Estudos Literários

O Padre sob o Estereótipo da Imoralidade

Adriano Portela

 

Resumo

O Padre é comumente representado na literatura oitocentista luso-brasileira como anti-heroi, isto é, aquela personagem desprovida de valores e de virtudes que caracterizam o herói clássico. Diversos estudos já apontaram uma identidade deteriorada do padre na obra de Alexandre Herculano (TRINDADE, 1960), Camilo Castelo Branco (MARINHO 2005), Aluísio de Azevedo (SANTOS 2010) e também na literatura seiscentista de Gil Vicente (BERARDINELLI, 2002). Padre Amaro Vieira, em O Crime do Padre Amaro, de Eça; Cônego Diogo, em O Mulato, de Aluísio de Azevedo; e Padre Antônio de Morais, em O Missionário, de Inglês de Sousa, são exemplos dessa representação anti-heroica do padre na literatura realista/naturalista. Está presente na caracterização de ambas personagens a ambição (marcada na aspiração ao episcopado) e a incontinência (localizada nos relacionamentos amorosos ilícitos), como também outros contra-valores. Analisaremos o romance O Crime do Padre Amaro, buscando demonstrar a estratégia utilizada por Eça de Queirós na caracterização das personagens eclesiásticas, especificamente Padre Amaro Vieira, sobretudo no que toca à (in) observância da disciplina do celibato eclesiástico. Desse modo, revelaremos que o estereótipo de padre do texto eciano, discriminador do padre incontinente, apoia-se na moral cristã, operando a manutenção da ortodoxia católica. Para tal, será de importância fundamental o conceito de estereótipo, conforme pensado por Homi Bhabha (1998) e Marcos Pereira (2002), que o entenderam como um modo de justificação do status quo; bem como a crítica operada por Antônio José Saraiva sobre a as ideias de Eça de Queirós (SARAIVA, 2000), e Antonio Candido, acerca a presença de valores éticos tradicionais nos romances do escritor português (CANDIDO, 1971).

Palavras-chave: padre – celibato – estereótipo – moral cristã – realismo/naturalismo

Introdução

O Padre é comumente representado na literatura oitocentista luso-brasileira como anti-heroi, isto é, aquele personagem desprovido dos valores e das virtudes que caracterizam o herói clássico. Padre Amaro Vieira, em O Crime do Padre Amaro, de Eça, e, Padre Antonio de Morais, em O Missionário, de Inglês de Sousa, são exemplos dessa representação anti-heroica. Está presente na caracterização de ambos os personagens a ambição (marcada na aspiração ao episcopado) e a incontinência (localizada nos relacionamentos amorosos ilícitos), como também outros contra-valores.

Buscaremos demonstrar a estratégia utilizada por Eça na caracterização dos personagens eclesiásticos, especificamente Padres Amaro Vieira, no romance O Crime do Padre Amaro, sobretudo no que toca à observância disciplina do celibato eclesiástico. Para tal, serviremo-nos do conceito de estereótipo, conforme pensado por Marcos Pereira (2002) e Homi Bhabha (1998), assim como dos textos literários estudados, recorrendo às contribuições já realizadas pela fortuna crítica do autor em questão.

O estereótipo e a sua função

PEREIRA (2002) entende os estereótipos como a informação compartilhada sobre determinados grupos sociais (PEREIRA, 2002, p. 52). Segundo o autor, “Leyens, Yzerbyt e Schadron consideraram os estereótipos como crenças compartilhadas sobre os atributos pessoais, especialmente traços de personalidade, como também sobre os comportamentos de um grupo de pessoas”[1]. (PEREIRA, 2002, p. 46)

