Estudos Literários

Padre, Celibato e Literatura: entre o sacrifício de Eurico e o Crime de Amaro

 

Adriano Portela[1]

 

Resumo

A Literatura se aproxima da realidade porque trabalha com o verossímil, que é o semelhante à verdade. Desse modo, ela contém a representação de uma sociedade sobre cada determinado tema. Este artigo pretende identificar a representação do padre na literatura oitocentista de Portugal, através da análise dos romances “Eurico, o Presbítero”, de Alexandre Herculano, e “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queirós, cujos protagonistas são padres. Eurico é um cavaleiro que resolve se tornar padre como fuga da suposta desilusão amorosa sofrida com Hermengarda. Amaro é um padre jovem que se torna padre por causa da vontade da Marquesa de Alegros e que estabelece um relacionamento amoroso com Amélia. A partir das semelhanças e diferenças dos romances, extraídas a partir da análise comparativa, identificaremos os elementos que compõem a representação do padre na Literatura.

Palavras-chave: Padre; Celibato; Representação; Romantismo; Realismo

INTRODUÇÃO

A Literatura, em certo sentido, reflete a realidade. Não porque os fatos narrados por ela sejam verdadeiros ou os seus personagens sejam reais, mas sim porque ambos são verossímeis[2], isto é semelhantes à verdade. Por isso, “O texto literário revela e insinua as verdades da representação ou do simbólico através dos fatos criados pela ficção” (PESAVENTO, 2006). Neste sentido, entendendo representação como reprodução daquilo que se pensa, a Literatura é um dos modos de representação do imaginário social, uma vez que ela corrobora na forma de pensar dos homens e mulheres de seu tempo, acerca das mais variadas realidades.

Deste modo é que alguns romancistas portugueses espelharam em suas narrativas os embates acerca do celibato clerical, ocorridos em Portugal no séc. XIX, como é o caso de Alexandre Herculano, com Eurico, o Presbítero, e Eça de Queirós, com O Crime do Padre Amaro. Essas narrativas, embora fictícias, não deixam de revelar a realidade oitocentista, na medida em que são “um produto narrativo de uma época e de um contexto específico vivido pelo autor, sendo ao mesmo tempo criação ficcional e reflexo de fatos verídicos” (RAMOS, 2003, p. 3).

Analisaremos Eurico, o Presbítero e O Crime do Padre Amaro a fim de identificar a imagem de padre espelhada nesta Literatura, a partir do estudo do personagem principal de cada uma das obras supracitadas, os sacerdotes Eurico e Amaro, nos quais se deflagra o drama do compromisso do celibato diante do amor por suas respectivas amadas. Confrontando estas narrativas, podemos chegar a elementos comuns explorados pelos autores e que revelam a representação de padre na Literatura.

1 EURICO, O PRESBÍTERO E O CRIME DO PADRE AMARO

1.1 Eurico, o Presbítero

            A obra Eurico, o Presbítero (1844) está enquadrada entre os romances históricos escritos pelo escritor do romântico Alexandre Herculano (1810-1877), introdutor do romance histórico em Portugal. Graças ao seu nacionalismo, Herculano demonstrou acentuado interesse pela História, como fica provado pela sua famosa obra História de Portugal (1846), e isto se tornou latente inclusive em sua obra literária, a ponto de Eurico, o Presbítero ser considerada a maior obra do romance histórico, no séc. XIX, em Portugal.

Como afirma Anderson (2007, p. 208), “O romance histórico […] é um produto do nacionalismo romântico”, indubitavelmente interessado pelo passado, sobretudo o passado nacional. A matriz desse nacionalismo, conforme esclarece o próprio Anderson (cf. 2007, p. 208), foi a reação dos antigos regimes europeus aos ideais da Revolução Francesa, que abalaram a Coroa e a Cruz, as quais precisavam agora de uma entusiasmada defesa em cada país. Por isso, o romance histórico nasce dessa necessidade, que será explorada segundo cada contexto europeu. No caso de Portugal, bem como de outras nações, a Idade Média é o tempo em que Coroa e Cruz fundam a identidade nacional, por isso, Herculano vai contextualizar o Eurico no Séc. VIII, época em que os cristãos ibéricos lutam para expulsar de seu território os mulçumanos árabes.

            Além de Eurico, o Presbítero pertence a este gênero literário outras narrativas de Herculano, como O Monge de Cister, que junto com Eurico, o Presbítero forma o Monasticon, conjunto de obras em que Herculano trata o problema do celibato. Nessas narrativas históricas de Herculano, encontramos alguns traços comuns, como o sentimento de eternidade em contraste com o efêmero da vida humana; temas de origem religiosa, como o tema do sacrilégio, o culto do cavalheiresco e o gosto pela Idade Média. Todos eles presentes nas obras do Monasticon.

