Homilética · Teológica

Homilia do Card. Joseph Ratzinger (Bento XVI) sobre a vida sacerdotal

Quando fui ordenado padre, iniciei a tradução do primeiro capítulo do livro Servitori della Vostra Gioia, de autoria do Card. Joseph Ratzinger,  então Bento XVI, com o qual havia recentemente sido presenteado por D. Josafá Menezes da Silva. O capítulo intitulado Ci sono sempre semi che maturano per il raccolto, é justamente a homilia proferida pelo Cardeal em 1962,na primeira missa de um jovem sacerdote.

Esta homilia é verdadeiramente um pérola para a espiritualidade sacerdotal, como que uma bússola para o modo de ser sacerdote num mundo indiferente à fé institucionalizada e aos seus representantes, num contexto de cortejo ao sucesso e à ostentação, e no qual os sacerdotes se sentem, por vezes, abandonados à aparente inutilidade do seu labor pastoral.

Pois bem, somente agora retomei a tradução que, por fim, foi concluída. Segue a homilia! A dedico a todos os ministros ordenados e a todos os seminaristas, sejam eles (as) de quais comunidades cristãs forem.

Somos sempre sementes que maturam para a colheita

 

“O semeador saiu…” (Lc 8,4-15)

Os flutuantes se aglomeravam ainda em torno a ele, quando Jesus proclamou a parábola do semeador e da semente; no entanto, as primeiras sombras da desilusão e do desengano deviam já pairado no grupo dos seus. De fato, a parábola fala agora da incredulidade dos homens que escutam, mas não escutam; que veem, mas não veem. Neste período, um fato já deve ter se tornado claro: os homens que acorriam sempre atrás do Senhor, na realidade estavam insatisfeitos com ele; esses, não o queriam de fato como o Messias que prega e cura, que é bom com os pobres e fracos e é absolutamente um deles; esses, ao invés, se agradam com qualquer coisa totalmente diferente: o herói que sopra a trombeta e expulsa os inimigos; o rei prodigioso que deve oferecer a Israel o país das maravilhas, uma espécie de paraíso de exasperada fartura. Deveria ser claro agora que a maior parte daqueles que lhe andavam atrás eram apenas companheiros de viagem sem raízes e sem profundidade, que o haviam abandonado ao sobrevir do primeiro perigo.

Tentação e desencorajamento

É ao interno desta situação da primeira desilusão, do iniciante desencorajamento dos discípulos, que a parábola é proferida. São, de fato, os mesmos discípulos admitidos pelo Senhor na sua mais estreita intimidade, que podiam perguntar-se: como chegar ao fim? O que será daquela atividade que se exauriu em palavras e prodígios isolados? Como poderá surgir a salvação de Israel se ele se limita a pregar, a dizer palavras e a curar cá e lá esporadicamente qualquer indivíduo sem prestígio e significado; se o grupinho dos seus adeptos se reduz progressivamente; se encontra o insucesso também sob a forma de uma pregação sempre mais claramente refutada e de uma crescente hostilidade nos ambientes influentes?

Nestas condições de tentação, ao insurgir do desencorajamento, Jesus reclama a atenção sobre o semeador que com o seu trabalho procura o pão necessário à vida dos homens. Também a sua obra, a sua decisiva obra, da qual depende a vida dos homens, aparece como uma audácia privada de perspectiva. São verdadeiramente muitos os perigos que ameaçam o crescimento das sementes: o terreno pedregoso, não adequado, a erva, o mal tempo – tudo parece condenar ao insucesso o seu trabalho. A este propósito devemos pensar na situação freqüente quase desesperada do agricultor de Israel, que arranca a colheita de uma terra que em cada momento ameaça se tornar deserta. Contudo, por quanto são feitos esforços vãos, são sempre sementes que maturam para a colheita e crescendo através de todos os perigos chegam ao fruto, recompensando abundantemente de todas as fadigas.

Com esta alusão, Jesus pretende dizer: todas as coisas realmente úteis neste mundo começam na modéstia e no escondimento. E Deus mesmo está adequado a esta lei no empreender a sua obra no mundo. Deus mesmo entra em incógnito no mundo e no tempo com a veste da pobreza e da impotência. E as realidades de Deus – a verdade, a justiça, o amor – são pequenas neste mundo, realidades negligenciadas. Todavia disso vivem os homens, vive o mundo que não pode subsistir se isso não existisse. Ao invés, sobrevivem, enquanto a potência das palavras e dos gestos caiu a muito tempo no esquecimento. Com esta similitude, por isto, Jesus quer dizer aos discípulos: isto que é pequeno inicia aqui nas minhas palavras e crescerá sempre mais, enquanto isto que hoje se coloca em grande amostra é já do tempo submerso.