            A partir dos estudos de Lippman, PEREIRA (2002, p. 33) acredita que os estereótipos nascem da maneira de raciocinar dos seres humanos, que primeiro definem o mundo mediante os códigos que a cultura lhes oferece para interpretá-lo e só depois o observam. Por essa, o estereótipo traria em si já uma função conservadora, defendendo os códigos culturais e as posições sociais do mundo circundante contra os grupos sociais que lhes ameacem. “Desta forma, os estereótipos deveriam ser entendidos como ferramentas para a apresentação de justificativas racionalizadas para as ações perpetradas contra os membros de vários grupos sociais” (PEREIRA, 2002, p. 49). PEREIRA (2002) retoma as três possibilidades apontadas por Jost e Banaji em que os estereótipos servem como instrumentos de racionalização:

Em um nível mais individual, os estereótipos servem como justificativas para o próprio eu, permitindo que o indivíduo lide melhor e de uma forma mais confortável com as suas próprias atitudes preconceituosas e excludentes. Em um nível mais contextual, os estereótipos também cumpririam uma função de justificar as ações grupais, enquanto em um plano geral os estereótipos cumpririam a função de justificar o sistema, oferecendo os recursos cognitivos que permitiam a manutenção da estrutura atual da sociedade em que os percebedores se situam. (PEREIRA, 2002, p. 49-50)

            As considerações acerca do estereótipo feitas por PEREIRA (2002) na Psicologia Social vão ao encontro daquelas outras feitas por BHABHA (1998) no campo dos Estudos Culturais. Para o autor indiano, que estava preocupado em abordar o discurso colonial (isto é, da relação colonizador/colonizado) o estereótipo está justamente associado a essa necessidade de manter o status quo, demarcando aquele jogo em que um (o colonizador) sempre estará inferior a outro (o colonizado) de qualquer ponto que se analise.

            No pensamento de BHABHA (1998), o estereótipo funciona a partir da lógica da ambivalência entre o que já está dito e o que precisa ser reafirmado, “é uma forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que está sempre “no lugar”, já conhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido” (BHABHA, 1998, p. 105), como se o que foi dito (a preguiça do baiano, por exemplo) não pudesse ser comprovado jamais no discurso. É justamente “a força da ambivalência que dá ao estereótipo colonial sua validade” (BHABHA, 1998, p. 105-106), garantindo a sua atualização em circunstâncias diversas, embasando seus mecanismos de discriminação e produzindo o efeito de verdade probabilística e predictabilidade que tem o estereótipo, buscando manter sempre a mesma ordem das coisas.

            BHABHA, contudo, acrescenta uma colaboração ao conceito de estereótipo na medida em que o aproxima da noção psicanalítica de fetiche, que é um mecanismo de recusa da diferença do outro (a falta de pênis na mãe), deslocando-a para algo que a mascare (fetiche). “Segundo Freud, o fetichista recusa a realidade da falta de pênis na mãe, pois aceitar esta falta implica em reconhecer que sua própria possessão de um pênis está ameaçada. Ele encontra, então, um substituto ao pênis que falta à mãe: o fetiche” (RIVERA, 1997).

            Na visão de BHABHA (1998), o estereótipo estaria associado ao fetiche porque mascara a falta que provoca a diferença (sexual/racial/cultural), tentando restaurar a presença original (superioridade sexual, pureza racial, prioridade cultural) mediante a fixação em objeto (no caso do estereótipo, trata-se de uma crença múltipla) que possa mascará-la. Por isso,

o fetichismo é sempre um “jogo” ou vacilação entre a afirmação arcaica de totalidade/similaridade – em termos freudianos: “Todos os homens tem pênis”; em nossos termos: “Todos os homens tem a mesma pele/raça/cultura”- e a ansiedade associada com a falta e a diferença – ainda, para Freud: “Alguns não tem pênis”; para nós: “Alguns não tem a mesma pele/raça/cultura.” (BHABHA, 1998, p. 116)

É justamente na instauração de um mito de origem (todos os homens são brancos, por exemplo) que se amparam as práticas discriminatórias do estereótipo como fetiche, porque, rejeitando a falta do Outro em relação ao mito original, discrimina o diferente mediante o estereótipo (todos os homens não-brancos não são bons), para mascarar aquela falta que ameaça a sua identidade. Desse modo, o estereótipo como fetiche opera uma simplificação da identidade, reduzindo o Outro a um conjunto limitado de características, e “dá acesso a uma ‘identidade’ baseada tanto na dominação e no prazer quanto na ansiedade e na defesa, pois é uma forma de crença múltipla e contraditória em seu reconhecimento da diferença e recusa da mesma” (BHABHA, 1998, p. 116).

