condenação de Deus. Servir-nos-á de suporte a teoria bakthiniana de dialogismo, polifonia e paródia; bem como o conceito de paródia de Hutcheon.

PALVRAS-CHAVE: Caim; Saramago; paródia; cristianismo.

Um ano antes de sua morte, José Saramago publicou Caim, encerrando sua carreira literária com um texto que expressa com densidade algo que esteve diluído ao longo de sua bibliografia: a crítica à religião e desconstrução da imagem de Deus. Há 20 anos, em Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago havia humanizado Jesus Cristo, retratando-o como vítima de Deus em seu projeto despótico de salvação da humanidade que custaria a própria vida de Cristo.

Em Caim, Saramago retrocede ao Primeiro Testamento[1] para completar o seu projeto desconstrutivista da imagem de Deus, através da redenção de Caim, que ele já havia iniciado no próprio Evangelho Segundo Jesus Cristo. Neste livro, a um só golpe, ele redime Caim e culpabiliza Deus por uma série de episódios controversos que encontramos em passagens diversas do Primeiro Testamento, a começar pela desobediência de Adão e Eva, que teria sido culpa da imprevidência do senhor, “que se realmente queria que não comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca com arame farpado” (SARAMAGO, 2009, p. 13).

caim-e-abel
Caim mata Abel

A personagem Caim funciona como uma espécie de testemunha das atrocidades cometidas por Deus, tais como a morte de seu irmão Abel, da qual ele mesmo também é responsável; o quase sacrifício de Isaac por causa do capricho do senhor que desejava tirar a prova da fé de Abraão; a morte dos inocentes na destruição de Sodoma e Gomorra e “duas ou três outras cidades da planície, onde os costumes sexuais se relaxaram por igual” (SARAMAGO, 2009, p. 94); o assassinato de três mil homens que despertaram os ciúmes de Deus por terem adorado o bezerro de ouro; os sofrimentos de Jó sofridos por causa da vaidade do senhor, diante do diabo. Em todos esses episódios e em mais alguns Caim esteve presente graças “ao jogo dos presentes alternativos” que lhe possibilitava estar em lugares diferente e tempos diferentes do povo da Bíblia.

Notadamente, o romance é construído como uma paródia da Bíblia, servindo-se da ironia para estabelecer as rupturas com os textos canônicos, necessárias para a desconstrução da imagem de Deus. Por essa razão, utilizaremos da teoria bakhtiniana de dialogismo, polifonia e paródia, e do conceito de paródia em Hutcheon para demonstrar como Saramago desconstrói o texto bíblico construindo uma nova imagem de Deus distinta da concepção cristã.

De acordo com o dialogismo proposto por Bakhtin, a linguagem é uma realidade complexa por razão do embate de múltiplas vozes atuantes no interior dos discursos (polifonia), que ocasionam choques entre os valores contraditórios instaurados por elas. Nesse sentido, a paródia seria um tipo de discurso no qual, retomando a voz de outro, incluímos a nossa voz, servindo-nos, por vezes, de traços linguísticos como a ironia ou o sarcasmo, mas não só. Segundo Baktin: “O uso da palavra parodística é análogo ao uso irônico ou a qualquer uso ambivalente das palavras de um outro emissor, uma vez que também nesses casos as palavras da outra pessoa são empregadas de modo a transmitir projetos antagônicos” (BAKHTIN, 1983, p. 473)

Hutcheon pressupõe a polifonia de que fala Bakhtin e centra-se nas igualdades e diferenças existentes nessas múltiplas vozes do discurso. Para ele

A paródia é, pois, repetição, mas repetição que inclui diferença; é imitação com distância crítica, cuja ironia pode beneficiar e prejudicar ao mesmo tempo. Versões irônicas de “transcontextualização” e inversão são os seus principais operadores formais, e o âmbito de ethos pragmático vai do ridículo desdenhoso à homenagem reverencial. (Hutcheon, 1989; 54)