O Eurico trata do amor irrealizado entre Eurico, um cavaleiro (gardingo), e Hermengarda, filha de Fávila, Duque de Cantábria. Eurico pede a Fávila a mão de Hermengarda em casamento, mas este recusa o pedido do cavaleiro; “não consentira que o menos nobre pusesse tão alto a mira dos seus desejos” (HERCULANO, p. 9). Eurico, então, desiludido, refugia-se no sacerdócio, como quem busca a morte – no caso do sacerdócio, a morte simbólica através do desprezo da própria vida[3]. Essa desilusão de Eurico está intimamente ligado ao mal du siècle (mal do século) ou o tedium vitae (tédio da vida) de que padece o romântico. Na carta a Teodomiro, Duque de Córdoba, Eurico escreve as suas palavras de desencanto:

Sabes o que faz um amor imenso assim recalcado? – Devora e consome o futuro e entenebrece para sempre o horizonte da vida. Nada há, depois disso, que possa restaurar o que ele tragou; nada que possa rasgar as trevas que ele estendeu. No mesmo sepulcro não há porvir de esperança, nem porventura, luz de consolação; porque ao passamento do corpo precedeu a morte do espírito. (HERCULANO, p. 30) [grifo nosso]

Diante da impossibilidade do absoluto aspirado pelo “eu” (para Eurico, o amor de Hermengarda), os românticos padecem do mal du siècle, “que lhes enlanguesce a vontade, entedia a vida e faz desejar a morte”… (SILVA, 1996, p. 547). Por essa razão, a evasão é a atitude mais recorrente entre os românticos, a qual se manifesta na busca da morte, no gosto pelo medieval. Quando se trata de personagens religiosos, a evasão se torna reclusão, a busca da morte (simbólica) no sacerdócio, como fez Eurico. Ele mesmo diz que fez cair sobre os desencantos de sua vida “a campa de bronze do sacerdócio” (HERCULANO, p. 94).

Mas nos reverses da vida, Eurico reencontra-se com Hermengarda, que até então pensa que ele estava morto, e descobre o quanto ela o amava, e que a recusa do pedido de casamento não foi dela, mas de seu pai Fávila. Eles vivem, então, um misto de felicidade e agonia, devido a duas verdades, “horríveis porque associadas: o amor correspondido e tornado ao mesmo tempo maldito, monstruoso, impossível por uma palavra fatal, que lá estava escrita em caracteres de fogo, e que ele via, escutava, sentia – o sacerdócio!” (HERCULANO, p. 96)

Eurico desespera-se porque o celibato clerical torna-se um empecilho ao seu amor: só um “crime” os poderia unir, mas era terrível a ideia do amor sacrílego. Por isso, Eurico padece a segunda morte, agora física: beija a mão de Hermengarda e parte para uma luta suicida, como o “Cavaleiro Negro”. Hermengarda enlouquece ao saber da morte de seu amado. Aqui se encerram duas características do Romantismo: a primeira é o amor idealizado que não permite a consumação do amor, a não ser o simples beijo de Eurico na mão de Hermengada. O Romantismo, ainda que revolucionário, não podia conceber um amor demasiado carnal, sobretudo se consumado. A segunda característica é a busca da morte provocada pelo desgosto do amor irrealizado, como acontece em Eurico. De acordo com Moisés (1994, p. 21-22),

Perdido no emaranhado de suas emoções, o romântico procura muitas vezes na morte a libertação de tudo que o oprime… O desconforto existencial impele o sujeito a buscar o resgate de seus males em outra dimensão, e a morte é vislumbrada como o refrigério para seus dramas.

1.2 O Crime do Padre Amaro

O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós (1845 – 1900), também reflete as contestações anticlericais ao celibato eclesiástico, no séc. XIX. Inserido no Realismo português, corrente estética contrária ao Romantismo, Eça pertenceu à chamada Geração de 70, grupo que tomou para si a tarefa de mudar os padrões sociais de sua época, a partir das Conferências do Cassino Lisbonense (1971), posto que via na arte um modo de aplicação de suas ideias. “Dizendo-se contrários ao status quo, os realistas empunharam a literatura como arma de combate. Engajada, instrumento de reforma e ação social, a arte, compromissada, deveria estar a serviço das magnas causas, redentora do homem e da sociedade”. (MOISÉS, 1994, p. 99). Por isso, os realistas opõem-se ao subjetivismo e ao idealismo de que padeceram os românticos.