            A ansiedade e defesa de que fala BHABHA advém do hibridismo do estereótipo como fetiche, haja vista que a recusa da diferença do Outro pressupõe o reconhecimento da existência daquilo que é recusado, e “para enfrentar esse hibridismo e essa heterogeneidade, o estereótipo reage como a mímica, reforçando-se, criando ‘uma cadeia contínua e repetitiva de outros estereótipos’”. (SOUZA, 2004, P. 23) Sem isso, estaria ameaçada aquela dominação e aquele prazer que, segundo BHABHA, também caracteriza a identidade gerada pelo discurso colonial.

O Padre sob o estereótipo da imoralidade

            A literatura naturalista/realista luso-brasileira tratou de representar o padre a partir da marca do estigma e do estereótipo. Em Padres, Beatas e Devotos: Figuras do Anticlericalismo na Literatura Naturalista Brasileira, servindo-se do conceito de estigma de Erwin Goffman (1981), Cristian José Oliveira Santos já ressaltou como os padres dos romances O Mulato, de Aluísio de Azevedo, e Morbus: romance patológico, de Farias Neves Sobrinho, são representados a partir de corpos estigmatizados pela gula e incontinência sexual, por exemplo. Ele identifica nessa representação as marcas do pensamento anticlerical que foi adotado pela estética naturalista/realista.

            Todavia, MARINHO (2005), observa como já na obra de Camilo Castelo Branco há uma presença abundante de padres e frades “malditos, corruptos e interesseiros”, muitos deles com filhos e companheiras. Estudando um corpus mais antigo ainda, BERARDINELLI (2002) ressalta a crítica de Gil Vicente aos clérigos, entre as quais se encontra a referência à incontinência sexual. Por isso, podemos concluir que a caracterização do padre sob o estereótipo da imoralidade não se restringe à literatura naturalista/realista.

            É nosso interesse alinharmos a análise da representação do padre no romance O Crime do Padre Amaro, de Eça, ao conceito de estereótipo, tal qual o apresentamos a partir de BHABHA (1998) e PEREIRA (2002). Como BHABHA (1998) salientou, a ansiedade do estereótipo como fetiche faz com que se constitua uma “cadeia contínua e repetitiva de outros estereótipos”. Algo semelhante ao que vemos na representação do padre, que é caracterizada por uma cadeia de estereótipos como a gula, a corrupção, a incontinência, sempre a partir do tropos da imoralidade. Não obstante essa gama de estereótipos, deteremo-nos no aspecto da incontinência sexual, que foi um alvo constante da crítica anticlerical oitocentista, para analisar o discurso que o gera e sustenta.

            Em O Crime do Padre Amaro, Eça de Queirós constrói o protagonista Padre Amaro Vieira com uma moralidade reprovável: ganancioso, dissimulado, incontinente, infanticida, etc.; justamente o contrário do Abade Ferrão, que funciona no enredo como o paradigma de padre para Eça, por isso, ele manifesta o imaginário do autor português. É inclusive de Ferrão que “escutamos” o juízo sobre os atos de Amaro em relação à Amélia. No dizer de Ferrão, “no amor do pároco não havia senão brutalidade e furor bestial… o amor do padre só podia ser uma explosão momentânea do desejo comprimido” (QUEIRÓS, p. 242). Por isso, o abade encarregou-se de revelar à Amélia o que as cartas do padre “continham de hipocrisia, de egoísmo, de retórica e de desejo torpe…” (QUEIRÓS, p. 242)

