Homilética

Pregação na 8ª Noite da Novena de N. Sra. da Purificação – 2012

Proferida em 31 de janeiro de 2012, na Igreja de N. Sra. da Purificação de Sto. Amaro

 

A beleza da Senhora da Purificação, eis o tema da Festa de Nossa Senhora da Purificação neste ano de 2012! Este tema convém a Maria, e tanto mais se invocada como a Doce Mãe da Purificação, como aqui acontece, nesta paróquia quadricentenária!

Para a tradição judaica, a purificação é um rito pelo qual as pessoas readquirem a harmonia, o equilíbrio, a integridade do seu ser – em outras palavras, a pureza, que é o estado de harmonia com que fomos criados por Deus. No parto, as mulheres perdem essa harmonia, por isso, os judeus consideravam que, depois de terem dado luz a uma criança, elas deviam cumprir o ritual de purificação.

Não que estivessem consideradas impuras por alguma razão moral, como se estivessem em pecado por conceber uma criança; mas sim porque, no dispêndio de energia e no esforço dramático que fazem para dar a luz, perdem o equilíbrio de seu ser, a harmonia. Até pouco tempo, tínhamos essa consciência e usávamos, inclusive, o termo resguardo ou quarentena para falar do período em que as mulheres se refaziam do parto.

Quando nos encontramos no estado de pureza – entenda-se aqui harmonia, equilíbrio, integridade – com que fomos criados por Deus, conservamos em nós a beleza de que Ele nos cumulou. Desse jeito, quando purificada, Maria restabeleceu a beleza que lhe foi dada por Deus. Por isso, podemos refletir com propriedade sobre a beleza da Senhora da Purificação! A Doce Mãe purificada é, de fato, bela, bonita, linda. Linda Mãe da Purificação! Linda porque integrada, linda porque pura!

Podia-se falar aqui, não da beleza como um atributo meramente físico, mas como um estado de alma provocado pelo cultivo de virtudes. E o Mons. Walter Jorge Pinto de Andrade fez bem em colocar nos sub-temas a reflexão sobre a beleza da humildade de Maria no acolhimento da vontade de Deus; a beleza da sua disponibilidade em servir à prima Isabel; a beleza de sua fé no cumprimento das promessas de Deus; a beleza de sua alegria no nascimento de Jesus; a beleza de sua pessoa, por ter meditado as palavras que lhe foram ditas; a beleza de sua coragem aos pés da cruz e a beleza de sua perseverança em Pentecostes. Humildade, disponibilidade, fé, alegria, coragem, perseverança – tudo isto são virtudes que nos fazem enxergar em Maria uma beleza sem igual.

Todavia, não foi para falar da beleza interior de Maria que fui chamado aqui – ainda que muito eu desejasse; tampouco foi para falar de sua beleza física, mesmo porque não teria como, uma vez que os Evangelhos não nos falam nada sobre a beleza física da Mãe de Jesus e nossa. Esta beleza só podemos intuir, como fizemos a pouco, porque uma pessoa purificada – isto é, harmonizada, integrada – só pode ser bonita!

Viemos aqui, para falar acerca da beleza da imagem da Mãe da Purificação, imagem da qual temos tanto orgulho e da qual, quando distantes, sentimos tamanha saudade! Incumbiu-me o Mons. Walter Jorge Pinto de Andrade de falar esta noite sobre o sub-tema: “Bonita a tua imagem, aqui venerada, que traduz tua grandeza!”

A imagem de Nossa Senhora da Purificação que aqui temos foi fabricada em Lisboa, e “A sua estatura são seis palmos [cerca de 1,32 cm], é de escultura de madeira, primorosamente obrada, e estofada de ouro com o mesmo primor”[1], segundo as palavras de Frei Agostinho de Santa Maria, em Santuário Mariano e História das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora (Tomo IX), publicado em 1722, a pedido de Dom Sebastião Monteiro da Vide, 5º Arcebispo da Bahia.

Já naqueles idos, Frei Agostinho de Santa Maria faz um impressionante relato da beleza da imagem da Mãe da Purificação aqui venerada: “É esta Santíssima Imagem de grande formosura – diz ele -, e assim está atraindo a si os corações de todos os que nela põem os olhos, e com a soberana graça, e majestade, que mostra, é muito grande a devoção, com que é buscada de todos, e servida generosamente” (ibidem).

A grande formosura da imagem da Mãe Puríssima a que se refere Frei Agostinho, na verdade, não é um atributo exclusivo desta imagem de Nossa Senhora que aqui invocamos. A arte sacra sempre buscou representar na beleza física de Maria todo o encanto de sua interioridade, porque a beleza exterior exprime a beleza interior da pessoa humana. E quem mais que Nossa Senhora teve o interior ornado com tão grandes virtudes? Não fosse assim, não lhe teria saudado o anjo Gabriel “cheia de graça”. Por isso, meus irmãos e minhas irmãs, a imagem de nossa Mãe Puríssima só poderia ser assim, doce no olhar e serena no semblante; com este olhar que nos toma de encanto, quase que a sorrir com os olhos, de tão vivos que são – por vezes, muito mais vivos, muito mais repletos de brilho e luz, que os olhos de tantos de nós, seus filhos e filhas amados.

