Homilética

Pregação na 1ª Noite do Novenário de São Bartolomeu – 2012

Proferida na Igreja São Bartolomeu/Maragogipe, em 17 de agosto de 2012

 

Reverendos Padres Reginaldo e Matheus,
Estimados Seminaristas do Recôncavo,
Querido Povo de Deus presente em Maragogipe,

 

Paz e Bem; Vida e Santidade!

 

O Bando já anunciou; a igreja já se arrumou! Maragojipe está em festa!

Abrimos nesta noite o Novenário ao Padroeiro São Bartolomeu, aguardada anualmente por cada maragogipano com ansiedade sem igual. Ouso dizer que todo maragogipano, tem o coração aqui, está noite; mesmo se não está presente nesta igreja. É que os sinos, os fogos, faixas e cartazes fazem da cidade a igreja e da igreja a cidade. Maragogipe está em festa e mesmo quem não queira, ou pense não estar, se aqui tem os pés fincados, festeja o Santo Bartolomeu, que nos transmite em seu testemunho a fé em Nosso Senhor. Sem este novenário, Maragogipe não é Maragogipe!

Amados irmãos, pelos pés, venho de Salvador; mas pelo coração, venho de Santo Amaro, terra onde nasci e onde, desde criança, ouvi dizer dos festejos de São Bartolomeu. Por causa das recordações de infância, venho tomado de satisfação pregar pela primeira vez a novena de São Bartolomeu.

“Anunciando o Reino de Deus” é tema do Novenário para este ano. Mas o subtema que prego esta noite foi extraído de Mt 19,3-12: “É permitido a um homem repudiar sua mulher por motivo qualquer?” (Mt 13,4) Vejamos que coisa Deus nos reserva neste subtema, para que anunciemos o Seu Reino.

Esta pergunta foi feita a Jesus por alguns fariseus que queriam experimentá-lo, verificando o seu posicionamento diante tema do divórcio. Na compreensão judaico-cristã, o matrimônio é algo pensado e querido por Deus, “Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2,24), como encontramos escrito no livro do Gênesis.

Contudo, no livro do Deuteronômio, Moisés prescreve que: “Se um homem toma uma mulher e se casa com ela, e esta depois não lhe agrada porque descobriu nela algo inconveniente, ele lhe escreverá uma certidão de divórcio e assim despedirá a mulher”. (Dt 24,1) No tempo de Jesus, havia dois posicionamentos diferentes na interpretação desta prescrição de Moisés: a escola de Hillel era mais condescendente e defendia que a carta de divórcio devia ser dada por “qualquer motivo” que incomodasse o esposo, ao passo que a escola de Shamai, que era mais rígida, defendia que devia ser dada por algo indecente, como o adultério, por exemplo . E Jesus, de que lado estava? “É permitido a um homem repudiar sua mulher por motivo qualquer?” (Mt 19,4), perguntaram-lhe os fariseus.

            De acordo com o evangelho, Jesus respondeu retornando ao livro do Gênesis: “‘Nunca lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher?’ E disse: ‘Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formarão uma só carne’? De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”.(Mt 13,4-6) Diante da resposta de Jesus, os fariseus indagaram: “Como então Moisés mandou dar atestado de divórcio e despedir a mulher?”. Jesus respondeu: “Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o princípio. Ora, eu vos digo: quem despede sua mulher — fora o caso de união ilícita — e se casa com outra, comete adultério” (Mt 13,7-9).

Desse modo, recordando o princípio e chamando a atenção para a dureza do coração dos seres humanos, Jesus se coloca na linha da escola de Shamai, mostrando que é preferível o matrimônio que o divórcio, por que Deus se interessa pela união e não pela desunião. Quero focar a minha pregação em três questões: o fundamento, a dureza do coração e dignidade da mulher, na condição pessoa humana.

Fundamento

            Em vez de se fixar na prescrição de Moisés, Jesus retorna até o princípio, com o livro do Gênesis que afirma: “Ninguém separe o que Deus uniu”, recordando que Deus não deseja que os seus filhos se desunam. No princípio das coisas encontramos o seu fundamento, a sua razão de ser. No caso do matrimônio, o fundamento é a vontade de Deus de que os seus filhos se amem e se façam felizes, através do laço conjugal.

            Embora se entenda porque Moisés instituiu a carta de divórcio, e mesmo sabendo que são muitos os casos de separação até hoje – talvez inclusive entre nós, que estamos aqui hoje – não se pode ter a carta de divórcio como referência, porque a referência é o princípio e o princípio é que “o homem e a mulher se unirão para ser uma só carne”.

