Homilética

Homilia na Festa do Sagrado Coração de Jesus em Santo Amaro-BA

 

Pregada na Igreja Nossa Senhora da Purificação, em 20 de junho de 2010

 

Celebramos hoje a festa do Sagrado Coração de Jesus, transferida para esta data por causa da Trezena de Santo Antônio. Pouco importa a data, muito mais importante é que honremos o Sagrado Coração de Jesus. Muitas vezes perdemos oportunidades porque esperamos datas… as datas são pretextos para o que devemos fazer todos os dias. Todos os dias são ocasião propicia para honrarmos o Sagrado Coração de Jesus!

Saúdo o Monsenhor Walter Jorge Pinto de Andrade, pastor desta quadricentenária Paróquia, um homem a quem o influxo do anos não tirou a qualidade de ser um legítimo pároco, um pároco completo. Saúdo os diáconos, dos quais extraí, no meu tempo de seminário, a perspectiva na qual desejo viver o ministério ordenado, em comunhão com a comunidade de fé. Saúdo as Religiosas de Nossa Senhora dos Humildes, presença constante em nossa Cidade. Saúdo à Presidência e aos demais membros do Apostolado da Oração de nossa Paróquia, a quem agradeço o convite para pregar esta Missa de Festa. Meus cumprimentos a todo o Povo de Deus reunido nesta assembléia litúrgica. Graça e paz a todos em Cristo Jesus!

A liturgia deste Domingo, o 12º do Tempo Comum, interpela-nos ao conhecimento de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?”, perguntou o Cristo aos seus discípulos de ontem; nós somos os seus discípulos de hoje, por isso ele pergunta novamente: “E vós quem dizeis que eu sou?” (Lc 9,20) Naquele tempo, Pedro deu a sua resposta em nome dos Doze: tu és “O Cristo de Deus”; qual resposta damos nós agora?

Melhor que saber qual resposta damos agora é saber como daremos esta resposta. Faço uma pausa no Evangelho. Detenho-me na 1ª leitura, na qual o profeta Zacarias diz: “Assim diz o Senhor: Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de oração; eles olharão para mim” (Zc 12,10). Meus irmãos, minhas irmãs, eis o modo como chegaremos a conhecer o Senhor: olhando para ele! Deus derrame sobre nós, portanto, um espírito de graça e de oração, para que olhemos para o seu Filho e saibamos quem Ele é. Saberemos responder quem é o Senhor, quando olharmos para ele, na oração, sobretudo com a Palavra de Deus!

A oração é um encontro; é a maneira que temos para manter a nossa relação com Deus: através dela nós o olhamos, nós o sentimos, nós o conhecemos! Por isso, é importante orarmos, seja de que forma for, contanto que conheçamos a quem dizemos seguir. Não tem coisa mais triste do que não conhecermos aqueles com quem convivemos; não conhecê-los significa faltar contra eles; significa feri-los, magoá-los. Quantas mães e pais, por exemplo, magoam os seus filhos por não conhecê-los? E por que não os conhecem? Porque não os olham! Os filhos estão ali, todos os dias, mas os pais não os olham… seus filhos entram e saem pela porta de casa sem que seus pais sejam capazes de enxergar que eles vestem uma bermuda diferente, calçam uma sandália nova; de enxergar que eles estão tristes ou alegres. Por isso, muitos pais faltam contra seus filhos, os quais, não poucas vezes, acabam enveredando em descaminhos: isso é feri-los; isso é magoá-los. Falta a dinâmica de oração nas famílias e em tantas instâncias da sociedade: não nos olhamos, não nos conhecemos mais!

Quando nos damos conta, não conhecemos aqueles com quem convivemos e somos tomados pelo pranto! É por isso que Deus diz através do mesmo profeta Zacarias: … “eles olharão para mim. Ao que eles feriram de morte, hão de chorá-lo, como se chora a perda de um filho único, e hão de sentir por ele a dor que se sente pela morte de um primogênito” (Zc 12,10). O choro é a consequência do ver e a causa da mudança! Quando vemos, choramos; quando choramos, mudamos! Davi viu seu pecado contra Urias e chorou; chorou e mudou! Que Deus, então nos dê este espírito de graça e de oração, para que vejamos o seu Filho e choremos, para que choremos e sejamos convertidos.

Caros fiéis, quando olharmos Jesus, quando o conhecermos, choraremos. Choraremos porque veremos que não o conhecíamos, choraremos porque veremos que estávamos distantes dele; choraremos porque veremos que não temos sido seus discípulos. Como assim? Por que não o conhecíamos, por que estávamos distantes dele, por que não temos sido seus discípulos, se estávamos sempre com ele, se estávamos sempre nas missas e na Igreja? Neste ponto, nos ajuda a 1ª carta de São João, quando diz que “Sabemos que o conhecemos se cumprirmos seus mandamentos. Quem diz que o conhece e não cumpre seus preceitos, mente e não é sincero. (…) Nisto conhecemos que estamos com ele. Quem diz que permanece com ele deve agir como ele agiu” (I Jo 2,3-6).

Na liturgia de hoje, temos dois pontos práticos para avaliarmos se conhecemos realmente o Cristo: a igualdade e a renúncia. Na 2ª leitura Paulo nos diz: “Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. (…) O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só, em Jesus Cristo” (Gl 3,26.28). No Evangelho, Jesus diz: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9,23-24).

A Palavra de Deus nos dá, pois, dois pontos práticos para avaliarmos o nosso seguimento de Jesus: igualdade e renúncia. E como temos vivido nestes dois pontos? Escutamos notícias de homens negros discriminados, acusados de furtos inocentemente nos shoppings e lojas, humilhados nas Universidades por serem favorecidos pela lei das cotas; temos ciência de mulheres que são espancadas pelos maridos e que, se dão queixa, são humilhadas nas delegacias; sabemos do desrespeito aos idosos, inclusive nas famílias. Não vivemos, portanto, uma igualdade!

Jesus fez-se um Cristo não glorioso, mas sim servidor. Entretanto, queremos para nós a glória a qualquer custo; rejeitamos todo e qualquer tipo de cruz; preferimos o que não nos custa, nossa lógica é da vantagem, a do lucro e tudo o que não seja consoante a isto, nós descartamos de nossa vida. Portanto, não vivemos a renúncia, mas sim as vantagens. Não conhecemos o Senhor, não sabemos quem ele é!

Senhor, neste dia em que rezamos contigo, dá-nos olhos com que te ver; dá-nos olhos com que chorar o nosso desconhecimento de ti; dá-nos olhos com que enxergar que o Senhor é o dono de um coração chagado, que o Senhor, sendo Deus, se fez um de nós; e que, tendo a glória, preferiu a cruz, por amor! Amém!

Pe. Adriano Portela

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s