Homilética

Homilia na 3ª Noite do Tríduo de S. João Maria Vianney – 2012

Pregada na Capela Central do Seminário São João Maria Vianney, em 03 de agosto de 2012

 

Caros padres, seminaristas, religiosas e leigos da comunidade externa,

 

Graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e de Jesus Cristo, nosso Salvador!

 

            O subtema desta última noite do tríduo preparatório para a Festa do Cura d’Ars é São João Maria Vianney e o seu amor pela juventude. É preciso dizer que este subtema é bastante pertinente, considerando quem é São João Maria Vianney na vida da Igreja, o lugar em que estamos, o tempo em que vivemos. O santo Vianney é o patrono dos padres; o lugar em que estamos é a Capela do Seminário, lugar de formar padres, e o tempo que vivemos é o de preparação para a Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro.

            Para cumprir a tarefa de pregar sobre este subtema, valer-me-ei de seis lugares distintos: a Palavra de Deus, o Magistério, a vida de Vianney, seus sermões, o pensamento de um não-crente e a minha experiência como jovem que foi alcançado pelo chamado de Deus ao ministério presbiteral. Contudo, não necessariamente nesta ordem, mas ao sabor da melhor mobilização de nossa pessoa à vontade de Deus em nossa vida.

            Na vida do Cura d’Ars, temos alguns episódios dos quais podemos nos servir para falar de seu amor à juventude. O primeiro deles remonta a sua ida para Ars, quando o pequeno pastor de 12 anos, Antonio Givre, mostrou-lhe o caminho de Ars e ele lhe disse: “Mostraste-me o caminho de Ars; eu te mostrarei o caminho do céu”. Este episódio profético sinalizou o que seria Vianney não só para a juventude, mas para todas as pessoas de sua paróquia de aldeia.

            O segundo episódio é o da luta de Vianney contra os bailes atrás da Igreja Paroquial de Ars, aos quais frequentavam os jovens aos domingos e que ele conseguiu por fim porque convenceu as autoridades e pais de família de o quanto estes bailes prejudicavam o futuro da juventude. O terceiro e último episódio é o da fundação da obra social chamada “A Providência” que era escola, orfanato e recolhimento para as meninas crianças e adolescentes de Ars e das vilas vizinhas, e que era dirigida por três jovens, das quais duas ele havia favorecido os estudos de Pedagogia no colégio das religiosas de Fareins, a 10 km de Ars. Paralela à fundação dessa instituição para as meninas, Vianney influenciou o prefeito para que João Pertinand, jovem natural de Ars, que realizou estudos na Escola Normal de Ain, assumisse a direção da Escola Pública. Pertinand ocupou o cargo durante 11 anos e depois Vianney conseguiu que a escola fosse confiada à Congregação dos Irmãos da Sagrada Família de Belley.

            Este último episódio pode parecer insignificante aos nossos olhos atuais, mas ao tempo de Vianney era um feito extraordinário, considerando que Ars era apenas uma pequena aldeia, que não havia escola regular alguma na aldeia e que os jovens de Ars, mal floriam para a vida, eram devorados pelo mal costume dos bailes. Além disso, este episódio demonstra o quanto Vianney acreditava no potencial dos jovens e investia no seu futuro. No evangelho de hoje (Mt 13,54-58), os conterrâneos de Jesus ficam admirados com o ensinamento dele na sinagoga, porque subestimavam a capacidade do filho de Belém, por isso dizem: “De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não moram conosco? Então de onde lhe vem tudo isso?” (Mt 13,54-57) E o evangelho deixa claro as consequência disso: “Jesus não fez ali muitos milagres, porque eles não tinham fé” (Mt 13,28).

            Todos nós fomos ou somos jovens e lidamos com jovens e sabemos que esse aspecto do descrédito é algo a que os jovens estão constantemente expostos. Vianney prefere um caminho oposto, o de acreditar. Talvez porque ele mesmo foi alguém acreditado. Lembremo-nos de sua experiência pessoal com o Padre Carlos Balley, pároco de Écully, que lhe acolheu em sua casa por três anos para ensinar-lhe o francês e o Latim, uma vez que em Dardilly, aldeia em que nasceu Vianney, era usada não a língua francesa, mas um dialeto. Depois, Pe. Balley lhe apresentou ao Bispo como candidato ao sacerdócio e este lhe acolheu no Seminário. Mesmo quando foi dispensado do Seminário por causa da deficiência no Latim, novamente o Padre Balley lhe acolheu em casa e se dispôs a continuar lhe ensinando. Desse modo, Vianney pôde ser aprovado nos exames e receber as ordens maiores. Como se não fosse pouco, o Padre Balley ainda o acolheu como Vigário Coadjutor em Écully. Bem se vê que foi daí que Vianney aprendeu a acreditar na juventude e a promover o seu futuro.

