Estudos Literários

O Personagem Padre como Anti-herói nos Romances Realistas/Naturalistas Luso-brasileiros

Adriano Portela[1]
Marlene Holzhausen[2]
Márcio Muniz[3]

 

            O Cristianismo se imbricou culturalmente com o mundo ocidental, graças a sua entrada nas estruturas do Império Romano, a qual chegou ao seu ponto máximo em 380, quando se tornou a religião oficial do Império. Esse imbricamento cultural se manifesta na literatura produzida no Ocidente, na qual estão presentes vestígios do aparato religioso cristão, que vão desde o recurso à Bíblia e aos dogmas à inclusão de personagens religiosos, inclusive em funções eclesiásticas.

            Na literatura luso-brasileira, só entre os romances, encontramos inúmeros casos da presença cristã na literatura. Alguns escreveram seus textos literários à luz de textos bíblicos, como Machado de Assis em Esaú e Jacó, em que conta a história de dois irmãos aludindo claramente ao texto bíblico de Esaú e Jacó. Também Herberto Sales realizou uma paráfrase com o texto bíblico em sua obra O fruto do vosso ventre. Outros se dedicaram à reconstrução do texto bíblico, como é o caso de Eça em A Relíquia, cujo terceiro capítulo se refere ao sonho em que Teodorico vivencia a Paixão de Cristo, reinventando o evangelho. Saramago também reescreveu o evangelho em O Evangelho Segundo Jesus Cristo e reescreveu o Primeiro Testamento em Caim, no qual inocenta Caim do assassinato de seu irmão Abel. Mas há ainda os que se dedicaram à escrita de personagens eclesiásticos, como Herculano em Eurico, o presbítero, ou Bernardo Guimarães em O Seminarista.

            Neste artigo, analisaremos esta última perspectiva de aproveitamento do Cristianismo pela Literatura: a escrita sobre figuras do cristianismo, em particular os sacerdotes. Buscaremos analisar a construção dos personagens eclesiásticos protagonistas nos romances O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, e O Missionário, de Inglês de Sousa, pertencentes respectivamente ao Realismo/Naturalismo português e brasileiro, à luz dos conceitos de heroi e anti-heroi.

Analisada essa construção do personagem, buscaremos ver que subversão os anti-herois eclesiásticos operavam, uma vez que os anti-herois surgem como indagação aos valores dominantes. Por fim, com a ajuda do Novo Historicismo, que estuda o texto como prática social, entenderemos a razão de ser dessa subversão, através do contexto sócio-histórico originador dos romances.

O personagem padre como anti-heroi

À tarefa de construção de personagens, a Teoria Literária denomina convencionalização que, segundo CÂNDIDO (2011, p. 75), é processo de seleção dos traços que comporão os personagens, de modo que eles se enquadrem dentro do projeto estético em que se insere o romance. De acordo com o autor, “a natureza da personagem depende em parte da concepção que preside o romance e das intenções do romancista” (CÂNDIDO 2011, p. 73).

O personagem padre se configura como o que Forster (1949) chama de personagem tipo, isto é, um personagem identificado pela profissão, pela classe social ou pelo comportamento, através de um traço comum a todos os indivíduos duma categoria. Desse modo, podemos levantar a pergunta sobre quais os traços comuns aos padres protagonistas dos romances foram selecionados na convencionalização realizada pelos autores realistas/naturalistas luso-brasileiros.

Em O Crime do Padre Amaro, o Padre Amaro Vieira é um jovem sacerdote enviado pelo Bispo de Leiria para paroquiar a Igreja da Sé de Leiria, que estava vacante após o falecimento de Pe. José Miguéis. Em Leiria, Padre Amaro se reencontra com o Côn. Dias, seu Padre-Mestre de Moral no seminário, que vivia em concubinato com a Sra. São-Joaneira. Padre Amaro hospeda-se em casa de São-Joaneira e inicia um relacionamento amoroso com Amélia, filha de São-Joaneira. Amélia engravida de Padre Amaro que, preocupado com o seu futuro, esconde a gravidez e lhe encaminha para o parto com uma “tecedeira de anjos”. Contudo, Amélia morre no parto e a criança também, e Padre Amaro consegue a sua transferência através de sua amizade política com a Condessa de Ribamar, para continuar a sua vida sacerdotal como se nada houvesse acontecido.