O Crime do Padre Amaro pertence à segunda fase literária de Eça, que é a fase mais realista do autor português, em termos de estética, o que significa dizer que estas narrativas estão dentro do plano de crítica social e da proposta de mudança pensados pelos realistas. O próprio Eça esmiúça as suas intenções em carta a Teófilo Braga:

A minha ambição seria pintar a sociedade portuguesa, tal qual a fez o Constitucionalismo desde 1830 – e mostrar-lhe com num espelho, que triste país eles formam – eles e elas. É necessário articular o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso – e com todo o respeito pelas instituições e falsas realizações, que lhe dá uma sociedade podre. Não lhe parece você que um tal trabalho é justo?[4]

Eça realiza essa “ambição” na composição de cada romance da sua segunda fase literária: em O Crime do Padre Amaro, ataca a religião mostrando o descomprometimento do clero com a sua causa; em O primo Basílio, ataca a família mostrando como não se sustentam os casamentos de conveniência, atravessados muitas vezes pelo adultério, inclusive feminino; em A relíquia, retorna à religião, desta vez focando a exploração e o abuso que fazem aqueles que se servem da religião como um comércio; por fim, em Os Maias, censura a média e alta burguesia, ironizando a corrupção dessa classe central na vida política, econômica e artística de Portugal. “Com Os Maias, Eça fecha o ciclo dos romances estruturados com a finalidade de cumprir os preceitos realistas, pondo sua pena a serviço do combate às falhas de sua época. Neles é visível o objetivo de denunciar as mazelas morais para corrigi-las”. (MOISÉS, 1994, p. 144).

O Crime do Padre Amaro narra o caso de amor entre Amaro, o jovem padre nomeado para a Sé de Leiria, e Amélia, a jovem filha da São-Joaneira, viúva que vive em concubinato com Cônego Dias, que fora mestre de Moral de Amaro, no Seminário. Por providência do Cônego Dias, Amaro instala-se na casa de São-Joaneira, onde se aproxima de Amélia.

Algo marcante em O Crime do Padre Amaro é a negatividade com que Eça retrata os padres, algo próprio do Realismo anticlerical, calcado no cientificismo e no liberalismo. Padre José Miguéis, antecessor de Amaro na Sé, por exemplo, “passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões” (QUEIRÓS, 2004, p. 25); de Padre Gusmão se diz que é “polido” e “tão cheio de lábia” (QUEIRÓS, 2004, p. 25); e “O Cônego Dias passava por ser rico; trazia ao pé de Leiria propriedades arredondadas, dava jantares com peru, e tinha reputação o seu vinho duque de 1815” (QUEIRÓS, 2004, p. 27), além da sua “‘antiga amizade’ com a Srª Augusta Caminha, a quem chamavam a São-Joaneira por ser natural de São João da Foz”. (QUEIRÓS, 2004, p. 27)

Amélia namorava João Eduardo, mas certa feita, quando levou Amaro para conhecer a fazenda da São-Joaneira, este “beijou-a com furor no pescoço”. (QUEIRÓS, 2004, p. 112). Desde então, a intimidade entre Amélia e Amaro só aumentou, o que fez com que João Eduardo enciumasse e, logo depois, Amélia terminasse o namoro com João Eduardo. O pároco trama a história de que Amélia irá à casa do sineiro da Sé catequizar a sua filha doente. E a este, por sua vez, Amaro diz que precisa de sua casa para dirigir secretamente Amélia que deseja ser freira, mas ainda falouà mãe. O pároco, na verdade, tramou tudo isto, para que pudesse ter encontros amorosos com ela na casa do sineiro, sem que ninguém desconfiasse do que se passava.

Amélia engravidou e Amaro arrumou uma maneira de mantê-la distante até o parto. Quando a criança nasceu, Dionísia, criada de Amaro, levou-a para uma “tecedeira de anjos”[5] (QUEIRÓS, 2004, p. 373), que se encarregaria da criar a criança, às custas de Amaro. No dia seguinte ao do nascimento, Amaro recebe a notícia de que Amélia faleceu no parto.

Vale a pena observar os traços realistas deste romance de Eça: o amor entre Amaro e Amélia foi consumado. Não houve nenhuma oblação, nenhum sacrifício dramático do amor, como aconteceria no Romantismo. O desfecho da história é outro ponto importante a se notar: Amélia morre e Amaro prossegue a sua vida, de maneira até cínica, como vai mostrar o diálogo final, entre ele, o Cônego Dias e o conde de Ribamar. Em Eurico, o protagonista prefere a morte ao amor “sacrílego”; enquanto Hermengarda, por sua vez, prefere a loucura que a aceitação da morte de Eurico. Mas n’O Crime do Padre Amaro, Amaro prefere satisfazer a sua paixão e é um tanto quanto indiferente ao destino de Amélia. O autor romântico, por mais que anticlerical, impõe a censura moral ao amor “sacrílego”, e por isso ele é irrealizável. O realista, de outro modo, retira a censura, a fim de retratar a vida como ela é.