            Retorno ao episódio da fundação da casa “A Providência” para estabelecer a sua relação com o episódio dos bailes domingueiros. Pouco tempo depois chegar a Ars, Vianney celebrou o seu primeiro matrimônio na Paróquia, cujo noivo tinha apenas 18 anos e a noiva quatorze. Três meses depois, ele celebraria o batismo do filho deles. Esse episódio era indício dos costumes adotados nos bailes comuns não só a Ars, mas a todas as aldeias da região. Os jovens gostavam de frequentar a praça atrás da igreja, onde ficava o cabaré chamado “Disfarce”, principal responsável pelos bailes. Segundo testemunho de Catarina Lassagne, uma das jovens privilegiadas pelos cuidados do Padre Vianney, os jovens ficavam ouvindo música a tarde inteira de “quase todo domingo”.

Vianney teve duas medidas: primeiro o confronto direto com a juventude, indo interpelar esses jovens a fim de atraí-los à Igreja e terem escrúpulos de não se sentir mais à vontade em se divertir tão próximos da igreja. Em segundo lugar, “O Cura convenceu alguns pais e mães, em especial o prefeito e alguns membros do Conselho Municipal a decidirem que não haveria mais bailes no Disfarce, por ser muito perto da Igreja. Os bailes que viessem a ocorrer seriam realizados na periferia da aldeia” (p. 77). Com isso, os bailes ficaram-se mais raros em Ars e com pouca frequência. Até o bar que havia perto da Igreja, fechou as portas por falta de clientela, após o fechamento do “Disfarce”.

            Num dos seus 85 sermões escritos que foram preservados, encontramos um sermão sobre as danças, no qual ele faz referência justamente a esses bailes que haviam em Ars. Ali, nós lemos:

Você sabe tão bem quanto eu, que essas folias e extravagâncias selvagens, acontecem principalmente nos domingos e feriados. Que você me diz então daquele jovem ou daquela jovem que decidiram ir a um baile ou a uma festa dançante? Qual o amor que eles tem por Deus?

Só Deus sabe! Por outro lado, que tipo de amor a Deus uma pessoa pode sentir, quando seu coração está suspirando e pensando somente nos prazeres e nas criaturas?

Em sua argumentação, Vianney demonstra como os bailes incitam os jovens a ferir os dez mandamentos e os sete sacramentos. Exponho aqui a argumentação sobre o quarto mandamento: “O Quarto Mandamento diz que os filhos devem honrar seus pais. Esses jovens que freqüentam bailes, será que possuem o respeito e a submissão que eles devem a seus pais? Não, certamente que não. Eles causam a seus pais maior preocupação e desgosto do que você pode imaginar! Tanto pelo modo com o qual eles ignoram seus desejos e pelo mal uso que fazem do dinheiro, como também por criticarem e zombarem de seus pais chamando-os de ‘fora-de-moda’”.

Meus irmãos e minhas irmãs, essa postura do Padre Vianney diante dos bailes por parecer algo excessivo, por causa do escrúpulo jansenista que dominava a França, mas não deixa de ser um modo de zelo, porque o Cura d’Ars, assim como muitos de nós hoje, via como os jovens se feriam a si mesmos naqueles costumes, vendo ser tragada o seu horizonte de vida. Quer dizer, aquele modo de vida dos jovens tinha consequência prática em suas vidas, consequências desastrosas, e isso podia ficar fora do atenção pastoral de um padre.

            Em 2007, a CNBB publicou o Documento 85, intitulado Evangelização da juventude: desafios e perspectivas pastorais, no qual está dito que “A juventude mora no coração da Igreja e é fonte de renovação da sociedade” (n. 1). Para mostrarmos o nosso amor à juventude, em primeiro lugar “A fé há de ser apresentada aos jovens como um encontro amoroso com Deus, que toma feições humanas na pessoa de Jesus Cristo” (n. 3). O Papa Bento XVI já havia dito que na base do ser cristão está “o encontro com um acontecimento, com uma pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus Caritas Est, n. 1).