Em O Missionário, Padre Antonio de Morais também é um sacerdote jovem enviado como vigário de Silves, que estava vacante após o falecimento de Padre José, “que passava meses nos lagos, tocando violando e namorando as mulatas e caboclas dos arredores” (SOUSA, 1987, p. 15). Numa viagem missionária à Mundurucânia, empreendida como resposta ao descrédito dos cidadãos de Silves e como busca de prestígio social, o Padre Antonio de Morais conhece e vive um relacionamento amoroso com Clarinha, filha de Benedita com Padre João da Mata, falecido Vigário de Maués. Diante do descobrimento em Silves de sua sobrevivência à selva, Padre Antonio de Morais deixa Clarinha escondida num sítio de Tucunduva, até poder escondê-la num sítio em Silves, e resolve voltar a Silves como grande missionário em companhia de João Pimenta, avô de Clarinha, um legítimo índio taxaua. Padre Antonio de Morais sonha com a sua chega a Silves cheio de glória e de prestígio, imaginando uma prebenda inteira no cabido da Sé de Belém, dada por Dom Antônio de Macedo Costa, ou uma mitra episcopal numa diocese do Sul, dada pelo Imperador Dom Pedro II.

Desse modo, convencionalização de ambos os personagens protagonistas – Padres Amaro Vieira e Antonio de Morais – contem traços comuns a estes como a ambição, a infidelidade à disciplina do celibato e a hipocrisia diante da sociedade. Esses traços comuns escolhidos tem a natureza de contra-valores, o que faz os personagens protagonistas serem caracterizados como anti-herois.

O estatuto do heroi e do anti-heroi

Para compreendermos o estatuto do anti-heroi, é preciso compreendermos antes o estatuto do heroi. A figura do heroi aparece na literatura através das narrativas homéricas, nas quais encontramos figuras como Aquiles e Homero, personagens de feitos extraordinários e caracterizados pela força, virtude e honra. Nesse sentido, a concepção de herói foi legada à cultura ocidental a partir da mitologia grega, na qual a palavra heros (nobre, semideus) definia o filho de um (a) deus (a) um (a) mortal (Cf. ARANTES, 2008, p. 4). Desse modo, os heróis são caracterizados como quase-deuses, realizando feitos extraordinários, não obstante a fragilidade de sua condição humana. Por isso, “Sua figura exponencial permitirá, ao menos idealmente, que a fragilidade humana seja superada na forma de conquistas alcançadas ou desejos satisfeitos, para a realização do povo de onde emerge”. (ARANTES, 2008, p. 8). Ele expressa a coletividade, através de sua excelência física, psicológica e moral.

            O conceito de anti-heroi refere-se primeiramente ao antagonista, personagem que se opõe ao protagonista da narrativa, que geralmente é caracterizado como heroi. Todavia, com a ambiguidade dos herois modernos, tornou-se difícil distingui-los da figura do anti-heroi. Por isso, o conceito de anti-heroi se estendeu para significar o protagonista de uma narrativa, caracterizado por traços controversos, em relação herói clássico.