            O que Jesus fez foi esclarecer que não podemos perder a referência do princípio, mesmo reconhecendo que há casos em que é necessária a separação, porque o divórcio deve ser a última alternativa. Isso é muito válido para o nosso tempo em que se perde o fundamento de cada coisa da vida, para não colocar nada no lugar. É sempre válido termos diante de nossos olhos o princípio e fundamento das coisas.

Dureza do coração

            Jesus justifica a prescrição de Moisés para a concessão da carta de divórcio pela dureza do coração dos seres humanos e, em especial, dos homens. A expressão dureza do coração vem da palavra grega esclerocardia. Esclero significa duro, basta lembrarmos de esclerose, enfermidade que é o resultado do endurecimento de algum tecido do organismo. Cardia é relativo ao coração, basta lembramos o termo cardíaco, que usamos para designar uma pessoa que sofre de doença do coração. Desse modo, esclerocardia significa justamente coração duro ou dureza de coração.

            Na atualidade, consideramos que o cérebro é a parte principal da pessoa humana, porque a ele está associada a nossa inteligência, os nossos sentimentos e as nossas motivações – tudo nasce no cérebro. Mas na cultura judaica o acento era dado ao coração, porque era ele o centro da pessoa humana. Por isso, na Bíblia a palavra coração era empregada figurativamente para falar da totalidade do homem interior, no qual se encontra o intelecto, as emoções e a vontade, em contraste com o corpo, que representa o homem exterior. É diferente de hoje, que nós usamos a palavra coração em sentido figurado, quase que para nos referir apenas à vida sentimental.

            Assim, quando Jesus fala em esclerocardia, isto é, em dureza de coração, não está se referindo apenas à falta de sentimentos, mas também à falta de inteligência (entendimento) e à falta de vontade. Se nós colocamos essa compreensão no contexto do debate entre Jesus e os fariseus acerca do divórcio, alcançamos a profundidade das palavras de Jesus, quando diz que Moisés mandou dar a carta de divórcio às mulheres por causa da dureza do coração dos homens.

            Verifiquemos de perto cada um desses sentidos da dureza do coração a que se refere Jesus:

A falta de inteligência (entendimento)

            A dureza do coração pode se referir a uma dupla falta de entendimento: a incompreensão do plano de Deus e a incompreensão da pessoa com quem convivemos. As Escrituras dizem que, quando Jesus caminhou sobre as águas, os discípulos ficaram espantados porque tinham o coração endurecido (Mc 6,52), quer dizer, não tinham entendido ainda que ele era Deus. O mesmo aconteceu quando eles pensaram que ele fala sobre o fermento dos fariseus e de Herodes porque eles haviam esquecido de levar pães no barco, mesmo depois de ele já ter feito uma multiplicação de pães. “Por que pensais que é por não terdes pães? Ainda não entendeis e não compreendeis? Tendes o coração endurecido?” (Mc 8,17)

Do mesmo modo, os seres humanos não haviam entendido o princípio, no qual Deus tinham o plano de que o homem e a mulher se tornassem uma só carne, por isso Moisés concedeu a possibilidade do divórcio. A mesma falta de entendimento se dá na relação com os outros: os seres humanos costumam não se entenderem uns aos outros; não entendemos os propósitos dos outros, seus sentimentos, sua história, sua vida, e isso gera desunião e separação. Só queremos ser entendidos, mas nunca entender. Estamos sempre com a razão e o outro nunca tem razão. Esse tipo de dureza do coração provoca o divórcio das pessoas.

A falta de sentimento

A falta de sentimento parece ser a coisa mais óbvia na dureza do coração e no divórcio. No profeta Ezequiel, lemos a seguinte profecia: “Tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26). Aqui está entendido o coração como a fonte dos sentimentos. Coração de pedra é o coração insensível, incapaz de emocionar-se, é o coração frio, indiferente ao outro e ao que o outro pode suscitar em nós. Coração de carne é, ao contrário, o coração que se aquece, que sente, que é capaz de se emocionar, de se maravilhar.

Quando temos um coração de pedra, tornamo-nos impermeáveis e nada mais daquilo que o outro fizer será o suficiente para nos alcançar. Então o relacionamento será uma fonte de mágoas e feridas e se preferirá o divórcio à morte lenta da falta do amor.

