Homilética

Pregação na 3ª Noite do Tríduo de Sra. Santana (2012)

Proferida na Igreja Senhora Sant’Ana, em Vila Romana/Tocaia, em 30 de julho de 2012

  

Rev. Padre Danilo, meu amigo-irmão,

Caros irmãos e irmãs, meus saudosos paroquianos,

 

Graça e paz da parte de Deus, nosso Pai e de Jesus Cristo, nosso irmão!

 

            Penso que não é preciso falar da alegria que sinto por estar aqui. Cada oportunidade que tenho de vir à Paróquia Sagrada Família é como um presente de Deus, porque não pode ser outra coisa a possibilidade de ver pessoas a quem amamos.

            Estamos aqui para concluir o Tríduo Preparatório para a Festa de Sant’Ana, cujo tema deste ano é “Queremos ser família como Sant’Ana e Joaquim”. Coube a mim, nesta terceira noite, refletir sobre o sub-tema “De Sant’Ana recebemos o fruto da graça”. Tarefa que cumprirei com a mais profunda satisfação, porque melhor que pregar um santo, é pregar um santo ao qual temos devoção; e assim é Sant’Ana para mim, porque é padroeira dos avós e por causa de seu testemunho familiar.

            O tema da festa é a manifestação de uma aspiração “Queremos ser família como Sant’Ana e Joaquim”, ao passo que o sub-tema é uma afirmação “De Sant’Ana recebemos o fruto da graça”. Já o nome Ana significa “graça”, de acordo com a etimologia hebraica. E o fruto da graça que recebemos de Sant’Ana, sabemos qual é: Maria, a Mãe de nosso Salvador, a quem o anjo dirigiu a suadação divina: “Ave, cheia de Graça!” (Lc 1) Parece-me, contudo, que não basta sabermos que de Sant’Ana recebemos o fruto da graça: é preciso sabermos como recebemos, para que possamos alcançar a nossa aspiração de sermos família como Sant’Ana e Joaquim. O saber como é para aprendermos a imitar, ao passo que o saber que recebemos é para nos alegrarmos!

            A Palavra de Deus, rica como é, irá ajudar a saber como recebemos de Sant’Ana o fruto da graça. O evangelho que nos foi proposto faz parte do capítulo 13 de Mateus, que é o Discurso das Parábolas:

“O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”. Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”.

Aqui estão duas parábolas do Reino: a do grão de mostarda e a do fermento. Ambas falam de realidades pequenas com grande capacidade de crescimento; ambas falam de realidades que reclamam espera. O grão de mostarda é a menor das sementes, mas quando cresce sua árvore se torna maior que as outras. O fermento é usado em pequena porção em relação aos demais ingredientes de uma receita, contudo, é ele quem a faz crescer. Será preciso, entretanto, esperar para ver a receita crescer. O mesmo dizemos da mostarda: é preciso esperar para vê-la se tornar uma grande árvore.

            Penso que aqui podemos depreender de como recebemos o fruto da graça de Sant’Ana. O Proto-Evangelho de Tiago diz que Sant’Ana concebeu Maria em idade avançada. Segundo este evangelho apócrifo, após ter sido censurado pelo sacerdote Rúben por não ter filhos, São Joaquim, marido de Sant’Ana, retirou-se ao deserto para rezar. Avisado por um anjo que Deus havia ouvido suas preces, Joaquim volta para casa e algum tempo depois Sant’Ana ficou grávida de Maria, mãe de Jesus.

            Para a cultura judaica, os filhos são bençãos de Deus, por isso o salmista afirma que “Os filhos são herança do SENHOR, é graça sua o fruto do ventre” (Sl 127,3). Podemos nos lembrar da outra Ana, a mãe do profeta Samuel, que foi ao templo chorar e suplicar diante de Deus porque não tinha filho algum e isso era motivo inclusive de vergonha social (cf. I Sm 2). Por certo, era nessa situação que Sant’Ana e Joaquim se encontravam, a ponto de um sacerdote censurar Joaquim pela falta de filhos.

Na construção de sua família, Sant’Ana e São Joaquim fizeram a experiência das realidades pequenas, mínimas, bem como a experiência da espera. As realidades pequenas são aquelas quase imperceptíveis, discretas, ordinárias (no sentido de cotidianas). Entre estas realidades está o amor, o zelo e Deus, que é cotidiano, discreto e imperceptível, e que com ceteza não faltou aos pais de Nossa Senhora. Fazer a experiência das pequenas realidades significa ter consciência que a vida é construída nos mínimos detalhes, nos pequenos gestos, que parecem irrelevantes, mas que são indispensáveis.