            A alteração do conceito de heroi não se realizou de um modo automático; ela é fruto de um processo paulatino “que refletiu a transformação do próprio homem na sociedade” (ARANTES, 2008, p. 1). Era preciso um tipo de heroi que correspondesse ao enfado do indivíduo em relação aos valores dominantes. Por isso, ARANTES (2008) vê no Satyricon de Petrônio, os vestígios mais remotos do anti-heroi, uma vez que “Petrônio escreveu [este livro] com o intuito de ridicularizar a corte do imperador e a alta sociedade romana [no tempo de Nero]” (ARANTES, 2008, p. 44). Nos tempos modernos, ARANTES (2008) identifica os vestígios do anti-heroi nos romances picarescos da Espanha, cujos personagens incompatíveis com os herois dos romances de cavalaria que refletiam os valores da Monarquia espanhola e da Igreja Católica. É desse tempo o Dom Quixote de Miguel de Cervantes, que é considerado por LUCKÁS (1999, p. 99) o primeiro romance da literatura ocidental e que também contestou os romances de cavalaria.

Lukács (2000), em A teoria do romance, definiu o herói moderno como heroi problemático, porque não está concluído, nem é perfeito, mas está em processo de construção, geralmente ao sabor de impasses com a realidade de que participa. O herói problemático exprime afirma a sua subjetividade, muitas vezes discordes do mundo, diferente do heroi clássico que é perfeito, em consonância com a sociedade em que está inserido.

            BAKTHIN (2010) sustenta que foi o surgimento do romance que mudou a representação literária, em contraposição à representação literária sustentada pelo gênero épico da Grécia clássica. De acordo com o autor russo, a epopeia poussui três características distintivas: o passado absoluto, a lenda nacional e o isolamento do da contemporaneidade. “O mundo da epopeia é o passado heroico nacional, é o mundo das ‘origens’ e dos ‘fastígios’ da história nacional, o mundo dos pais e ancestrais, o mundo dos ‘primeiros’ e dos ‘melhores’. […] A referência e a participação do mundo representado no passado é o traço constitutivo formal do gênero épico” (BAKHTIN, 2010, p. 405).

            O passado absoluto do mundo épico é considerado a fonte de bondade para o futuro e o seu distanciamento temporal torna-o “inacessível à experiência individual e não admite pontos de vista e apreciações individuais” (BAKHTIN, 2010, p. 408). Desse modo, ele exclui a possibilidade de modificação porque é perfeito, absoluto. “Não se pode ser ‘grande’ no seu tempo. Atribuir grandeza é sempre tarefa da posteridade, para a qual elas serão do passado […] tornar-se-ão objeto de memória, e não um objeto de visão e de contatos vivos” (BAKHTIN, 2010, p. 410).

            O gênero romanesco, contudo, caracteriza-se pelo tratamento da vida atual, do cotidiano vulgar, até então próprios dos gêneros inferiores, mas sobretudo da “criação cômica popular”. Por um lado, essa aproximação permitiu ao artista tratar de si próprio, dos seus contemporâneos e do seu tempo com irreverência; por outro, permitiu-lhe atualizar o “passado absoluto” dos deuses e herois, com o riso próprio da irreverência. “O riso destrói o temor e a veneração para com o objeto e com o mundo, coloca-o em contato familiar e, com isso, prepara-o para uma investigação absolutamente livre” (BAKHTIN, 2010, p. 413-414).

            Essa mudança temporal empreendida pelo romance determina também uma mudança na representação literária. Passa-se a representar um mundo não acabado, porque o tempo que é objeto do gênero romanesco é o presente e não o passado. Desse modo, “todo objeto de representação literária, perde aquele caráter acabado, aquele desesperador aspecto de “pronto” e imutável, inerente ao mundo épico do ‘passado absoluto’”. (BAKHTIN, 2010, p. 419). Entre esses objetos de representação está o próprio ser humano, que passou a ser representado em suas disparidades e lacunas. Assim, “o homem deixou de coincidir consigo mesmo e, portanto, também o enredo deixou de revelar o homem por inteiro” (BAKHTIN, 2010, p. 424). A representação do heroi segue esta mesma lógica da nova representação literária.