A falta de vontade

            A dureza de coração também se traduz na falta de vontade, porque no coração se encontram as intenções, motivações e vontades do ser humano. Um coração duro é aquele em que não encontramos mais vontade alguma. No evangelho, Jesus afirma que “é do coração que procedem más intenções, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações” (Mt 15,19), quer dizer, é no coração que se encontra a vontade para realizar estas ações. Por isso é que Jesus, em outra passagem, afirma que “todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5,28).

            Muitos relacionamentos chegam ao fim por falta de vontade do casal ou de algum dos cônjuges. Eles já desistiram do relacionamento, não tem mais intenção de permanecerem juntos, não tem mais motivação para manterem o matrimônio. Aqui tem algo sério: não damos mais tempo para as relações maturarem; desistimos delas com a mesma velocidade com que nos decidimos por elas. As nossas relações são líquidas: se desfazem rapidamente, não podemos perder tempo esperando que elas amadureçam. Desse jeito, falta ao nosso coração a vontade de semear o amor, queremos apenas colhê-lo e pronto. Se não está bom, vamos para outro relacionamento e assim nos ferimos porque aquele relacionamento era verdadeiro, mas não estava maduro, não tivemos vontade de ajudá-lo amadurecer. O resultado é que nos arrependemos amargamente pela dureza de nosso coração.

Dignidade da mulher, na condição de pessoa humana

No debate entre Jesus e os fariseus sobre o divórcio, Jesus procura colocar as mulheres em pé de igualdade com os homens, desfazendo uma interpretação machista da Palavra de Deus, realizada pelos judeus de sua época. Na pergunta: “É permitido ao homem despedir a mulher por motivo qualquer?”, os fariseus não estavam apenas querendo saber qual era o motivo justo para despedir sua mulher, eles estavam ali também reivindicando o direito de despedir a mulher e casar-se novamente, sem que isso significasse adultério. Para os judeus contemporâneos de Jesus, o homem só cometia adultério se mantivesse relação sexual com uma mulher comprometida; enquanto qualquer relação sexual da mulher fora do casamento era adultério. “A razão disso é que a esposa era considerada não uma companheira ou parceira do homem, mas sua posse. Ao cometer adultério a esposa estava depreciando as posses do marido, enquanto o marido, ao cometê-lo, estava depreciando as posses de outro homem” (RANKE-HEINEMANN, Uta. Eunucos pelo Reino de Deus, p. 46).

Mas Jesus afirma outra coisa: “quem despede sua mulher — fora o caso de união ilícita — e se casa com outra, comete adultério” (Mt 13,7-9). Quer dizer, não só a mulher comete adultério, o homem também comete. E se o homem comete adultério, a mulher também tem direito de mandá-lo embora. A interpretação da lei era muito cômoda para os homens: eles podiam despedir a mulher com a carta de divórcio por qualquer motivo, como queimar a panela, ficavam desobrigados de pagar a multa pela quebra do contrato de casamento, e se casavam com outra sem estar em situação de adultério. Jesus procura abolir essas vantagens que deixavam as mulheres expostas à falta de caráter de alguns homens e que ainda as renegava ao abandono e marginalização. A atitude de Jesus recupera a dignidade da mulher na condição de pessoa humana.

Depois de ouvir a resposta de Jesus acerca do divórico, “Os discípulos disseram-lhe: ‘Se a situação do homem com a mulher é assim, é melhor não casar-se’” (Mt 13,10), quer dizer, é melhor ficar solteiro porque assim se tem mais vantagens. Diante da afirmação dos discípulos, Jesus respondeu: “Nem todos são capazes de entender isso, mas só aqueles a quem é concedido. […] Quem puder entender, entenda” (Mt 13,11-12). Sabemos que só pode compreender quem suplicar a Deus esta graça e tiver o coração de carne, que é capaz de entender, sentir e ter vontade de acolher o plano de Deus.

            Anunciemos o Reino de Deus, buscando o fundamento que se encontra no princípio de cada coisa, para que não erremos o caminho; desendurecendo o nosso coração, para que entendamos, sintamos e desejemos cumprir os projetos de Deus; e respeitando a pessoa humana, seja criança, jovem ou idoso, independente de cor, sexo condição física ou religião, porque é isso que Jesus deseja no Reino de Deus.

            Concluo agradecendo ao pastor desta multisecular Paróquia de São Bartolomeu pela gentileza do convite a mim feito, de pregar o Evangelho em terras que tanto me aprazem. Deus abençoe a todos com a intercessão e o testemunho de São Bartolomeu. Amém!

Pe. Adriano Portela

Padre Formador no Seminário Central São João M. Vianney

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