Homilética

Homilia da Festa do Bonfim de Santo Amaro – 2010

FESTA DO BATISMO DO SENHOR
Pregada na Capela do Senhor do Bonfim de Santo Amaro em 29 de janeiro de 2010

A Igreja celebra, neste dia, a Festa do Batismo do Senhor, e é ainda dentro deste contexto do Tempo do Natal que celebramos particularmente a Festa do Amado Senhor do Bonfim de Santo Amaro, cujo tema central é “O Amado Senhor do Bonfim nos convida a anunciar e testemunhar o seu Reino de justiça, amor e paz”.

São, portanto, duas motivações que celebramos neste dia. De um lado, temos a Festa do Batismo do Senhor, que é um desdobramento do Natal de Jesus; do outro, temos a Festa do Senhor do Bonfim, que recorda a Paixão de Jesus, o seu “bom-fim”. Que coisa háde comum entre estas duas festas que parecem ter perspectivas tão distintas, uma vez que o Batismo está para o início, enquanto o Bonfim está para o término da caminhada de Jesus? Vejamos que coisa significa o batismo, para que possamos descobrir que relação ele tem com o “bom-fim”. Vejamos também que coisa tem a ver o batismo e o bom-fim com a justiça, o amor e a paz.33cccbde4a1b367d8191d3148c46ae43

No evangelho desta Festa (Lc 3,15-16.21-22), lemos que, “Quando todo o povo estava sendo batizado [por João Batista], Jesus também recebeu o Batismo. E, enquanto rezava, o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu veio uma voz: “Tu és o meu filho amado, em ti ponho o meu bem-querer” (vv. 21-22). Ao João batizar Jesus, o Pai manifesta a sua paternidade em relação àquele que fora batizado: “Tu és o meu filho amado, em ti ponho o meu bem-querer”. Se Deus fala, é para dizer quem é Jesus: seu “Filho”, objeto de todo o seu amor.

O batismo de João não é o mesmo batismo nosso: João batizava para perdão dos pecados; nós batizamos para inserir a todos na vida da Trindade. Todavia, o que aconteceu a Jesus, no batismo de João, é a mesma coisa que acontece em nosso batismo: o Pai manifesta a sua paternidade em relação a nós; não por nós mesmos, mas por causa de Jesus. Somos filhos no Filho, foi Ele quem nos adquiriu a filiação divina.

O Batismo manifesta o desejo de Jesus de ser não somente um de nós, mas um conosco, verdadeiramente o Emanuel! Deus faz uma descida radical e paulatina, do céu à terra; da terra, à água; e da água, ao sepulcro. Não é a toa que todo o mistério de Cristo no mundo pode ser resumido com a palavra “Batismo”, “imersão”.

Nascimento, Batismo e Crucificação: tudo isso é Encarnação, porque a Encarnação não acabou no dia em que nasceu Jesus de Maria. Ela prosseguiu no momento em que ele desceu as águas do Jordão, mesmo inocente, para fazer-se nosso irmão em todas as situações. Ele não tem parte com o pecado, mas solidariza-se conosco, por isso, no Jordão, ele começa a tomar sobre si as nossas culpas, como o “cordeiro que tira os pecados do mundo”, deixando-se batizar; e esta sua iniciativa só terá termo na cruz, no seu “bom-fim”, seu definitivo batismo, posto que de sangue.

A verdade é que no Batismo, Jesus faz-se mais ainda irmão para que sejamos filhos. Somos filho n’Ele, por isso, a relação que se estabelece no batismo que recebemos não é mais de Criador e criatura; a relação é de Pai e filho, paternidade e filiação. Não é que passamos a ser filhos no Batismo, porque antes não éramos; acontece que no batismo é-nos declarada a nossa filiação: “Tu és o meu filho amado [a minha filha amada], em ti ponho o meu bem-querer”; diz-nos Deus quase que se inclinando para nós, como faz um pai com o seu filhinho (Os 11,4).

            O Batismo passa pela mesma dinâmica do Natal e do Tríduo Pascal. Se o Cristo deitado na manjedoura é o mesmo Cristo pregado na Cruz; o Cristo descido nas águas do Jordão é o mesmo Cristo deitado na manjedoura e o mesmo Cristo pregado na Cruz. É a mesma dinâmica de amor, que faz o Senhor se abaixar até nós na manjedoura, nas águas do Jordão e na Cruz. Todas estas são atitudes daquele que deseja se abaixar para elevar, abrindo o céu, como nos abriu ao subir das águas do batismo. O evangelho diz que, “enquanto [Jesus] rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu em forma visível, como pomba” (Lc 3, 22). Esta é a relação entre Batismo e a Cruz: sempre é Deus querendo nos salvar!