            Percebemos essa forma de representação literária nos romances que corpus de nossa pesquisa. Em O Crime do Padre Amaro, os padres da Diocese de Leiria, e não apenas Amaro, estão longe de serem pessoas irrepreensíveis: José Miguéis, falecido pároco da Sé, era o comilão dos comilões; Padre Gusmão, cheio de lábia; Cônego Dias vivia opulentamente e tinha um caso com São-Joaneira; o Coadjutor da Sé era uma “criatura servil e calada” (QUEIRÓS, 2004, p. 13).

Em o Missionário, também não é só Padre Antonio de Morais que é apresentado como imperfeito: Padre João da Mata, falecido vigário de Maués, tinha um caso com a índia Benedita; Padre José, falecido vigário de Silves, “passava meses nos lagos, tocando violão e namorando as mulatas e as caboclas dos arredores” (SOUSA, 1987, p. 15) e “caloteava ao Costa e Silva e ao Mendes da Fonseca” (SOUSA, 1987, p. 15). Em ambos os romances, a descrição dos personagens padres, inclusive os protagonistas, é evidente, não coincide com os textos hagiográficos.

O anti-heroismo como subversão

            Na perspectiva apontada por BAKHTIN (2010) e LUKÁCS (2000), os herois estão mais próximos da dimensão humana que divina, a ponto de se caracterizarem como anti-herois [clássicos]. Todavia, sua imperfeição não significa de modo algum ausência de virtudes; “esses personagens não são totalmente “fracassos”, nem estão desprovidos de coragem; simplesmente chamam a atenção por suas características ajudarem a subverter, esvaziar e contestar a imagem de ideal” (BROMBERT, 2004, p. 19).

         Se os herois confirmavam as práticas sociais dominantes, os anti-herois as contestam, porque a sua inadequação a essas práticas colocam em xeque os valores inabaláveis. Essa sua dimensão subversiva faz com que o anti-heroi seja reprovado, marginalizado e mal visto socialmente (cf. BROMBERT 2004, p. 18), diferentemente do herói clássico que é aclamado por representar os ideais dominantes da sociedade à qual ele está ligado.

De acordo com ARANTES (2008, p. 27), Köthe (1987, p. 23) identifica dois tipos de anti-herois. Um distinto do heroi épico por apresentar um caráter frágil da condição humana e por isso desprovido das virtudes próprias do heroi clássico. “É um personagem dominado pelo meio, pelas circunstâncias e situações vividas, o que o torna incapaz de superar conflitos sociais ou psicológicos” (ARANTES 2008, p. 27). E outro, distinto do heroi épico por causa da “ruptura com os padrões morais ou éticos-sociais predominantes de uma época. O sujeito não se adequa aos padrões vigentes na sociedade, vistos por ele como injustos ou hipócritas e, por isso, repousa à margem desta” (ARANTES 2008, p. 27).

Em O Crime do Padre Amaro e em O Missionário, por serem romances naturalistas/realistas, está presente a influência do meio sobre as personagens e a condição humana destes, como queria ressaltar o cientificismo. Padre Amaro foi conduzido à vida sacerdotal pela vontade da Marquesa de Alegros (cf. QUEIRÓS, 2004, p. 23) e foi por causa da convivência na casa da própria Marquesa que Amaro se acostumou desde cedo a uma vida pomposa. E o seu gosto pelas mulheres vinham desde a adolescência, como era próprio dos rapazes sentir (cf. QUEIRÓS, 2004, p. 24-25).

Em O Missionário, Padre Antonio de Morais, quando criança, era o mais peralta dos irmãos. Tanto que, já no seminário – onde entrara por vontade do padrinho – “seu espírito indômito e a meio selvagem” e “as rebeldias bruscas e inesperadas” fizeram-lhe merecer palmatoadas do padre reitor. “Apanhava indigestões de queijo-do-reino e de bananas-da terra, ingeridas às meias dúzias, às escondidas, na latrina, para evitar a censura do confessor” (cf. SANTOS, 1987, p. 28). Todos estes costumes de sua vida na fazenda natal.