A noção de distância crítica também é importante na maneira como Hutcheon pensou o conceito de paródia, porque só é possível a diferença que constitui a paródia por causa dessa distância crítica, sem a qual haveria apenas a igualdade. Sobre a ironia com que a paródia estabelece a diferença, Hutcheon afirma que “esta ironia tanto pode ser apenas bem humorada, como pode ser depreciativa; tanto pode ser criticamente construtiva como pode ser destrutiva”. (HUTCHEON, 1989; 13)

            Em Caim, Saramago estabelece uma paródia desconstrutiva, com ironia desdenhosa. Essa característica é própria da sua obra, sobretudo no que tange o tema religioso. De acordo com Salma Ferraz, quando Saramago trata de temas religiosos “a carnavalização, seguindo os estudos de Bakhtin, das figuras de Deus, de Cristo, do Diabo […] de episódios do Novo e do Velho Testamento, bem como de sentenças importantes da Bíblia, da Igreja Católica e dos milagres, estão sempre presentes” (FERRAZ, 1999, p. 34).

            Nesse sentido, Saramago seria herdeiro de um caminho empreendido por Eça de Queirós, que também tratou de temas religiosos numa perspectiva de desconstrução paródica da Bíblia. Em Bíblia, História e Ficção: a intertextualidade no terceiro capítulo de “A relíquia”, NERY aponta que Eça de Queirós, com o “Evangelho de São Teodorico”, buscou humanizar o Cristo, através da desconstrução paródica dos evangelhos canônicos. De acordo com NERY, para desconstruir a imagem de Jesus estabelecida pelos evangelhos canônicos, Eça se pautou nos estudos positivistas dos historiadores franceses Ernest Renan (1823-1892), que publicou Vida de Jesus – volume que inaugural da História da Origem do Cristianismo – e David Strauss (1808-1874), que publicou Nova Vida de Jesus; e nos estudos dos filósofos Ludwing Feuerbach (1804-1872) e Jean-Pierre Proudhon (1809-1865).

Por essa razão, NERY conclui que

podemos pressupor com segurança que Eça de Queirós quando trabalha com temas religiosos propõe uma nova forma de compreender o transcendente, uma transcendência voltada mais para a imanência do que o contrário, podendo ser considerado, assim, um precursor da maneira com que temas religiosos se apresentam contemporaneamente na literatura portuguesa, como nas obras de José Saramago, por exemplo. (NERY, Antonio Augusto. Bíblia, História e Ficção: a intertextualidade no terceiro capítulo de A relíquia).

As concepções positivistas que influenciaram a produção literária no séc. XIX fizeram com que houvesse a dessacralização do texto sagrado e a representação de um Deus humanizado, desprovido de qualquer elemento miraculoso ou sobrenatural, como ocorreu em A Relíquia. MAGALHÃES (2009, p. 30-32) vê nas críticas à religião empreendidas por Marx Feuerbach, Freud e Marx, um fator crucial para a desconfiança da sociedade perante a religião e, consequentemente, para a autonomia da Literatura diante dos paradigmas religiosos. Por isso, vemos no séc. XX um distanciamento maior da Literatura em relação à Igreja, perceptível no uso da ironia e da crítica mordaz, no modo de tratar os temas teológicos e as narrativas bíblicas. Contudo, “Independente do tipo de crítica que foi elaborada e que encontramos nos textos literários, algo que é comum e se torna evidente na leitura é uma livre apropriação das narrativas bíblicas na construção de muitas obras-primas da literatura”. (MAGALHÃES, 2009, p. 28)

            No caso dos textos bíblicos, a “livre apropriação”, que muitas vezes se dá através do paródico irônico, se torna possível graças ao que AUERBACH (1971) identificou como sendo a maneira do Velho Testamento – e especificamente a tradição eloísta – representar a realidade. De acordo com Auerbach, diferente dos textos homéricos, os textos bíblicos possuem um segundo plano, lacunas, aberturas para o desenvolvimento das interpretações. Analisando o episódio da Odisséia em que Ulisses é reconhecido pela sua governanta Euricléia por causa da cicatriz no pé, Auerbach observa que Homero “suspende” para descrever minuciosamente a origem da cicatriz. Por isso, ele conclui que os textos homéricos narram os fatos com exatidão, vagar e pormenores, “com perfeita conformação de todas as coisas, não deixando nada no escuro e sem omitir nenhuma das articulações que as ligam entre si” (AUERBACH, 1971, p. 2).