2 ENTRE EURICO E AMARO, O PADRE E O CELIBATO

2.1 Padres protagonistas

Para delinearmos a imagem do padre na Literatura oitocentista em Portugal, cumpre também nos determos na figura do heroi nos movimentos literárias do Romantismo e do Realismo, visto que estamos tratando do padre como protagonista (heroi) dos romances.

Levando em conta as características do Romantismo em Portugal, tais como a prevalência do sentimento sobre a razão e a imposição do eu em detrimento das normas sociais, TRINDADE esboçou de maneira muito competente o perfil do heroi no Romantismo:

O herói romântico é, em primeiro lugar, um apaixonado invulgar. […]. Contra essa paixão dominadora, quase sempre violenta, erguem-se os obstáculos que a lei, a sociedade ou a moral opõem às pretensões do herói, e que ele tem de enfrentar, numa luta para a qual um certo fatalismo o empurra irreprimivelmente. Da luta, sairá o herói, ou derrotado ou vencedor parcial. Essa semivitória cuminará por sua vez numa morte dramática ou misteriosa, tantas vezes fruto dum inconsolável fracasso sentimental. (1965, pp. 107-108)

Foi esse Romantismo em que o amor impulsiona os amantes a quebrar as leis sociais, que introduziu o padre no romance português, no sentido de tê-lo numa perspectiva dramática, sendo Herculano o primeiro a colocar o padre como protagonista no romance, a saber, Eurico, o Presbítero e o Monge de Cister. Trindade assevera que, no Romantismo, “O padre aparece como alguém que uma disciplina reputada cruel e desumana impede de seguir a paixão que, então como no Romantismo posterior, ocupa o lugar central na vida do homem: a paixão amorosa”. (TRINDADE, 1965, p. 111) Eurico, por exemplo, sente esse drama ao descobrir que Hermengarda ainda o ama e ele, por causa do celibato, não pode viver a paixão por sua amada.

No Realismo, cuja marca principal é a objetividade e a fuga do sentimentalismo romântico, os personagens apresentam perfis reais, tipos do cotidiano, diferente do personagem romântico, que era exótico, como o próprio Eurico que é cavaleiro misterioso e sacerdote poeta.

O herói realista é um elemento importante da legibilidade da narrativa, pois está sempre articulado com o extra-texto cultural comum ao autor e ao leitor. Aqui, também, o cotejamento é quase sempre explícito, pois o termo herói é freqüentemente empregado em novos moldes, determinados pela verossimilhança, opostos ao romanesco, ao excepcional, ao maravilhoso que caracterizam o herói romântico. (MACHADO, 2001, p. 3)

Desse modo, diferente do Romantismo, o heroi realista será heroi na medida em que se aproxime do corriqueiro e, nesse sentido, nunca será alguém idealizado. Em O Primo Basílio, por exemplo, trata-se de um casal, Luisa e Jorge, que enfrenta o problema da traição feminina no casamento. Fato corriqueiro, próximo da realidade, mesmo se protegido pelo tabú, e que, portanto, tem verossimilhança com as histórias da vida real. Por essa razão, os padres retratados pelos realistas não são pessoas endeusados; são, em vez disso, representados em suas fragilidades morais, seres humanos como todos os demais. No caso de Eça, em O Crime do Padre Amaro, é demonstrada essa humanidade dos sacerdotes de maneira satírica, quando o autor descreve os eclesiásticos do romance a partir de seus vícios. E o fato de dar certos perfis aos sacerdotes de seu romance significa que esses perfis sacerdotais encontravam-se presentes na sociedade, porque os realistas tentam representar o real na Literatura. É a isto que se refere Machado, na citação acima, quando fala de extra-texto cultural.

“O Cônego Dias passava por ser rico; trazia ao pé de Leiria propriedades arredondadas, dava jantares com peru, e tinha reputação o seu vinho duque de 1815” (QUEIRÓS, 2004, p. 27), além de viver em concubinato com a Srª São-Joaneira. Do Padre Brito, é dito que “era o padre mais estúpido e mais forte da diocese” (QUEIRÓS, 2004, p. 100) e sugere-se que ele tem um caso com a mulher do regedor (cf. QUEIRÓS, 2004, p. 100). Padre Amaro é pintado como um carreirista que se fez padre para se livrar da pobreza na casa do tio, a ponto de fazer articulações políticas com a Condessa, filha da Marquesa de Alegros, para ser transferido da pobre paróquia de Feirão, para a Sé de Leiria. Eça distingue-se apenas o Abade de Cortegaça, pároco da pobre paróquia de Ricoça, “porque não era possível recusar-lhe nem a virtude da vida nem a ciência de sacerdote” (QUEIRÓS, 2004, p. 341). Desse modo, os padres do romance O Crime do Padre Amaro, excetuando o Abade Ferrão, são retratados como pessoas de algum modo inadequadas para a vida sacerdotal, tal como supostamente se via na sociedade oitocentista de Portugal.