Queria apenas que, quando a assaltasse a ideia de amaro, se abrigasse logo na ideia de Jesus. Com a força colossal de Satanás, que tem o poder dum Hércules, uma pobre rapariga não pode lutar braço a braço; pode somente refugiar-se na oração quando o sente, e deixá-lo fastigar-se de rugir e espumar em torno desse asilo impenetrável. (QUEIRÓS, p. 242)

            Nas palavras do Abade Ferrão está manifestado um tipo de imaginário cristão que desconfia do eros, tornando o desejo carnal uma expressão da dimensão maligna. Além do Abade Ferrão, o olhar naturalista do narrador sobre os sentimentos de Amaro para com Amélia também nos faz desconfiar de eros, por que lhes restringe à mera pulsão sexual, fácil de ser vista naqueles termos do pessimismo sexual cristão que entende o desejo do outro como indigno, bestial:

Quando [Amaro] percebia a porta do quarto dela entreaberto, ia resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas do paraíso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficara sobre o baú, eram revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo pálido. (QUEIRÓS, p. 56)

E, sentindo entre os braços o corpo dela, apertou-a brutalmente e beijou-a com furor no pescoço. (p. 71)

E cada dia a desejava mais, dum desejo contínuo e tirânico, que aquelas horas escassas não satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher não havia outra!… Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa, mesmo nas fidalgas!… Tinha pieguices, sim, mas era não as tomar a sério, e gozar enquanto era novo! (QUEIRÓS, p. 202)

            Carlos Ceia (1997) demonstra ainda como Amélia e Amaro são assombrados pelo sentimento de culpa cristã, através de seus sonhos. O sonho de Amélia está relacionado à história que ela escutou sobre “um homem que tivera em novo uma grande paixão por uma freira; ela morrera no convento daquele amor infeliz; e ele, de dor e de saudade, fizera-se frade franciscano…” (QUEIRÓS, p. 47). À noite, Amélia sonhou com

a figura do frade franciscano, na sombra do órgão da Sé de Évora. Via os seus olhos profundos reluzirem numa face encovada: e, longe, a freira pálida, nos seus hábitos brancos, encostada ás grades negras do mosteiro, sacudida pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades franciscanos caminhava para o coro: ele ia no fim de todos, curvado, com o capuz sobre o rosto, arrastando as sandálias, enquanto um grande sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados. Então o sonho mudava: era um vasto céu negro, onde duas almas enlaçadas e amantes, com hábitos de convento e um ruído inefável de beijos insaciáveis, giravam, levadas por um vento místico; mas desvaneciam-se como névoas, e na vasta escuridão ela via aparecer um grande coração em carne viva, todo traspassado de espadas, e as gotas de sangue que caíam dele enchiam o céu duma chuva escarlate (QUEIRÓS, p. 47)

            Segundo CEIA (1997), o sonho de Amélia indica “a presença do mais comum símbolo da morte (a cor preta) – a figura do frade [prefiguração de Amaro] aparece ‘na sombra do órgão da Sé de Évora’; a figura da freira [prefiguração de Amélia] está ‘encostada às grades negras do mosteiro’” (CEIA, 1997, p. 141). A consciência de Amélia castiga o seu desejo de realizar o amor por Amaro, na imagem do “grande coração em carne viva, todo traspassado de espadas, e as gotas de sangue que caíam dele enchiam o céu duma chuva escarlate” (QUEIRÓS, p. 47).