            Por outro lado, analisando o episódio do Gênesis em que Abraão pretende sacrificar seu filho Isaac, Auerbach observa que pouco é dito dos detalhes do episódio: onde está Abraão, quando Deus lhe pede o sacrifício de Isaac? Como foi a viagem até o Monte Moriá? Qual o nome dos servos que lhe acompanham? Quantos anos tinha Isaac? Por isso, ele conclui que há um certo grau de silenciamento no texto, que gera um segundo plano. “Assim, nada dos interlocutores é manifesto, exceto as palavras, breves, abruptas, que se chocam duramente, sem preparação alguma; quando muito, a representação de um gesto de entrega total; tudo o mais fica no escuro” (AUERBACH, 1971, p. 6)

Desse modo, os textos bíblicos possuem lacunas a serem completadas, no caso da Teologia, por uma interpretação espiritual/doutrinal; no caso da Literatura, pela criação literária que pode tanto corroborar a interpretação teológica, quanto desfazê-la, recriá-la, reinventá-la, como faz Saramago. Curiosamente, TOLEDO (1991) denomina como “teologia do ateu” a criação literária de Saramago, referindo-se ao conteúdo de O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

            A primeira figura a ser objeto da criação literária é obviamente Deus, que é o próprio objeto de estudo da Teologia e fundamento das religiões. “Deus, assim, não é somente criador, mas criatura, não somente origem, mas também produto final, não somente autor, mas personagem” (MAGALHÃES, 1997, p. 17). No caso de Saramago, em sua assim chamada “teologia do ateu”, o texto literário visa sobretudo a desconstrução da imagem clássica de Deus. Nas palavras de FERRAZ, “Sua obra é uma catedral, ao longo da qual ele vai metodicamente desconstruindo a concepção judaico-cristã de um Deus justo e bondoso” (FERRAZ apud Fachin 2009). Vindo de quem se dizia ateu, esse projeto literário soa estranho. Contudo, em entrevista à revista Veja, o próprio Saramago esclarece:

Embora seja uma pessoa que não crê, não tem fé, ou, para usar a palavra certa, seja ateu, não posso ignorar que vivo num mundo que não é edificado na ausência da ideia de Deus, mas, ao contrário, foi todo ele feito na suposição de uma entidade sobrenatural, transcendente, pai da criação. (TOLEDO, 1991, p. 92)

Por essa razão, FERRAZ observa que,

Ao longo de sua obra, ele vai apontando perfis de Deus que o incomodam. Em Terra do Pecado, seu primeiro romance, critica um Deus que não gosta de prazer e de sexo; em Memorial do Convento, critica aqueles que edificam grandes catedrais para Deus; na peça de teatro In Nomine Dei, critica as guerras que se fazem em nome de Deus. Finalmente em O Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago questiona o Deus de Amor que deixa que seu único filho seja crucificado e que não concede o perdão a Lúcifer.” (FERRAZ apud Fachin, 2009)

            Em Caim, Saramago acrescenta mais um detalhe em sua catedral, disparando uma rajada de tiros contra a imagem judaico-cristã de Deus, que é desconstruída paulatinamente a cada nova passagem do Primeiro Testamento parodiada no romance. De acordo com MILES (1997, p. 16), “A apreciação religiosa da Bíblia coloca como foco central e explícito a bondade de Deus. Judeus e cristãos adoram Deus como origem de toda virtude, fonte de justiça, sabedoria, misericórdia, paciência, força e amor”.