Mas também encontramos nestes personagens a ruptura com os padrões morais. Padre Antonio de Morais, nos estudos, se dedicara à teologia entre a dúvida e a contradição, sempre tendendo aos pensamentos contrários à doutrina católica (cf. SANTOS, 1987, p. 29-35). Quando retorna a Silves, escolhe permanecer com Clarinha, em detrimento da disciplina do celibato, mantendo a mameluca escondida num sítio da Tucunduva. Da mesma forma, Padre Amaro escolhe permanecer com Amélia, sendo indiferente à disciplina do celibato eclesiástico, contra a qual ele até elabora uma teologia heterodoxa: “O seu amor era pois uma infração canônica, não pecado da alma: podia desagradar ao senhor Chantre, não a Deus: Seria legitimo num sacerdócio de regra mais humana”. (QUEIRÓS, 2004, p. 87)

Desse modo, os personagens eclesiásticos dos romances de Eça de Queirós e Inglês de Sousa são anti-herois que contestam a disciplina do celibato eclesiástico, demonstrando a condição humana dos sacerdotes e os seus conflitos internos com a doutrina católica. A estética naturalista/realista, calcada no positivismo e não poderia aceitar um preceito religioso que, ao seu ver, fosse uma infração contra a natureza humana, nem tampouco poderia aceitar modelos indiferentes à realidade.

O contexto sócio-histórico e literário dos romances realistas/naturalistas

            A subversão contida no estatuto do anti-heroi está associada ao combate contra o poder dominante, haja vista que “O conceito de herói está estreitamente ligado aos códigos culturais, éticos e ideológicos, dominantes numa determinada época histórica e numa determinada sociedade” (SILVA 1974, p. 30).

Na Grécia, os heróis clássicos estavam vinculados à aristocracia grega, como recorda a própria etimologia da palavra heros que, além de semideus, significa também nobre. Os herois são os nobres, por isso são caracterizados como tendo areté (virtude). Eles são os melhores (aristoi) e pertencem à aristocracia (governo dos melhores). E sua excelência está garantida desde as origens, porque estão sempre ligadas a algum deus.

Devido a isso, não se encontram, nas epopéias homéricas, heróis que tenham origem humilde ou que representem o povo, a camada social menos favorecida. Isso se explica uma vez que a sociedade em que Homero viveu apresentava uma classe de indivíduos organizados e armados que dominava a maioria, desorganizada e desarmada, consolidando o poder, as terras e as riquezas em suas mãos. (ARANTES, 2008, p. 18)

As narrativas homéricas deixam claro que na sociedade grega o poder se concentrava nas mãos da aristocracia e que os heróis eram representantes dos seus valores. Não é sem razão que os aristocratas eram o público ao qual se destinavam os épicos e que se identificava com os heróis clássicos.

A abordagem novo historicista do texto literário nos permite acessar esse embate de poder nos herois e anti-herois. O Novo Historicismo, surgido no decênio de 1980 nos Estados Unidos, busca compreender os textos a partir do contexto sócio-histórico em que surgiram, por saber que neles estão engastadas as dominantes de poder operantes na época do autor. Greenblatt, um dos fundadores do movimento novo historicista, afirma que uma obra de arte pode ser analisada numa perspectiva de encantamento, que é o poder do objeto artístico fisgar o espectador através de sua transmissão de beleza, e ressonância, que é o poder do objeto artístico de evocar o contexto cultural do qual surgiu. Optaremos por realizar uma abordagem novo historicista com ênfase na perspectiva da ressonância.