2.2 Vocação

O primeiro ponto comum da imagem do padre na Literatura de Portugal oitocentista é a falta de vocação. Quer seja Herculano, quer seja Eça, e também outros autores, retrataram sacerdotes que padeciam da falta de vocação sacerdotal. No caso do romance de Herculano, “Eurico entrara no sacerdócio levando aquilo que precisamente deveria ter abandonado – a paixão bem viva por Hermengarda. Recolhia-se ao santuário, à procura de “abrigos e consolações”, que lhe dulcificassem o desespero de um amor infeliz” (TRINDADE, 1965, p. 139). Eurico não deseja entregar-se a Deus, deseja fugir à frustração do amor desenganado. Amaro padece da mesma falta de vocação, mas se faz padre para cumprir a vontade da Marquesa de Alegros e pelo desejo de livrar-se da casa do tio. “Nunca ninguém lhe consultara as suas tendências ou a sua vocação. Impunham-lhe uma sobrepeliz: a sua natureza passiva, facilmente dominável, aceitava-a como aceitaria uma farda. De resto, não lhe desagradava ser padre” (QUEIRÓS, 2004, p. 43). Mas quando sentiu-se confuso por causa do amor que sentia por Amélia, Amaro “Amaldiçoou, num desespero, ‘a pega da marquesa que o fizera padre’, e o bispo que o confirmara” (QUEIRÓS, 2004, p. 99). Ele trazia no coração o sentimento de que “Tinham-no impelido para o sacerdócio como boi para o curral!” (QUEIRÓS, 2004, p. 134)

Na compreensão da Igreja, o sacerdócio é uma vocação e não um ofício que se escolhe aleatoriamente. Tepe elucida que “A vocação é, antes de tudo, um mistério pessoal: relação profunda entre Cristo, que escolhe a quem e como quer, e o escolhido, que aceita o chamado” (1994, p. 28). Sendo assim, o sacerdócio nunca pode ser a vontade de uma Marquesa ou a fuga de uma paixão – senão a resposta de uma pessoa ao chamado de Deus. Na compreensão de Trindade, o resultado dessa carência de vocação “é darem-nos uma galeria de sacerdotes em que o fracasso se deve, fundamental ainda que nem sempre exclusivamente, a eles se terem aventurado cegamente por um caminho a que não eram chamados”. (TRINDADE, 1965, p. 134)

2.3 Celibato

Falar de padre na Literatura redunda em falar de celibato, porque – protagonistas ou não – os sacerdotes geralmente são retratados nos romances como infiéis à disciplina do celibato eclesiástico ou como atormentados por uma paixão incompatível com a referida disciplina. Amaro estabelece um caso com Amélia; Eurico entrega a vida numa batalha fatal diante da impossibilidade de poder consumar seu amor por Hermengarda, para não descumprir a disciplina do celibato. Sempre o celibato está em questão: desse modo, um dos aspectos da representação do padre transmitida ou apreendida por Herculano e Eça é o drama diante do celibato.

O clima romântico de exacerbação dos afetos, junto com os ideais liberais advindos da Revolução Francesa, favorecia o tratamento do tema do celibato no Romantismo, por isso, Herculano abordou o tema em sua obra com a desculpa de assim fazer “à luz do sentimento” e influenciado pela impressão que causou nele “a irremediável solidão da alma a que a Igreja condenou os seus ministros” (HERCULANO, p. 5).

Desse modo, no Eurico e no Monge de Cister, Herculano procura atacar a disciplina do celibato, mas assim como outros autores, falha em sua crítica no momento em que retrata um padre sem real vocação sacerdotal. O autor quis mostrar como o celibato é uma fonte de dramas sentimentais e, no máximo, o que conseguiu provar foi como a tirania de um pai e/ou a imaturidade de uma pessoa que procura fugir de si, pode gerar infelicidade. Sua tese foi prejudicada pelas premissas. Por isso Trindade diz , “O drama é – já o sabemos – prejudicado irremediàvelmente pelas premissas em que se assenta, e pelo caminho seguido pelo protagonista. Com aqueles princípios e aquelas bases, Eurico tinha forçosamente de cair na solidão insuportável, porque sem sentido”. (TRINDADE, 1965, p. 220).

Eça não pretendia criticar a disciplina do celibato, mas a imoralidade dos padres, entre elas, a de relacionamentos ocultos, isto é, a quebra do celibato. Também qualquer possível crítica empreendida contra o celibato, a partir da trama de O Crime do Padre Amaro, ficará por terra, uma vez que Eça cometeu o mesmo erro que Herculano, ao descrever a vocação de Amaro como uma vontade da Marquesa de Alegros e um desejo de mordomia de Amaro. Mais uma vez, o que se evidencia é o desacerto vocacional e não a inadequação do celibato eclesiástico.