Contudo em Caim, Deus figura como um ser cruel, ciumento, vaidoso e injusto. O “senhor” é aquele que, tomado de rancor por ter sido desobedecido, expulsa Adão e Eva do Jardim do Éden; é aquele que induz Caim a matar Abel, por causa de sua injustiça; é aquele em nome de quem muitas pessoas são mortas na invasão de Jericó. “O senhor marca, identifica, controla e pune aqueles que se atrevem a desobedecer. O senhor engana e abandona aqueles que diz proteger e amar” (CHRISTI, Isabelle Meira. A marca da morte e o abandono). Essas são características próprias dos seres humanos, razão pela qual podemos dizer que Saramago faz uma representação antropomórfica de Deus, assim como era a representação dos deuses helênicos.

            Analisemos leituras distintas da história de Caim e Abel, que é o fundamento do romance de Saramago, para percebermos em que se dá essa desconstrução paródica da imagem de Deus realizada pelo prêmio Nobel português. Veremos o texto bíblico do Gênesis, uma leitura da Patrística, mais especificamente de Santo Agostinho, um texto de Borges e finalmente a leitura que o próprio Saramago faz da história de Caim e Abel.

            No livro do Gênesis, cuja tradição de fundo é a judaica, lemos o texto-fonte:

Aconteceu, tempos depois, que Caim apresentou ao SENHOR frutos do solo como oferta. Abel, por sua vez, ofereceu os primeiros cordeirinhos e a gordura das ovelhas. E o SENHOR olhou para Abel e sua oferta, mas não deu atenção a Caim com sua oferta. Caim ficou irritado e com o rosto abatido. Então o SENHOR perguntou a Caim: “Por que andas irritado e com o rosto abatido? Não é verdade que, se fizeres o bem, andarás de cabeça erguida? E se fizeres o mal, não estará o pecado espreitando-te à porta? A ti vai seu desejo, mas tu deves dominá-lo”. Caim disse a seu irmão Abel: “Vamos ao campo!” Mas, quando estavam no campo, Caim atirou-se sobre seu irmão Abel e o matou. O SENHOR perguntou a Caim: “Onde está teu irmão Abel?” Ele respondeu: “Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?” — “Que fizeste?”, perguntou ele. “Do solo está clamando por mim a voz do sangue do teu irmão! Por isso, agora serás amaldiçoado pelo próprio solo que engoliu o sangue de teu irmão que tu derramaste. (Bíblia da CNBB, Gn 4,3-11)

Santo Agostinho (354-430), um dos Padres da Igreja[2], lê o fratricídio de Caim na mesma direção do hagiógrafo[3] e dessa maneira estabelece a leitura cristã:

Conhecido que foi por Caim que Deus tinha olhado com agrado para o sacrifício de seu irmão e não para o seu, devia arrepender-se e imitar seu bom irmão em vez de, orgulhoso, o invejar. Mas entristeceu-se e ficou de rosto abatido. Este é o pecado que sobremaneira Deus repudia – a tristeza pela bondade, de outrem, principalmente de um irmão. É isto o que lhe reprova ao perguntar-lhe: Porque é que te entristeceste? Porque ficaste de rosto abatido? (Gn 4,6-7) Deus via a inveja para com seu irmão e reprovava-lha.

Mas ao explicar porque tinha rejeitado a sua oferta, Deus mostrou-lhe que devia desgostar-se precisamente de si em vez de se entristecer injustamente contra seu irmão […]

Contudo não o deixa sem uma recomendação santa, justa e boa, dizendo: Sossega: ele voltará para ti e tu o dominarás (Gn 4,6-7). […] Pode, realmente, ser assim entendido: esta conversão (volta) para o homem deve ser a conversão (volta) do pecado, de maneira que o homem saiba que a mais ninguém senão a si próprio deve atribuir o pecado. Este é que é o remédio salutar da penitência, este que é o pedido oportuno do perdão […] porque cada um domina o seu pecado quando não se põe à sua frente, defendendo-o, mas a si o submete fazendo penitência. De outra forma será escravo do seu domínio se lhe presta proteção quando o comete.

[…]

Devemos, pois, sanar estes males como sendo nossos e não os condenar como se alheios fossem. Mas Caim recebeu aquele preceito de Deus como prevaricador e, subjulgado pela inveja, armou uma cilada e matou o irmão. (AGOSTINHO, 2000, p. 1343-1344 e 1346).