Os anti-herois, e de modo particular os anti-herois padres do Realismo/Naturalismo, podem nos fazer acessar o complexo cultural em que nasceram. No Ocidente, habitualmente a Igreja representa uma das grandes forças sociais, por isso, o clero sempre pertenceu à classe dominante. É interessante notar que história registra momentos de harmonia entre a Igreja e o Estado, em que um fazia o outro; mas também momentos de desequilíbrio, ora a Igreja querendo suplantar o Estado, ora o Estado querendo suplantar a Igreja.

O Oitocentos em Portugal e também no Brasil é caracterizado pela tensão entre a Igreja e o Estado, que desejava restringir o campo de ação da Igreja. Portugal e Brasil gozavam do legado pombalino na relação com a Igreja, cujo símbolo foi a expulsão dos jesuítas de Portugal e de suas Colônias, em 1759. A Revolução Francesa (1789) inspirou em Portugal o estabelecimento de um novo regime, para o qual a interferência da Igreja em assuntos como o casamento, a vida familiar, a economia e a política era vista como anacrônica e, portanto, como um empecilho. CATROGA (1988) elenca alguns pontos de tensão como a separação entre Igreja do Estado, o celibato eclesiástico e a confissão auricular.

No Brasil, há também o registro das campanhas políticas dos padres regalistas na Câmara de Deputados, liderados pelo Pe. Antonio Diogo Feijó, apresentaram projetos sobre o casamento civil, o celibato e o caixa eclesiástico, que tinham como ideário filosófico a autonomia e a precedência do Estado em relação à Igreja.

Naquele século, a Igreja reagiu às contestações modernizantes em 1846, na Qui Pluribus de Pio IX, e, em 1864, na encíclica Syllabus. O Concílio Vaticano I (1869-1870), que embora não tenha chegado a ser concluído, proclamou o dogma da infalibilidade papal, foi outro passo de reação à Igreja. A postura de defesa adotada pela Igreja recebeu o nome de ultramontanismo, termo que designa uma adesão irrestrita ao Papa.

Por trás do modo de se relacionar do Estado em relação à Igreja, estão as ideias iluministas e o positivismo que gerou em todo o mundo uma postura anticlericalista, identificada muitas vezes com a postura da maçonaria. Os autores do Realismo/Naturalismo, estética literária em que estão inseridos os romances O Crime do Padre Amaro e O Missionário, serviram-se justamente do positivismo para realizar a sua criação literária, por isso, o mesmo modo de se relacionar com a Igreja está presente nos romances.

Esse contexto está bem expresso nas personagens João Eduardo, Gustavo e Dr. Gouveia, de O Crime do Padre Amaro, e Chico Fidêncio, de O Missionário. Todos apresentam traços de positivismo e anticlericalismo e suas críticas aos padres protagonistas acabaram por ser verdadeiras: Padre Amaro é um fariseu dissimulado e Padre Antonio de Morais não era capaz da mesma grandeza evangelizadora que os primeiros missionários. Essa desqualificação do clero perante os positivistas foi uma das estratégias, ao lado de tantas outras, utilizada pelo anticlericalismo no jogo de poder com a Igreja.

            O foco dessa desqualificação está centrado no ataque ao celibato. Anti-herois caracterizados pela infidelidade à disciplina do celibato, como são os personagens padres, estão a serviço de uma dupla subversão: ao celibato e ao poder moral da Igreja. A subversão à disciplina do celibato porque é considerada uma lei antinatural. No romance de Eça, Dr. Gouveia defini-o como “a supressão violenta dos sentimentos mais naturais” (QUEIRÓS, 2004, p. 260). Ao tempo da publicação de O Crime do Padre Amaro e de O Missionário, havia transitado no Brasil e em Portugal projetos de lei para a dispensa do celibato aos padres. Expressão de contexto são as diversas publicações em torno do tema do celibato:

Em 1861 encontramos a saída da tradução de um texto de Michelet, A Mulher, o Padre e a Família, e em 1864 reeditou-se a obra de José Manuel da Veiga [O Celibato Clerical, Memória Que Serviu de Fundamento a Uma These dos Actos Grandes], sinal de que, depois do aprofundamento do drama psicológico e metafísico decorrente do celibato feito por Alexandre Herculano em O Monge de Cister (1841) e em Eurico, o Presbítero (1845), o problema voltava a ganhar acuidade. (CATROGA, 1988, p. 221)