De fato, se agora demos uma olhada no passado, devemos dizer: a história deu razão ao Senhor. Os grandes reinos daquele tempo passado, os seus palácios e edifícios foram sepultados pela poeira do deserto. Os homens célebres e importantes daquele tempo foram esquecidos ou tem ainda vida cá ou lá nos livros de história como grandezas passadas. Mas isto que veio daquele pequeno ângulo da Galiléia, isto que teve início em Jesus como um pequeno grupo de homens, pescadores sem nenhuma importância, permanece, é uma presença ainda hoje: a sua palavra não declinou, é anunciada em todos os lugares da terra até o fim dos nossos dias. A palavra chegou à maturidade, a despeito de cada pequeneza e em oposição a todas as potências que, nas previsões humanas, deviam sufocá-la.

Semear a Palavra hoje

Neste tempo no qual vivemos, o destino do semeador conhece um novo início. Um jovem se colocou a disposição do Senhor como semeador da palavra. Neste modo, a palavra do Senhor, a palavra de encorajamento, de esperança e de graça vem pronunciada também aos nossos dias. Todos nós sabemos que ainda hoje, sim, propriamente hoje, se renova a pregação da fé, destinada a nos alcançar e nos vencer. Então nos perguntamos: não é tudo inútil? De que modo a humilde potência da fé poderá permanecer em pé entre as gigantescas potências deste mundo? Não deverá simplesmente permanecer esmagada entre as potências mundanas do ateísmo? Não deverá simplesmente abrandar as velas perante a técnica, às ciências naturais e todas as suas possibilidades e conhecimento? Não deverá simplesmente render-se defronte ao egoísmo e à concupiscência, que se tornaram preponderante e não admitem mais os limites? Podemos então perguntar-nos: há ainda sentido hoje fazer-se padre, semeador da palavra? Existem profissões mais prometedoras, mais profícuas, de maior sucesso, para um jovem, nas quais possa empregar melhor os seus talentos?

Mas não é tudo um fazer desesperadamente superado? Não acabou agora o tempo no qual os fiéis acorriam à igreja? Não se dão conta enfim, sentíamos dizer à gente, que tudo se vai lentamente, mas seguramente, enterrando? Como é que permanecem a fazer a guarda aos mortos? Na realidade, Deus continua ainda agora a atravessar incógnito a história e a esconder a sua potência sob os panos da impotência. E além disso, ainda agora os verdadeiros valores divinos, a verdade, o amor, a fé, a justiça permanecem para o mundo coisas esquecidas e desprovidas de potência. No entanto, a palavra diz: tenha confiança! A messe de Deus cresce. Todavia são os seguidores que o abandonam.

Não apenas se a oportunidade se apresenta a nós, ainda que se tenha agido de modo inútil e vão, em qualquer lugar a palavra chega à maturação! Também hoje. Também hoje, quando ainda não é inútil que homens estejam prontos ao risco de anunciar a palavra e viver para a palavra e de opor-se à corrente, à corrente do egoísmo, da concupiscência, do desregramento para erigir contra uma barreira. Em qualquer lugar em segredo a sua semente matura. Nada é inútil. O mundo vive ignorando que ao seu interno está sempre quem ainda crê, espera e ama. Certo, frequentemente poderá parecer suficiente que o padre, semeador da palavra, faça a guarda aos mortos; que seja um que afunda – como escutamos da carta de Paulo, o qual passou de um insucesso a outro. Mas como este Paulo, em meio a cada tipo de fragilidade e tentação, pode experimentar com um estupor sempre novo e feliz a sublime bondade de Deus, que através da grande angústia de uma série de desastres o transformou em um homem pleno de intrépida esperança e de alegria total; assim também o padre, passando interiormente cada espécie de desilusão, se perceberá com uma alegria sempre mais profunda que a eles homens, numa secreta profundidade, vivem do seu humilde serviço; [perceberá] que o mundo vive disso e, não obstante uma semeadura por vezes desonrosa, a colheita de Deus cresce.