Por parte da perspectiva da fé, que é a perspectiva fundante do mito, tanto o hagiógrafo quanto Agostinho sinaliza a culpa do fratricídio em Caim e não em Deus que, inclusive castiga Caim pelo crime cometido lançando-lhe uma maldição. Por parte da Literatura, que relê o mito religioso, temos uma continuidade em Borges, no texto literário intitulado Lenda, e, ao que nos parece, uma ruptura com a perspectiva teológica em Saramago, como veremos mais adiante.

            No texto de BORGES, lemos que

Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, acenderam um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu assomava uma estrela que ainda não tinha recebido seu nome. À luz das chamas, Caim percebeu na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava prestes a levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado seu crime. – Tu me mataste ou eu te matei? – Abel respondeu. – Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes. – Agora sei que me perdoaste de verdade – disse Caim –, porque esquecer é perdoar. Procurarei também esquecer.– É assim mesmo – Abel falou devagar. – Enquanto dura o remorso, dura a culpa. (BORGES, 1999, p. 44)

            Borges não apenas deixa claro que a culpa é de Caim, como também coloca neste a consciência do pecado – coisa que não acontece no texto-fonte – a ponto de pedir ao seu irmão que lhe perdoe o crime. Desse modo, Borges permanece na perspectiva da teologia e realiza, em seu texto literário, aquilo que indica Agostinho: o reconhecimento do pecado como caminho de conversão da vida. Todavia, Saramago inverte essa lógica, redimindo Caim (o ser humano) e deslocando a culpa do pecado para Deus, como vemos no trecho a seguir:

Abel tinha o seu gado, caim o seu agro, e, como mandavam a tradição e a obrigação religiosa, ofereceram ao senhor as primícias do seu trabalho, queimando Abel a delicada carne de um cordeiro e caim os produtos da terra, uma quantas espigas e sementes. Sucedeu então algo até hoje inexplicado. O fumo da carne oferecida por Abel subiu a direito até desaparecer no espaço infinito, sinal de que o senhor aceitava o sacrifício e nele se comprazia, mas o fumo dos vegetais de caim, cultivados com um amor pelo menos igual, não foi longe, dispersou-se logo ali, a pouca altura do solo, o que significava que o senhor o rejeitava sem qualquer contemplação. […] Foi então que o verdadeiro carácter de Abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se perante o atônito e desconcertado caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus. […] Um dia caim pediu ao irmão que o acompanhasse a um vale próximo onde era voz corrente que se acoitava uma raposa e ali, com as suas próprias mãos, o matou a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado, portanto com aleivosa premeditação. Foi nesse exato momento, isto é, atrasada em relação aos acontecimentos, que a voz do senhor soou, e não só soou ela como apareceu ele. […] Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas do meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te à prova […] Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse Abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso, que aceitasses a minha oferenda com humildade, só porque não deverias atrever-te a recusá-la, os deuses, e tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado […]. (SARAMAGO, 2009, p. p. 32-34)

            O Caim de Saramago pensa que Deus é o responsável primeiro do crime, uma vez que foi Ele quem não aceitou a oferta de Caim, foi Ele que não evitou a morte de Abel. Dessa maneira, Saramago desconstrói o texto bíblico com um deslocamento crucial, alterando assim a imagem de Deus. A ideologia que fomenta esta leitura saramaguiana é o humanismo que já estava presente em seus outros romances. Este é o caso do Evangelho Segundo Jesus Cristo em que ele desenha um Cristo despido de glória e revestido da mais profunda humanidade. “Seu Jesus o que é, é um humanista radical, que com vigor toma o partido dos homens” (TOLEDO, 1991, p. 91). Em Caim ele retoma essa perspectiva humanista, bombardeando mais uma vez a tradição judaico-cristã segundo a qual o ser humano é o culpado exclusivo de seus pecados, que levou os homens muitas vezes a oprimir outros homens in nomine Dei. Para Saramago, no final das contas, o homem é vítima de Deus.

            Desse modo, vemos como Saramago utiliza da ironia paródica para operar a desconstrução da imagem judaico-cristã de Deus, dentro do processo de autonomia da Literatura perante as doutrinas religiosas que se instaurou a partir do séc. XIX, com a crítica positivista, e que se radicalizou no séc. XX.