            O sonho de Amaro relata perseguição do Diabo a ele e Amélia numa fuga para o céu. “O diabo perseguia-o; ele via-o, com as feições de João Eduardo [ex-namorado de Amélia], soprando e rasgando com os cornos os delicados seios das nuvens” (QUEIRÓS, p. 117). Em determinado momento, ele é alcançado pelo Diabo que os flagra saciando as “concupiscências reprimidas num cantinho do Céu”. Com ele estava o “Padre Eterno” e “legiões de santos e santas”. CEIA (1997, p. 143) faz notar que “Se o tema do romance é o crime… O julgamento do réu Amaro é feito pelo seu próprio inconsciente”. “O Padre Eterno funciona como Autoridade censória: é o superego de Amaro que funciona como guarda, a fim de impedir que o material recalcado surja na consciência. […] Era fundamental que o mecanismo de censura fosse accionado no inconsciente de Amaro, pois a consciência sabe que o desejo libidinoso vai de encontro às regras sociais e morais que trazem castrado o falo dos clérigos”.

            Por esses fragmentos, vemos a atuação imaginário cristão nas personagens do romance de Eça, que serve como que princípio organizador da narrativa. Tal afirmação pode levantar algum estranhamento, se recordarmos as pretensões da Geração de 70 à qual Eça pertencia. A primeira das Conferências do Cassino, proferida por Antero de Quental e cujo título era Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, já expunha o olhar da Geração de 70 sobre o Catolicismo. Entre as causas da decadência peninsular, Antero aponta o Catolicismo tridentino, uma contra-reforma levada a cabo pelos padres jesuítas.

            Na juventude, alimentado pela cultura dos centros urbanos adquirida em Coimbra, Eça tinha pretensões de reformador do tradicionalismo lusitano, daí que no dizer de Antonio Saraiva (2000) ele tenha realizado um inquérito à vida portuguesa, criticando o clero, a aristocracia e a burguesia. Deve-se isso, por certo, ao seu contato com a obra de Michelet, Vitor Hugo, Proudhon, Heine e Nerval, em “que se lhe revela a nova posição do pensamento contemporâneo perante o problema religioso, o social-econômico e perante as grandes questões científicas do momento: a evolução das espécies, a origem das religiões, as civilizações primitivas” (SARAIVA, 2000, p. 60).

Todavia, Antonio Candido (1971) nos faz observar na obra de Eça a existência de uma tensão entre o campo e a cidade, isto é, entre o dito provincialismo português e  aquele urbanismo respirado de outros cantos da Europa, sobretudo da França. Razão pela qual Eça nunca teria chegado a se desprender dos princípios daquela vida social portuguesa que buscava combater. Segundo o autor, “Um dos índices mais seguros para estudar as ligações de Eça de Queirós com os velhos padrões da sua terra é a ética dos seus romances” (CANDIDO, 1971, p. 49). Os romances da maturidade – a saber, A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras – de acordo com a crítica de Candido, representariam a vitória do tradicionalismo provinciano sobre o pensamento cosmopolita e revolucionário abraçado por Eça na juventude.

            Não obstante, a tensão entre campo e cidade estaria presente mesmo nos primeiros romances do autor português, justamente aqueles que poderíamos qualificar como os mais ásperos em relação ao estilo de vida da sociedade portuguesa: O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias. Em O Crime do Padre Amaro, o Dr. Gouveia, personagem-modelo dos ideais oitocentistas, seria ainda um modelo de moralidade, “de uma moralidade que se convencionou ser portuguesa, – severa, inteiriça” (CANDIDO, 1971, p. 50). E o Abade Ferrão, seu modelo de padre, é caracterizado com base nos antigos valores da tradição. “Com efeito, Eça jamais se libertou da velha moral portuguesa, do culto idealizado da honradez aldeã e forte, de um padrão corriqueiro e convencional” (CANDIDO, p. 49).