Sant’Ana e São Joaquim também experimentaram a realidade da espera, concebendo uma filha apenas na idade avançada. Por isso, São Metódio diz que, em Sant’Ana, “a natureza não ousou antecipar o germe da graça, mas permaneceu sem dar o próprio fruto até que a graça produzisse o seu” (São Metódio). Sant’Ana e São Joaquim eram herdeiros da mesma esperança que animou Abraão e Sara a esperar um filho na senilidade; a mesma esperança que animou Ana, mãe de Samuel, a esperar um filho em idade avançada; a mesma esperança que animou Jó a esperar que, mesmo na velhice, pudesse reconstruir a sua vida. Experimentar a realidade da espera significa ter consciência de que a vida é construída de pouco em pouco e que tem uma parte que não está em nossas mãos fazer, mas sim Deus, como aconteceu com Sant’Ana e São Joaquim, na concepção de Maria.

De Sant’Ana, o que recebemos já é sabido: Maria, o fruto da graça. Como recebemos, também já é sabido: recebemos através de seu testemunho de cultivo das pequenas realidades e da esperança. Desse modo, quando ela deu por si, crescia o Reino de Deus em seu ventre, com traços de criança feliz.

Como então nos tornaremos família como Sant’Ana e São Joaquim? Semeando o grão de mostarda e usando o fermento, isto é, cultivando as pequenas realidades e esperando em Deus, respondo eu.

Indico aqui algumas pequenas realidades e esperas que devemos cultivar, ao me ver, nestes tempos, para sermos família agradável a Deus como Sant’Ana e São Joaquim:

A primeira pequena realidade é a do amor que se traduz na atenção, cuidado e paciência para com o outro. Os pais e mães que são atentos à vida de seus filhos: gastando tempo na presença deles, interessando-se por sua vida escolar, sendo sensíveis ao que lhes acontece na vida. Os filhos que cuidam da terceira idade dos pais, que tem paciência com as suas limitações físicas. Os irmãos que cuidam uns dos outros, que se fazem amigos, invez de inimigos e competidores.

A segunda pequena realidade é Deus, que devemos inserir na vida familiar desde seu início e a qualquer tempo da vida. Os pais apresentam seus filhos a Deus, na Igreja; que rezam com e pelos seus filhos desde pequenos, que lhes ensinam rezar; que lhes levam para a catequese. Os lares que agradecem o alimento recebido em cada refeição feita. Os filhos que não dispensam a benção de Deus dada por seus pais cotidianamente. Os avós que partilham sua fé com os netos, como deve ter sido Sant’Ana com Jesus. As famílias que se esforçam por ir unidas à Igreja.

A terceira e última pequena realidade é o respeito que devemos ter uns para com os outros e que tem desaparecido dentro da família. Os pais que respeitam as necessidades dos seus filhos; os filhos que respeitam as condições dos pais. Os irmãos que respeitam os pertences e os espaços uns dos outros; os avós que respeitam a autoridade dos pais sobre os filhos e que respeitam o modo de ser dos netos; os netos que respeitam a tradição de seus avós. Os maridos que respeitam a dignidade de suas esposas; as esposas que honram seus maridos e colaboram com eles na tarefa de condução da casa.

As esperas que indico são duas: a espera do tempo de Deus e a espera do tempo dos homens, que devem ser posturas próprias de quem sabe que semeou a semente e de quem fez uso do fermento e que, por isso, necessariamente verá o crescimento do fruto. A espera do tempo dos homens é para que seja conservada a liberdade dos outros e respeitemos o processo de cada um, que as vezes pode ser longo. Sant’Ana e Joaquim esperaram o tempo dos homens, isto é, o tempo deles mesmos, respeitando os seus limites físicos e biológicos… não obstante tivesse o desejo constante da maternidade e paternidade. A espera do tempo de Deus é para que não percamos a esperança e para que não nos esqueçamos que sempre tem algo que não depende da gente e por isso, desprendidos e dóceis aos acontecimentos da vida. Sant’Ana e Joaquim também esperaram o tempo de Deus e acolheram o projeto que Deus revelou em suas vidas.

A construção de uma família é como o cultivo de uma planta: cada gesto, por mais simples que seja, é como o ato cotidiano de irrigar, sem ele, planta não vinga. Mas será preciso esperar o amadurecimento paulatino da família, assim como aguardamos o crescimento silencioso da planta. Que Deus nos ajude nesta tarefa hoje e sempre! Amém!

Pe. Ariano Portela

Padre Formador no Seminário São João Maria Vianney

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