Em segundo lugar, a fé deve ser apresentada como “a aceitação de um projeto de vida baseado no seu Evangelho” (Doc. 85, n. 3) e a partir da realidade da própria juventude. Em terceiro lugar, a fé deve ser apresentada como uma realidade que colabora para a edificação de um mundo mais digno, e neste sentido é importante a consideração dos “valores da modernidade continuam sendo importantes para os jovens: a democracia, o diálogo, a busca de felicidade humana, a transparência, os direitos individuais, a liberdade, a justiça, a sexualidade, a igualdade e o respeito à diversidade. Uma Igreja que não acolhe esses valores encontra grandes dificuldades para evangelizar os jovens” (n. 13).

            Precisamos considerar o jovem como um lugar teológico. O Documento 87 afirma que “Considerar o jovem como lugar teológico é acolher a voz de Deus que fala por ele. […] De fato, Deus nos fala pelo jovem. O jovem, nesta perspectiva, é uma realidade teológica, que precisamos aprender a ler e a desvelar”. Trata-se de fazer uma leitura teológica do que, de forma ampla, chamamos de culturas juvenis” (n. 81).

            Vittorino Andreoli, psiquiatra e escritor italiano, e que se confessa não crente, no seu impressionante livro Padres: viagem entre os homens do sagrado, afirma que “A Igreja deve estar presente nos locais frequentados pelos jovens, porque é exatamente aí que se pode mostrar uma visão, um sentido diferente atribuído à diversão, ao trabalho e até ao estudo” (ANDREOLI, 2010, p. 160). Segundo ANDREOLI (2010, p. 160), no início da vida, entramos na igreja como entramos em casa ou na escola, quer dizer, de maneira natural; mas quando nos tornamos jovens “é preciso atrair ao templo, ativar dinâmicas que estimulem o interesse do mundo da infância e da juventude, e não há dúvida de que esta tarefa deva ser confiada sobretudo aos padres jovens”.

Nesse sentido, Andreoli vê “o padre jovem como aquele estrategista que se dedica a estudar estratégias operacionais para atrair os jovens ao templo, para executar aí coisas que talvez o jovem pense que possam ser feitas somente fora dele” (ANDREOLI, 2010, p. 161). Ele dá um exemplo a partir da música: “por qual razão se deve crer que a música juvenil deva ser vivida nas discotecas, raves, e de algum modo sempre em forma extrema e talvez sob o efeito de drogas?” (p. 161)

            Bem, pensar em São João Maria Vianney e o seu amor pela juventude, tomar a peito a Palavra de Deus de hoje, considerar o que nos diz a Igreja do Brasil sobre a evangelização da juventude e o que diz Andreoli sobre o padre jovem, só me faz pensar em mim própria vida, porque sou padre jovem e porque fui alcançado pelo amor pastoral de um padre jovem. Não fui criado pelo meu pai e a primeira figura paterna que tive em minha vida foi o Pe. Edilson Bispo Conceição, que chegou a Santo Amaro com 28 anos de idade incompletos. Padre criativo e dinâmico que criou a missa da juventude no Domingo a noite da movimentada Praça da Purificação e introduziu a bateria nas missas. Padre que vi introduzir trio elétrico nas procissões da multissecular cidade do recôncavo. Padre que vi empregar a juventude na Igreja e na sociedade. Padre que vi participar de passeios ciclísticos com óculos escuro e boné. Padre que vi buzinar à juventude da cidade para perguntar se estava na Catequese para a Primeira Comunhão ou para a Crisma; padre que vi na sala de aula, sendo meu professor e fascinando os alunos; padre que ouvi me chamar para o grupo de jovens, e depois para o serviço do altar e depois para o seminário, e que me fez desejar fazer a mesma coisa em minha vida. Agradeço a Deus pela vida deste padre e por ele ter incidido no horizonte de minha vida!

Concluo com mais uma afirmação de Vittorino Andreoli: “Um padre jovem deve recordar-se de que precisa ser perito em juventude, Pois ele é jovem, antes de tudo, e também porque é animado pela vontade de estar com os jovens e de apresentar um Cristo jovem, naturalmente sempre Cristo” (p. 163).

Pe. Adriano Portela

Padre Formador do Seminário São João Maria Vianney

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