Reconhecer a proximidade de Deus

O Evangelho, por isto, com a sua imagem do semeador é também uma imagem do padre, a qual declara a necessidade e a nobreza do seu serviço. Mas é também a justa indicação do caminho que o nosso amigo hoje empreende. E é ainda uma palavra de encorajamento a todos nós, que vivemos este tempo de tentação pela fé. Ensina-nos a reconhecer dentro desta tentação a proximidade de Deus e a convencer-nos com alegria que, através do nosso humilde crer e rezar, a colheita de Deus cresce no mundo e o escondimento é mais forte que o clamor e a vistosidade. Obviamente é também uma palavra de exortação, que se deve fazer refletir.

De fato, não podemos nos livrar deste Evangelho assim facilmente, estabelecendo simples classificações quanto astutos e íntegros: não somos aqueles que estão da parte de Deus e “os outros” aqueles que não deixam avançar a sua palavra. Quem são, portanto, estes “outros”? Nós devemos com toda honestidade interrogar-nos se também nós não somos nenhuns santos. Devemos considerar se para esse caso também nós não somos daqueles que Jesus qualifica como privados de profundidade, semelhantes a pedras, desprovidos de raízes. Ou pertencemos – continuamos a interrogar-nos – provavelmente ao grupo daqueles que Jesus trata como flâmulas, que não conseguem estar retas, mas se deixam passivamente transportar pela corrente do momento para estar em poder do genérico, da massa; estas se perguntam sempre e somente: que coisa se faz, que coisa se diz e se pensa, e não tem mais reconhecido a grandeza da verdade, por causa da qual vale a pena colocar-se contra o genérico?

Será que não pertencemos também nós muito freqüente ao número daqueles nos quais a palavra vem sufocada pelos espinhos das preocupações? Ou fazemos parte do círculo daqueles dos quais Jesus disse que a palavra não penetra eficazmente nesses porque o maligno a leva embora; ou ainda daqueles que não tem mais ligação alguma com a extensão da onda de Deus, porque o barulho do mundo se é muito amplificado para que esses possam ainda perceber o eterno, que fala no silêncio; que imersos no barulho do tempo, não tem mais ouvido para a eternidade de Deus? E depois não devemos pensar seriamente no risco de que podemos estar no fim entre aqueles que, segundo a palavra de Jesus, tenha vivido “sem frutos”, inutilmente? Mas o fruto, disse o Senhor, cresce na paciência, na estabilidade de quem permanece em pé, não obstante, o soprar dos ventos do tempo.

Ser semente de Deus

Até aqui temos evitado afrontar uma frase do Evangelho, uma palavra muito forte, que está no centro entre a parábola e a sua interpretação. Então disse Jesus aos seus discípulos: “A vocês é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros só em parábolas, porque vendo não vêem e ouvindo não entendem”. Uma palavra muito obscura. Consequentemente resultará, de per si, que o semeador da palavra será enviado na realidade só para nada obter e andar em vão. No fundo, este é o destino dos grandes profetas do Primeiro Testamento, estas grandes testemunhas de Deus, cuja oposição tinha em prática a sorte do insucesso, da capitulação, da frustração, frente à potência dos poderosos deste mundo – vede um Jeremias, um Isaías, cujo livro trata esta citação (6,9). Se você quer compreender, necessita olhar, além do Evangelho de Lucas, ao Evangelho de João, onde a frase soa: “Se o grão caído na terra não morre, permanece só; se ao invés morre, produz muito fruto” (12,24). E no primeiro capítulo Cristo é designado como a Palavra, que estava no princípio, vem ao mundo e o mundo não o escuta, “a quantos, porém, o tem acolhido é dado o poder de se tornar filhos de Deus” (1,12).

Cristo é o pequeno grão de Deus, de Deus deixado cair sobre a aradura deste mundo. É Cristo a palavra do amor eterno, que Deus semeia sobre a terra. É a pequena semente que devia morrer para se tornar fruto maduro. Nos poucos momentos nos quais celebramos a Eucaristia, temos nas mãos o pão da semente de Deus: o pão que é Cristo em pessoa, o Senhor; o fruto crescido cem vezes pela morte do pequeno grão e tornado pão do mundo inteiro. Por isto, o pão da Eucaristia é para nós o sinal da cruz e igualmente sinal da grande, gloriosa colheita de Deus: isso, em retrospectiva, reclama a cruz, a pequena semente que morreu. Todavia, em perspectiva, reclama o grande convite nupcial de Deus, ao qual vêm muitos de leste e do oeste, do norte e do sul (cf. Mt 8,11); porque este banquete de núpcias já se iniciou aqui, na celebração da Eucaristia, onde os homens de todas as raças e as classes tem acesso como satisfeitos comensais de Deus.