REFERÊNCIAS

AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. Vol. II. 2ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

AUERBACH, Erich. A Cicatriz de Ulisses. In: Mimesis: A representação da realidade

na literatura ocidental. Trad. de George Sperber. São Paulo: Perspectiva, 1971.

BORGES, Jorge Luis. Elogio da Sombra, p. 44. Jorge Luis Borges – Obras Completas Vol. II. São Paulo: Editora Globo, 1999

CHRISTI, Isabelle Meira. A marca da morte e o abandono. Disponível em http://www.omarrare.uerj.br/numero13/isabelle.html. Acesso em: 15 de maio de 2012.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Bíblia da CNBB. Disponível em http://www.bibliacatolica.com.br/02/1/4.php#ixzz1yQYst1vY. Acesso: 20 de junho de 2012.

FACHIN, Patricia. Quais são as faces de Deus? In: IHU On-line. Revista do Instituto Humanitas Unisinos. São Leopoldo. 06 jul/2009. Ed. 299, p. 8. Disponível em: http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/edicoes/1246967292.6778pdf.pdf. Acesso em: 09 de julho de 2010.

FERRETO, Alcina Aparecida Molina. O Discurso Paródico no Cristo de José Saramago. São Paulo, 2007. Dissertação de mestrado apresentada ao programa de pós-graduação Literatura e Crítica Literária da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

GASPARI, Silvana de. Tecendo Comparações entre Teologia e Literatura. In: Revista Brasileira de História das Religiões. Maringá (PR) v. III, n. 9, jan/2011. ISSN 1983-2859. Disponvél em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pub.html. Acesso em 15 de maio de 2012.

MAGALHÃES, Antonio. Método de pesquisa em ciências da religião: revisando paradigmas. Estudos de Religião, São Bernardo do Campo, v. 11, n. 13, p. 9-24, 1997. Caderno Teologia e Literatura.

MAGALHÃES, Antonio. Deus no espelho das palavras: Teologia em literatura em diálogo. 2ª edição. São Paulo: Paulinas, 2009.

MILES, Jack. Deus: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

NERY, Antonio Augusto. Bíblia, História e Ficção: a intertextualidade no terceiro capítulo de A relíquia (Eça de Queirós). VIII Seminário Nacional de Literatura, História e Memória. II Simpósio de Pesquisas em Letras da Unioeste.

KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras: retratos teológicos literários. São Paulo: Loyola, 1999.

TOLEDO, Roberto Pompeu de. Cristo e o Deus cruel. Revista Veja, São Paulo, ed. 1207, p. 90-96, nov. 1991.

SARAMAGO, José. Caim. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

SOUZA, Ronaldo Ventura. O Jesus de Saramago e a Literatura que revisita Cristo. São Paulo, 2007. 156 f. (Dissertação (mestrado). Universidade de São Paulo, Programa de Pós- Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas).

[1] Primeiro Testamento é a nomenclatura usada para o que era chamado de Antigo ou Velho Testamento, que soava depreciativo, posto que antigo ou velho em nossa cultura muitas vezes assume um sentido pejorativo. Outra nomenclatura utilizada é Escrituras Judaicas ou Bíblia Hebraica, para ressaltar a tradição da qual nasceu o Primeiro Testamento.

[2] Os Padres da Igreja, primeiros teólogos do cristianismo, são autores cuja produção circunscreve-se entre os séc. II e VII da era comum. Sua produção é importante porque estabeleceu o paradigma doutrinário da tradição cristã.

[3] Hagiógrafo é o escritor do texto bíblico. É bom recordar que este conceito de escritor nos textos bíblicos não é equivalente ao conceito de autor, porque em última instância o autor é Deus.

————————————————————————–* Artigo escrito por Adriano Portela, para fins de avaliação na Disciplina Teoria e Representação Literária, ministrada pela Profª. Drª. Lígia Guimarães Telles, no Mestrado em Letras do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia – UFBA.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s