Seja como for, a Literatura, por quanto se examinou, faz coincidir a quebra do celibato com a falta de vocação, como se a ocorrência de uma coisa significasse a ausência da outra. Dessa forma, a Literatura oitocentista, embora pretendesse criticar, manteve-se presa à concepção católica oitocentista que entendia o celibato como inerente à natureza do sacerdócio, como se fossem uma mesma coisa. Igreja, no séc. XX, elucidou a relação entre sacerdócio e celibato, quando afirma que “É certo que o carisma da vocação sacerdotal, ordenado ao culto e ao serviço religioso e pastoral do povo de Deus, se distingue do carisma que leva à escolha do celibato como estado de vida consagrada” (PAULO VI, 1968, n. 15). Em outras palavras, uma coisa é a vocação ao celibato, outra é a vocação ao sacerdócio. De modo que a falta de uma não redunda, necessariamente, na falta de outra. Neste sentido, falta à Literatura romances nos quais esteja representada essa atualização da concepção católica sobre o sacerdócio. Romances em que não se precise minar a vocação sacerdotal para falar da displicência com o celibato.

2.4 Ofício sacerdotal

Todas as tradições religiosas concebem o sacerdote como o mediador entre Deus e os homens. Se religião (religare) é religar o homem a Deus, cumpre ao sacerdote a função de ser mediador entre a humanidade e Deus, sobretudo através do culto. Por isso, “A função primordial e fundamental do sacerdócio é o exercício do culto […]. Seja qual for a ideia que se faça da divindade, o sacerdote será o ministro, e terá como tal o poder de conciliar o seu favor sobre os homens, cujas homenagens e súplicas lhe pertence transmitir através dos diferentes actos de culto”. (TRINDADE, 1965, p. 150).

O Catolicismo considera que a mediação do padre se dá em três funções (sacerdote, profeta e rei), que lhe constituem “mestre da Palavra, ministro dos sacramentos e guia da comunidade” (CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, p. 5, 1999). Ele conduz os fiéis a Deus, através de sua pregação, como mestre da Palavra; da presidência do culto, como ministro dos sacramentos; e do seu pastoreio, como guia da comunidade. Entretanto, “A Missa – renovação do sacrifício do Cristo – é assim a função central do padre, o núcleo à volta do qual devem desenvolver-se todas as suas outras actividades. E todas se destinam a fazer dele um Pastor: aquele que Deus encarregou de conduzir a Ele a humanidade”. (TRINDADE, 1965, p. 155)

Vale a pena analisarmos como Herculano e Eça fizeram aparecer o ofício sacerdotal em seus personagens. No caso de Eurico, sobressai muito mais a sua aptidão de poeta e de guerreiro, que a de sacerdote. A única vez que Herculano faz-nos saber, indiretamente, das funções sacerdotais de seu personagem é quando este se atrasa para a missa, depois de passar mais uma madrugada compondo um de seus hinos sacros. (Cf. HERCULANO, p. 11)

No caso de Amaro, Eça, ao menos, fez-nos entrever mais os seus ofícios sacerdotais. Logo na chegada a Leiria, o narrador diz que “Amaro abriu o seu Breviário, ajoelhou aos pés da cama” (QUEIRÓS, 2004, p. 39). Sabe-se que Amaro presidia a missa todos os dias, porque o tio Esguelhas, “costumava todos os dias ouvir a missa do senhor pároco” (QUEIRÓS, 2004, p. 265). “Ia cedo dizer a missa à Sé, bem embrulhado no seu grande capote, com luvas de casimira, meias de lã por baixo das botas de alto cano vermelho” (QUEIRÓS, 2004, p. 88). Mas o narrador faz notar que “Amaro já não celebrava a missa como nos primeiros tempos, com uma devoção enternecida” (QUEIRÓS, 2004, p. 89). Proclamava o Evangelho depressa e monotonamente e, quando dava a benção final, “era já pensando na alegria do almoço, na clara sala do almoço da São-Joaneira e nas boas torradas” (QUEIRÓS, 2004, p. 89).

Amaro também aparece como o confessor e diretor espiritual. O seu interesse é confessar Amélia, e para isso, arruma um modo de fazê-la deixar a direção espiritual do Padre Silvério e vir à direção com ele, o pároco da Sé (cf. p. 125). Ademais, no final do romance, se diz que Amaro “teve de partir para a Sé, amargurado e doente, a batizar o filho do Guedes” (QUEIRÓS, 2004, p. 397). Isso é tudo o que é dito dos ofícios sacerdotais de Amaro, que é citado muito mais em conversas em casa da São-Joaneira, na Rua da Misericórdia, com as beatas, Côn. Dias, São-Joaneira e Amélia, que em seu serviço pastoral, como pároco da Sé.