É o esplêndido e sublime serviço do padre, que o habilita a ser o servidor deste santo convite, a transformar e distribuir este pão da unidade. Também para ele este pão terá uma dupla significação. Também para ele, absolutamente, oferecerá a recordação da cruz: também ele ao fim deve, em qualquer modo, ser o grão de Deus; não pode contentar-se em oferecer só palavra e prestações exteriores, porém no mais deve empenhar-se até o sangue, isto é, deve dar si mesmo. O seu destino está ligado a Deus. O significado destas palavras nos é proposto pela epístola. Se trata de ataques e insucessos externos de diversa espécie; ou de aflições interiores pela falta de cumprimento do dever, do medo do insucesso, da consciência de não ter verdadeiramente se tornado grão; e talvez a coisa em geral mais oprimente e pesada seja verdadeiramente esta: a exiguidade da obra defronte à enormidade do mandato. Quem sabe isto compreenderá porque o padre, antes do prefácio, diz cada dia: “Orai, irmãos e irmãs, para que o nosso sacrifício seja aceito por Deus, todo poderoso”. Assim, ignorará os vários falatórios levianos para escutar invez, em toda a sua urgência, este apelo a carregar juntamente de uma vez o santo peso de Deus.

Mas também para o padre o pequeno grão contem alusões que vão além da cruz. Também para ele é um sinal da alegria de Deus. Se há a possibilidade de tornar pequeno grão, servidor de Jesus Cristo, pequeno grão de Deus, o homem ao tempo mesmo pode sentir-se feliz na profundidade do seu coração. Na fraqueza se realiza o triunfo da graça, como também havíamos escutado na Carta de Paulo, o qual na sua pobreza prova a superabundante alegria de Deus. Não sem confusão o padre experimenta como, através da frágil e pequena palavra, os homens nos últimos instantes de vida podem sorrir; como através da sua palavra os homens reencontram o significado que permite viver; ele experimente com gratidão como os homens, através do seu serviço, descobrem a majestade de Deus. Experimenta como Deus, através dele, realiza grandes coisas, propriamente através de sua fraqueza, e se enche de alegria porque Deus o fez, assim pequeno, digno de tal misericórdia. E enquanto experimenta tudo isso se compreende que o alegre convite nupcial de Deus, a sua centuplicada colheita não é de jeito nenhum só um futuro objeto de promessa, mas já iniciou em meio a nós neste pão, que ele é habilitado a oferecer, a transformar. E ele sabe que ser padre é ao mesmo tempo a maior exigência e o maior dos dons.

Assim, podemos compreender plenamente porque a Igreja hoje, depois da santa comunhão, mais uma vez faz o sacerdote rezar com as palavras que ele cada dia no ofício das horas repete com o salmista do Primeiro Testamento: “Subirei ao altar de Deus, a Deus que alimenta a minha juventude” (Sl 42,4). Nós oramos a Deus para que, quando for necessário, faça resplandecer sempre de novo em nossa vida um raio do esplendor dessa alegria; para que a este sacerdote, que hoje pela primeira vez sobe ao altar de Deus, conceda uma percepção sempre mais profunda e pura da luz desta alegria; para que resplandeça também para ele, quando pela última vez subirá, quando subirá ao altar da eternidade, na qual Deus será a alegria da nossa vida eterna, da nossa perene juventude. Amém.

RATZINGER, Joseph (Benedetto XVI). In: Servitori della vostra gioia: meditazioni sulla spiritualità sacerdotale, pp. 13-26. 4ª edizione. Ancora Editrice: Milano, 2008. Tradução livre de Adriano Portela dos Santos.

papa-bento-xviJoseph Aloisius Ratzinger, nascido em Marktl am Inn (Alemanha), em 16 de abril de 1927. Foi o 265º papa da Igreja Católica Romana e bispo de Roma de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013.

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