No batismo, somos inseridos na vida da Trindade, através de Jesus; na verdade, somos inseridos na morte e ressurreição do Cristo, tanto que o Apóstolo dos Gentios diz que, “Pelo batismo, fomos sepultados com ele em sua morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos…, assim também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). Esta vida nova nós a ganhamos do Senhor do Bonfim, porque é a Ele, o Cristo morto e ressuscitado que nós somos assimilados; daí sermos chamados cristãos, novos Cristos. Somos irmãos do Senhor, que é o Primogênito de muitos filhos. O Pai deseja que sejamos como é o seu Filho Primogênito: é este imperativo que nos dá o batismo! Neste sentido, o Atos dos Apóstolos nos diz que sabemos “o que aconteceu em toda a Judéia, a começar pela Galiléia, depois do batismo pregado por João: como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte fazendo o bem e curando a todos os que estavam admirados pelo demônio, porque Deus estava com ele”. (10, 37-38). O nosso Senhor, Aquele que é nosso irmão e que devemos imitar, “andou por toda a parte fazendo o bem” (At 10).

O profeta Isaías, na 1ª Leitura (Is 42,1-4.6-7), transmite-nos as palavras de Deus acerca do Messias: “Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minh’alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações” (v. 1). O Messias promoverá o julgamento das nações, com a força do Espírito. O profeta diz ainda que “Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. ³Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade” (v. 2). Como ele promoverá a justiça sem clamar nem levantar a voz? O tema deste ano da nossa festa nos diz que “O Amado Senhor do Bonfim nos convida a anunciar e testemunhar”. Ora, a evangelização não se faz com palavras apenas. Francisco de Assis dizia aos seus irmãos: “Prega sempre, quando necessário, usa a palavra”. O anúncio está mais associado à palavra, enquanto o testemunho esta mais associado à própria ação; contudo, testemunho é anúncio; na verdade, é o mais eloqüente anúncio, porque se a palavra convence, o testemunho arrasta!

Irmãos e irmãs, qual é o testemunho que devemos dar ao mundo? Que Reino de justiça, amor e paz é este? No texto do profeta Isaías, o Senhor diz: “Eu […] te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas”. (Vv. 6-7) Esse é o mesmo conteúdo programático da missão de Jesus, depois que batizado, em Lc 4, 18-19, após o Batismo: proclamar a libertação aos presos, recuperar a vista aos cegos, dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça. Mas não é só essa a justiça, o amor e a paz que devemos anunciar com o testemunho de nossa própria vida. Tem muito mais! O Reino de justiça, amor e paz ainda em nossos dias é não fazer distinção de pessoa. Pedro entendeu isso, como disse na 2ª Leitura: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença”. (At 10, 34).

Por isso, meus irmãos e irmãs, se queremos fazer jus ao nosso batismo, se queremos de fato venerar o Amado Senhor do Bonfim, não colaboremos com a discriminação racial, porque Deus fez o negro e o branco vermelhos no sangue e o nosso irmão Jesus nasceu moreno da raça de Abraão; não colaboremos com o descaso com os idosos: são tantos filhos que surrupiam o dinheiro de seus pais idosos!; não colaboremos com o abuso sexual de crianças fora ou dentro do lar (Isto acontece mais do que imaginamos: a nossa cidade está na rota das cidades com maior índice de abuso infantil!); não colaboremos com o machismo e a violência doméstica contra mulher: são tantos os maridos que agridem suas esposas física e verbalmente em seus lares – encontramos estes inclusive em nossas comunidades; não colaboremos com a perseguição aos homossexuais, uma perseguição fútil, capaz de esquecer a dignidade de filho de Deus que todo ser humano tem!

Não colaboremos, meus irmãos e irmãs, com a exploração empregatícia que vemos por aí a fora: nos lares de nossa cidade, há secretárias do lar – empregadas domésticas, no populacho – que vivem como se escravas fossem, tendo que suportar os maiores disparates dos senhores seus patrões! No comércio, jornadas de trabalho longíssimas, sem direito às horas extras, por vezes.

            Anunciemos o Reino de Deus com a nossa vida, vivamos nosso batismo, sejamos como Jesus, de quem Isaías disse que: “Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra; os países distantes esperam seus ensinamentos.” (v. 4). Não nos cansemos de praticar a justiça, o amor e a paz! Não perdemos nada em andarmos fazendo o bem; antes, só ganhamos!

Diác. Adriano Portela
Santo Amaro, 29 janeiro de 2010

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