Mas para que serve tanta beleza numa imagem? Que coisa acrescenta para o nosso seguimento de Jesus? Pode causar-nos a leve impressão de ser coisa fútil, dispensável para a causa do Evangelho. Mas essa beleza não é só beleza: ela dialoga com o espaço litúrgico, ela tem um conteúdo, ela comunica. Na Igreja, nada é arte pela arte! A função de toda beleza é mobilizar a pessoa desde os seus pontos mais sensíveis para conduzi-lo ao Bom e ao Bem e para comunicar-lhe uma Verdade.

Quem não se recorda da história de Judite que ganhou o coração de Holofernes, general da Assíria, com a sua beleza e que, por causa disso, conseguiu salvar o seu povo? Ou quem não se recorda da Rainha Ester que também ganhou o coração do Rei Assuero e por isso livrou os judeus da perseguição? Elas usaram de sua beleza para cumprir a vontade de Deus, que era amparar o povo escolhido. Isso faz jus à etimologia da palavra beleza, que vem do sânscrito e significa “o lugar em que Deus brilha”. Por isso, meus irmãos e minhas irmãs, podemos dizer junto com Dostoievsky, escritor russo, que “A beleza salvará o mundo”! Através da beleza, Deus opera a sua obra maravilhosa!

Frei Agostinho de Santa Maria, na obra já mencionada, diz que “É tão grande a devoção da gente de toda aquela Freguesia para com a Senhora da Purificação, que a muitas pessoas se representa com mudança no semblante… porque os que chegam à presença da Mãe de Deus com boa consciência, a vêem muito alegre, e os que chegam com ela menos pura, a vêem com semblante carregado, como quem está sentindo grande perigo, em que nos põem as culpas, e o esquecimento de Deus […]. E os que entram na Igreja desta grande Senhora, e chegam com a sua consciência limpa, a vêem como quem está respirando alegrias, mostrando o quanto se alegra de que amemos muito a graça, e a amizade de Deus, para que também melhor mereçamos a sua.” (p. 133)

A beleza da Senhora da Purificação nos mobiliza o coração para a verdade de nossa vida e nos conduz para o Cristo, o Divino Infante que ela trás nos braços, o seu Filho muito amado! Olhemos para ela, olhemo-na, e vejamos em seu semblante a verdade que ela revela sobre a nossa vida. Deixemos que a sua beleza nos fale ao coração, nos comunique as verdades eternas!

Terna Senhora, a beleza de teus olhos nos mostram a Verdade – a verdade de Deus e a nossa verdade; os teus braços nos oferecem o Bem, Jesus Cristo, que trazes com tanto carinho. Mãe, é “Bonita a tua imagem, aqui venerada, que traduz tua grandeza!” Vimos, viemos e viremos ainda outras tantas vezes pedir-lhe o remédio de nossas necessidades e o alívio de nossas penas, enfermidades e tribulações. Queremos experimentar, Doce Mãe, de seus remédios, alívio e consolação; por isso, recolhe em teu coração o sorriso, as lágrimas, as dores, as alegrias, os sofrimentos, as esperanças de cada um de nós!

E para te louvar, ó Mãe, recito agora, o Totta Puchra em que és reconhecida como nossa alegria!

 

TOTTA PULCHRA

Tota Pulchra es, Maria!                                              Toda Bela sois, Maria!

Tota Pulchra es, Maria!                                              Toda Bela sois, Maria!

Et macula originalis non est in te!                         E a mancha original não há em ti!

Et macula originalis non est in te!                         E a mancha original não há em ti!

Tu, Gloria Ierusalem!                                                 Tu, Glória de Jerusalém!

Tu, Laetitia Israel!                                                       Tu, Alegria de Israel!

Tu, honorificentia populi nostril!                          Tu, Honra do nosso povo!

Tu, advocata peccatorum!                                        Tu, Advogada dos pecadores!

O Maria!                                                                         Ó Maria!

O Maria!                                                                         Ó Maria!

Virgo Prudentissima,                                                Virgem Prudentíssima,

Mater Clementissima,                                              Mãe Clementíssima,

Ora pro nobis.                                                              Rogai por nós.

Intercede pro nobis                                                    Intecedei por nós

ad Dominum Iesum Christum!                              ao Senhor Jesus Cristo!

 

Pe. Adriano Portela

Formador no Seminário São João Maria Vianney e Administrador da Paróquia Sagrada Família/Itapuã

[1] Frei Agostinho de Santa Maria, 1722, p. 134. Atualização ortográfica realizada pelo Pe. Adriano Portela.

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