Em segundo lugar, tais anti-herois constituem uma subversão do poder moral da Igreja, porque minando a moralidade do clero os anticlericalistas teriam mais possibilidades de restringir a intervenção social da Igreja, para agir de maneira mais independente, orientava os ideais imanados da Revolução Francesa. A personagem João Eduardo, que representa os ideais de então, é o “mocinho” ultrajado, enquanto Padre Amaro, que representa o poder moral da Igreja, é o mau caráter dissimulado. Nestas representações está inscrito o jogo de poder oitocentista, que nos faz entender a função subversiva da representação anti-heroica da personagem padre.

Considerações finais

A tradição literária ocidental herdou das epopeias gregas o estatuto do herói, personagem representado a partir de virtudes que geralmente estão associadas aos valores das classes dominantes. Contudo, essa mesma tradição literária viu surgir nos romances picarescos espanhóis e em Dom Quixote o estatuto do anti-heroi, personagem representado com traços distintos dos valores dominantes, como forma de subversão dos sistemas sociais vigentes.

Observamos como os personagens padres são representados como anti-herois nos romances naturalistas/realistas, mediante as faltas cometidas contra o celibato pelos protagonistas dos romances O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, e O Missionário, de Inglês Souza. Essa representação do padre como anti-heroi visava uma dupla subversão: à disciplina do celibato, considerada contra a natureza pelos postulados deterministas, e ao poder moral da Igreja, que era considerada um empecilho diante dos avanços sociais que desejava realiza os anticlericalistas, amparados pelo ideário imanado da Revolução Francesa de queda do Antigo Regime. Desse modo, vimos como a representação do padre no Naturalismo/Realismo detém o jogo de poder da sociedade oitocentista em Portugal e no Brasil.

REFERÊNCIAS

ARANTES, Aldinéia Cardoso. O Estatuto do Anti-Herói: Estudo da Origem e Representação, em Análise Crítica do Satyricon, de Petrônio e Dom Quixote, de Cervantes. 2008. 107 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Universidade Estadual de Maringá, Maringá.

BAKHTIN, MIKHAIL. Questões de Literatura e de Estética: A Teoria do Romance. 6ª edição. São Paulo: Hucitec, 2010.

BROMBERT, Victor. Em louvor de anti-heróis. São Paulo: Ateliê, 2004.

CÂNDIDO, Antônio et ali. A Personagem de Ficção. 12ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2011.

CATROGA, Fernando. O Laicismo e a Questão Religiosa em Portugal (1865-1911). Análise Social, Vol. XXIV (100), 1988 (1.º), p. 211-273. Disponível em: www.analisesocial.ics.ul.pt. Acesso em 20 setembro 2010.

FORSTER, Edward Morgan. Aspects of the Novel. London: Edward Arnold, 1949.

LUKACS, Georg. A teoria do romance. São Paulo: Editora 34, 2000.

______________. O romance como epopéia burguesa. São Paulo: Ad hominem, 1999.

QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. São Paulo: Martin Claret, 2004.

SILVA, V. M. Aguiar e. A Estrutura do Romance (sep. de Teoria da Literatura), Livraria Almedina: Coimbra, 1974.

SOUSA, Inglês. O Missionário. São Paulo: Editora Ática, 1987.

[1] Aluno do Mestrado em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia. E-mail: adrportela@hotmail.com.

[2] Professora Orientadora.

[3] Professora Co-orientador.

* Artigo apresentado no 3º Seminário de Português como Língua Estrangeira da UESC e 2º Jornada Regional de Linguística e Letras, realizados nos dias 13 e 14 de dezembro de 2012.

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