Desse modo, é representado muito pouco da vida pastoral do padre e de sua relação com Deus. Entretanto, bem recorda Trindade que “o padre só tem sentido dentro do sobrenatural. […] Deus é essencial ao sacerdócio” (1965, p. 156), por isso, não se pode retirar Deus do horizonte sacerdotal, sem incorrer num prejuízo considerável na identidade sacerdotal.

O silêncio sobre a vida de fé e a caridade pastoral do padre na Literatura não é coisa dos romances oitocentistas, mas de uma tradição literária anterior que restringia o seu olhar à visão sociológica do sacerdócio, em detrimento de sua função de mediação. Ao dizer visão sociológica, referimo-nos aos aspectos da moral e da caridade a que a sociedade, muitas vezes, relega ao padre, fazendo desse apenas o padre o homem da moral e da caridade. Para localizar essa tradição, podemos nos remontar à Profissão de Fé do Vigário Saboiano, que está na obra Emílio ou Da Educação (1762), de Rousseau. Nesta confissão de fé, o autor francês transmite a sua concepção de religião, através da “voz” do vigário saboiano. Enquanto os iluministas abjuraram à religião, Rousseau a resgatou, na condição de religião natural, que não é fundada em dogmas ou instituições, mas na consciência do ser humano que sabe buscar o bem, cujo expoente maior é Deus. Por essa razão, “O seu culto é a ação do bem. Sua doutrina é a submissão a Deus” (Voltaire apud CASTRO, 2010, p. 41), nas palavras de Voltaire, outro iluminista francês.

A Profissão de Fé recebeu dura crítica do então Arcebispo de Paris, Christophe Beaumont, numa Carta Pastoral, à qual Rousseau respondeu noutra carta, da qual extraímos o excerto abaixo, para melhor termos noção da religião natural apregoada pelo filósofo francês:

Meu Mestre pouco discorreu sobre as sutilezas dos dogmas e insistiu muito sobre os deveres; prescreveu menos artigos de fé que boas obras; só ordenou acreditar no que era necessário para ser bom. […] De minha parte, suficientemente convencido das verdades essenciais do cristianismo que servem de fundamento a toda boa moral […], persuadido, enfim, de que qualquer um que ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo é um verdadeiro cristão, eu esforço-me para sê-lo, deixando de lado todas as sutilezas da doutrina, todas as pomposas algaravias com as quais os fariseus confundem nossos deveres e ofuscam nossa fé e, como São Paulo, pondo a própria fé abaixo da caridade. (Rousseau, 2005, p. 72 apud CASTRO, 2010, p. 96)

Como podemos “ver”, as boas obras e o agir moral são pilares da religião natural do filósofo, uma vez que a aproximação de Deus – fonte de toda bondade – livra-nos de praticar o mal. Por isso, conforme observa Trindade (1965, p. 164), “Uma das grandes heranças de Rousseau será precisamente a abundante proliferação de padres do tipo do vicaire [vigário], predominantemente preocupados com a morigeração dos costumes”. Esse perfil de sacerdote bondoso e morigerador legado por Rousseau se traduzirá na figura do padre rural – observemos que o próprio vigário saboiano é um padre rural, um pároco de aldeia. De acordo com Trindade, “A figura do padre rural, homem bom e simpático, debruçado sobre as necessidades e problemas materiais das suas ovelhas, tinha já larga tradição na literatura de ficção, pelo menos a partir do séc. XVIII” (1965, p. 120). Temos, por exemplo, Jocelyn (1836), de Lamartine, que é pastor numa vila no Alpes; O Pároco de Aldeia e o próprio Eurico, de Herculano. “Eurico era como um anjo tutelar dos amargurados. Nunca a sua mão benéfica deixou de estender-se para o lugar onde a aflição se assentava […] Sacerdote de Cristo, […] Eurico percebera, enfim, claramente que o cristianismo se resume em uma palavra – fraternidade”. (HERCULANO, p. 10)

Eurico é um legítimo pastor, bondoso e morigerador, ao ponto de ser capaz de sair em noite de tempestade para levar o viático a um moribundo. Há vestígios desse mesmo perfil de padre também n’O Crime do Padre Amaro, no qual Eça apresenta o Abade Ferrão, Pároco de Ricoça, como modelo de padre. Ferrão habitava “numa aldeia de terra escassa, […] precipitando-se a uma meia légua por um temporal desfeito se um paroquiano tinha uma dor a consolar, uma velha a quem tinha morrido uma cabra… e sempre de bom humor, sempre com um cruzado no fundo do bolso dos calções para uma necessidade do seu vizinho”. (QUEIRÓS, 2004, p. 341)

Ferrão é descrito por Eça como “padre perfeito no zelo da Igreja” (QUEIRÓS, 2004, p. 342), sendo, inclusive, o único do qual Eça fala em atos devocionais, como passar “horas de estação aos pés do Santíssimo Sacramento” (QUEIRÓS, 2004, p. 342). Além de caridoso e devoto, Ferrão é perfilado como um homem de moral, capaz de dirigir as pessoas, como acontece com Amélia e João Eduardo. Sua palavra tem verdadeira autoridade moral. Como já dito, Ferrão é o modelo de padre para Eça de Queirós; ele é como o antagonista de Padre Amaro Vieira. Por tudo isso, Ferrão enquadra-se na tradição dos padres rurais dos romances literários.