            Daí pensarmos que são os próprios ideais cristãos que inspiram a crítica de Eça ao clero português na caracterização de Padre Amaro Vieira dos demais padres do romance. Associado ainda aos antigos valores de Portugal, Eça não critica no clero português outra coisa senão a falta daquela moralidade cristã. No que toca à incontinência de Amaro, o que está em jogo é a moral sexual cristã-católica, que também está em jogo n’O Primo Basílio (infidelidade conjugal), e n’Os Maias (incesto). Por essa razão, a estratégia do estereótipo como fetiche seria aplicável à personagem Amaro Vieira. A dualidade “todos os homens tem pênis”/“alguns homens não tem pênis”, poderia ser lida em termos de “todos os homens são castos”/“alguns homens não são castos”, conforme o pessimismo sexual cristão que plasmou um ideal de castidade universal para o Ocidente. Desse modo, a caracterização estereotipada de Padre Amaro seria uma tentativa de rejeitar a postura diferente em relação a esse ideal, afinal de contas o estereótipo é um modo de desacreditar o que se pretende diferente.

Considerações Finais

            Em O Crime do Padre Amaro, Eça de Queirós estabelece uma representação anti-heróica da personagem Padre através da estratégia da estereotipia, como também outros autores estabeleceram, de acordo com os estudos de alguns críticos literários. Essa estereotipia, analisamos aqui como um mecanismo de rejeição do outro, segundo BHABHA (1998) e PEREIRA (2002). Vimos que BHABHA associou a maneira do estereótipo atuar à noção de fetiche utilizada pela psicanálise, para falar da atitude psicológica do ser humano de reconhecer e rejeitar a diferença através de deslocamentos que mascaram a falta de que temos temor.

            Demonstramos como Eça de Queirós transmitiu a sua visão de mundo através do julgamento da personagem Abade Ferrão sobre os atos de Amaro com Amélia, qualificando-os como indignos, a partir da moral cristã. Nesse sentido, a estereotipação do padre Amaro Vieira é um modo de não rejeitar a diferença do padre incontinente diante do ideal cristão de castidade.

Referências

BERARDINELLI, Cleonice. De Clérigos, Cônegos e Frades. In.: Revista Semear nº 8. 2002. Disponível em: http://www.letras.puc-rio.br/unidades&nucleos/catedra/revista/8Sem_03.html. Acesso: 27 fev 2013.

MARINHO, Maria de Fátima. Padres e Frades: de malditos a corruptos. Línguas e Literaturas: Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 2. Série, vol. 22, p. 221-234, 2005.

CANDIDO, Antonio. Entre Campo e Cidade. In.: Tese e Antítese. Coleção Ensaio. Vol. 1, p. 27-56. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971.

CEIA, Carlos. A dialética do Desejo n’O Crime do Padre Amaro. In.: Anais do III Encontro Internacional de Queirosianos. Centro de Estudos Portugueses da FFLCH da USP, 1997.

PEREIRA, Marcos E. Psicologia Social dos Estereótipos. São Paulo: EPU, 2002.

QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. São Paulo: Martin Claret, 2004.

RIVERA, Tania. Fetiche, Subversão do Símbolo. Artigo apresentado no Colóquio Simbolização realizado na Universidade de Brasília em 24 e 25 de março de 1997. Disponível em: http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs19/artigo1913.htm. Acesso: 25 fev 2013.

SANTOS, Cristian Oliveira. Padres, Beatos e Devotos: Figuras do Anticlericalismo na Literatura Naturalista Brasileira. 2010. 407 f. Tese (Doutorado em Literatura e Práticas Sociais) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília.

SARAIVA, António José. As Ideias de Eça de Queirós: Ensaio. Lisboa: Gradiva, 2000.

SOUSA, Inglês. O Missionário. São Paulo: Ática, 1987.

SOUZA, Lynn Mario T. Menezes de. Hibridismo e tradução cultural em Bhabha. In: ABDALA JÚNIOR, Benjamin (org). Margens da cultura: mestiçagem, hibridismo & outras misturas. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004. P. 113-133.

[1] Formatação em negrito e itálico do próprio autor.

* Artigo apresentado no Seminário de Pesquisa Científica (SEPESC) do Instituto de Letras da UFBA, em 25 de março de 2013.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s