CONCLUSÃO

            Percebemos que tanto no Romantismo, quanto no Realismo, a Literatura portuguesa do séc. XIX representou o padre com traços comuns: ausência de vocação sacerdotal, crise com a disciplina do celibato eclesiástico por causa de alguma paixão amorosa e pouco envolvimento com o ofício sacerdotal em si. Os protagonistas diferem-se apenas na postura que assumem diante da crise: enquanto Eurico busca a morte, para não consumar o seu amor “sacrílego”; Amaro vive este amor e, mesmo diante do falecimento de Amélia, parece inescrupuloso. Contudo, ambos os romances associam a displicência ante a disciplina do celibato eclesiástico com a ausência de vocação, conforme a concepção oitocentista do catolicismo, para o qual o celibato fazia parte da essência da vocação sacerdotal. Enquanto que atualmente a Igreja reconhece as múltiplas conveniências do celibato ao sacerdócio, mas reconhece que este carisma não faz parte da natureza mesma da vocação sacerdotal.

 

REFERÊNCIAS

ANDERSON, Perry. Trajetos de uma Forma Literária. (Tradução do Inglês: Milton Ohata). Novos Estudos 77, março 2007, pp. 205-220. Disponível em: www.scielo.br. Acesso 20 abril 2011.

CASTRO, Luciana Xavier de. Religião em Rousseau: A Profissão de Fé do Vigário Saboiano. Dissertação de Mestrado em Filosofia. Uberlândia: UFU, 2010. Disponível em: www.bdtd.ufu.br. Acessado em 25 maio 2011.

CLERO, CONGREGAÇÃO PARA O. O Presbítero: Mestre da Palavra, Ministro dos Sacramentos e Guia da Comunidade em vista do Terceiro Milênio. 2ª edição. Paulinas: São Paulo, 1999.

HERCULANO, Alexandre. Eurico, o Presbítero. Germape, s/d.

MACHADO, Guacira Marcondes. O Texto Realista e suas Correlações. In: Revista Olhar, ano 3, nº 5-6. Janeiro/Dezembro de 2001.

MOISÉS, Massaud (direção). A Literatura Portuguesa em Perspectiva: Romantismo/Realismo. Vol. 3. Editora Atlas: São Paulo, 1994.

PAULO VI, Papa. Sacerdotalis Coelibatus. 1968. Disponível em: www.vatican.va. Acessado em 20 maio 2011.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & Literatura: uma velha-nova história. Nuevo Mundo, Mundos Nuevos, Debates, 2006. Disponível em www.nuevomundo.revues.org/1560.  Acessado em 18 abril 2011.

QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Martin Claret: São Paulo, 2004.

RAMOS, Fábio Pestana. História e Literatura: ficção e veracidade. Domínios de Linguagem II, 2003. Disponível em www.dominiosdelinguagem.org.br. Acessado em 18 abril 2011.

TEPE, Dom Valfredo. Presbítero Hoje. Vozes: Petrópolis, 1994.

TRINDADE, Manuel. O Padre em Herculano. Lisboa: Editorial Verbo, 1965.

[1] Bacharel em Teologia (UCSal), Licenciado em Letras Vernáculas (UCSal), Especialista em Estudos Linguísticos e Literários (UFBA) e Doutorando em Literatura e Cultura na UFBA. E-mail: adrportela@hotmail.com.

[2] “O verossímil é o provável, o que poderia ter sido e que é tomado como tal” (PESAVENTO, 2006).

[3] O texto de Herculano diz que Eurico “foi procurar abrigo e consolações aos pés d’Aquele cujos braços estão sempre abertos para receber o desgraçado que neles vai buscar o derradeiro refúgio”. (HERCULANO, p. 9) [grifo nosso]

[4] Apud MOISÉS, 1994, p. 142.

[5] Eufemismo utilizado para denominar os infanticidas.

* Artigo apresentado na Semana de Mobilização Científica (SEMOC) da UCSAL, em 2012.

2 comentários em “Padre, Celibato e Literatura: entre o sacrifício de Eurico e o Crime de Amaro

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